Tem um quê de Franz Kafka nesta obra russa

Muito se falou sobre ‘Leviatã’, o representante da Rússia na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro em 2015. O filme do diretor Andrey Zvyagintsev foi acusado de esboçar uma caricatura do país cheia de clichês para agradar a estrangeiros e, assim, arrebatar prêmios mundo afora. A obra foi chamada de antirrussa, pessimista, reflexo da oposição crescente entre Rússia e Ocidente que remete, inclusive, à hostilidade da Guerra Fria. É grande a lista de alfinetadas.
Talvez todos os descontentes com o resultado exibido em ‘Leviatã’ tenham mesmo razão. Ou não. Ao contar a história de uma família que perde na Justiça a batalha para um prefeito mau caráter, Zvyagintsev entrega um trabalho bem estruturado que, mesmo fundamentado no contexto particular de uma nação, não deixa de ter apelo universal. Aí é que está sua grandeza, qualidade de toda obra de arte que consegue esse feito.
Com diálogos ácidos, enquadramentos precisos e belas imagens, o diretor promove na tela um desfile de injustiças, abuso de poder, relações estreitas entre Igreja e Estado. Difícil não lembrar do escritor tcheco Franz Kafka e da sua crítica ao absurdo dos sistemas na modernidade. A referência religiosa permeia todo o filme, a começar pelo próprio nome e pela relação profunda entre o protagonista e Jó, figura bíblica famosa por ter sua fé testada diante de várias desgraças.
O filme pode mesmo conduzir a uma dicotomia, dividindo o público entre os que o acham uma profusão de clichês e arma ideológica vinda da própria Rússia para atacar o país e aqueles outros tentados a considerá-lo uma obra respeitável. O fato é que, independentemente da tendência do leitor para encaixar-se em qualquer um dos dois lados, vale a pena conferir o que esse exemplar do cinema russo contemporâneo tem a oferecer.





















