Sobre músicas e recomeços

Leve, agradável e com trilha sonora farta. Eis algumas características de ‘Mesmo Se Nada Der Certo’, um filme ambientado no meio musical e que, na verdade, é um singelo retrato do processo dos recomeços, sejam eles sentimentais ou profissionais. Apesar de simples, o título original, ‘Begin Again’ (“começar de novo”), é eloquente nesse sentido. Quem comanda a transposição do próprio roteiro para a tela é o diretor irlandês John Carney, que já integrou a banda ‘The Frames’ e, em 2006,dirigiu ‘Apenas Uma Vez’, filme ganhador do Oscar de melhor canção.
Em quase duas horas o espectador acompanha de que modo interceptam-se os caminhos de Gretta (Keira Knightley), Dan (Mark Ruffalo) e Dave (Adam Levine, vocalista da banda Maroon 5, em sua estreia no cinema). Gretta é uma compositora de talento, mas anda depressiva por ter rompido com o namorado Dave, um astro em ascensão. Enquanto chora as mágoas cantando em um bar, Gretta chama a atenção de Dan, um produtor musical com grandes momentos no passado, mas que, agora, amarga a carência de talentos a serem lançados e a crise das gravadoras ocasionada pelo compartilhamento de arquivos na internet.
A forma como Gretta e Dan se conhecem está no centro de uma dinâmica narrativa que repete a cena em questão, porém mostrando os caminhos diferentes que levaram os protagonistas até aquele momento. É uma estratégia que funciona, foge dos clichês do gênero e brinda o espectador com a cena que, ao ser repetida, ganha maior carga de significado. E poesia.
Afirmar que “as músicas revelam muito sobre as pessoas” não é nenhuma genialidade, mas observar em qual contexto essa afirmação surge no filme faz diferença. Assim como também chama a atenção acompanhar as reflexões de Dan sobre como uma canção é capaz de transformar banalidades, pequenas cenas do cotidiano, em verdadeiras “pérolas lindas, efervescentes”. Basta ter um pingo de sensibilidade para embarcar nesse processo. Enfim, ‘Mesmo Se Nada Der Certo’ dá certo: revela-se um filme prazeroso de se ver. E ouvir.





















