A saga bíblica de Ridley Scott

É inevitável a polêmica. ‘Êxodo – Deuses e Reis’, de Ridley Scott, propõe-se a contar uma história da Bíblia, mas com pinceladas criativas do cineasta. Parte do público criticará essa iniciativa, enquanto tantos outros poderão elogiar a tentativa de dar detalhes novos (por menores que sejam) a uma velha história conhecida.
O filme começa tíbio, sofrendo de objetividade. Além disso, aparenta ser apenas uma explosão de clichês dos épicos do tipo “espada e sandálias”: ostentação, músicas de impacto em momentos considerados de grande emoção, tomadas bem abertas para dar conta de exibir cenários grandiosos, cenas de multidão e batalhas com direito a muita violência.
Aos poucos, porém, a adaptação do livro da Bíblia que narra a libertação do povo hebreu da escravidão egípcia ganha força e conquista justamente pela competência com que Scott constrói situações cruciais do relato: a forma como Deus se apresenta ao libertador Moisés (Christian Bale), a inserção de um processo de conversão do profeta, as pragas no Egito, a abertura do Mar Vermelho.
Há liberdades na construção narrativa, sim. No entanto, as escolhas do diretor são bem superiores, por exemplo, às licenças poéticas feitas em um “parente” recente de ‘Êxodo – Deuses e Reis’. Em ‘Noé’, Darren Aronofsky transformou a adaptação da história do famoso personagem da arca em um ‘Senhor dos Anéis’ bíblico com pitadas de dramalhão mexicano (não me pergunte como isso é possível).
Para um diretor que apostou no monumentalismo em sua filmografia (‘Gladiador’ e ‘Robin Hood’), a decisão de adaptar o relato de Moisés é outro acerto quando o que se pretende é expor um produto épico centrado na típica jornada do herói. A história original já possui uma série de elementos que favorecem a provação e o amadurecimento do protagonista: além da questão da fé, há conflitos familiares, políticos e sociais envolvidos.
É gritante a estratificação social.Faz-se necessário um herói que transite entre os mundos dos poderosos e dos miseráveis. Há, claro, derramamento de sangue. Mas nada que fuja do contexto do Antigo Testamento. E, além de tudo, Christian Bale consegue fazer com que quase nem nos lembremos de que ele foi o Batman de Christopher Nolan.





















