‘Cópia Fiel’ é profundo e natural na medida certa

“Se fôssemos mais tolerantes com as fraquezas alheias seríamos menos sozinhos”. O que pode ser interpretado como algo óbvio, ganha sentido especial no contexto em que aparece no filme ‘Cópia Fiel’, de Abbas Kiarostami. Reflexões sobre “contexto”, aliás, não faltam nesta obra do diretor iraniano em que um casal se conhece no interior da Itália.
Num primeiro momento, o filme mostra as reflexões filosóficas entre os protagonistas. De um lado, está James Miller, renomado professor inglês (William Shimell) que vai a uma região da Toscana para proferir palestra sobre o lançamento em livro do seu ensaio premiado. São análises a respeito da relação existente entre a cópia e o original no mundo das artes. De outro lado está a francesa Elle (Juliette Binoche), dona de uma galeria de arte, que há anos vive em terras italianas.
Tendo como inspiração o ensaio do professor, um dos longos diálogos iniciais fala sobre a importância que as pessoas dão às coisas dependendo do... contexto. O trivial, no cotidiano, é ignorado. Mas se essa mesma trivialidade é inserida em um museu, por exemplo, ganha status de arte. “As crianças falam o óbvio e a gente ignora, mas se o mesmo é dito por um filósofo ou escritor, a gente acha maravilhoso”, diz o professor inglês.
Em seu conjunto, a conversa lembra muito o texto clássico ‘A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica’, do filósofo Walter Benjamin, leitura obrigatória para estudantes de comunicação e artes. No ensaio, Benjamin defende que a obra de arte original perde seu encanto, sua “aura”, diante da possibilidade de ser indefinidamente reproduzida.
Mas paremos por aqui com as explicações acadêmicas. Até porque o filme de Kiarostami é fortemente ancorado na simplicidade. Se o diálogo dos protagonistas, inicialmente, é marcado por passeios filosóficos mais profundos, as situações pelas quais eles passam são as mais naturais possíveis: uma curta viagem de carro, a visita a um museu, uma conversa regada a café. Aliás, o próprio material de divulgação do filme avisa: “Esta é uma história comum. Poderia acontecer com qualquer um. Em qualquer lugar”.





















