O Brasil que cabe em uma casa

A diretora de obras como ‘Durval Discos’, ‘É Proibido Fumar’ e ‘O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias’ demonstra entender do que faz. E, desta vez, em ‘Que Horas Ela Volta?’, Anna Muylaert usa o que sabe para falar da relação entre abastados e pobres no Brasil. Val (Regina Casé) saiu de Pernambuco para buscar melhores condições no Sudeste e, assim, criar sua filha Jéssica (Camila Márdila). Mas a distância: Val deixou Jéssica no Nordeste. Ao ser babá de Fabinho (Michel Joelsas), em São Paulo, Val ganha a confiança dos patrões e acaba sendo uma espécie de mãe substituta para o menino em uma família financeiramente confortável, porém sentimentalmente apática.
Prestes a fazer vestibular, Jéssica desembarca em São Paulo. E logo revela-se um elemento que surge para acabar com a aparente calmaria reinante na relação entre patrões e empregada. A filha da criada mostra-se “segura demais de si”, segundo observa Fabinho. Aquilo que Val considera gratidão e respeito dos empregadores, Jéssica logo avalia como servidão e submissão exagerada.
Já nos segundos iniciais de ‘Que Horas Ela Volta?’ Anna Muylaert mostra que é uma cineasta cuidadosa. A cena de abertura contém inúmeros elementos para evidenciar: naquele ambiente mora uma criança. Aos poucos o espectador pode ver que o cuidado com os detalhes perpassa todo o filme. Os enquadramentos do quarto da empregada são claustrofóbicos e a paleta de cores remete a sujeira e impessoalidade. O espaço dos patrões, cheio de obras de arte, é mostrado de forma ampla. Um jogo de xícaras ganha destaque. As cores e a forma como esses utensílios são dispostos em cena fazem lembrar um jogo de xadrez. E recordam a movimentação e segregação de classes e etnias no Brasil.
Um ponto falho na obra é o excesso de merchandising, mas isso torna-se detalhe em meio às qualidades. Afinal, com seu enfoque do microcosmo de uma família de classe média alta de São Paulo, ‘Que Horas Ela Volta’ consegue ser um retrato do próprio Brasil atual.





















