‘A Travessia’ é soberbo naquilo que se propõe

Quando se ouve falar de modo superficial do filme ‘A Travessia’, de Robert Zemeckis, a tendência é achar que se trata, pura e simplesmente, de cinema espetáculo. Afinal, o filme conta a história do artista francês Philippe Petit que, em agosto de 1974, venceu ilegalmente a distância entre as Torres Gêmeas equilibrando-se em um cabo. A promessa é colocar o espectador nas alturas junto com o protagonista, graças ao 3D. Isso acontece. E é espetacular. A história, em si, teria tudo para ficar em segundo plano diante dos efeitos. Mas isso não acontece, o que é encantador.
A trama transita entre o cômico e o poético e sua fluência competente é capaz de enredar gradualmente quem a acompanha. Joseph Gordon-Levitt encarna o carismático personagem principal e sua obsessão de, em nome da arte e da ousadia, conquistar apoiadores de seu plano, burlar o esquema de segurança do World Trade Center e, efetivamente, realizar a performance perto das nuvens.
Assim como fazem os repórteres em uma das cenas, o espectador pode até perguntar-se o porquê desse projeto, a razão do esforço em algo grandioso (mas ilegal), a utilidade de uma ação como essa. Porém, o filme não tece julgamentos dessa natureza: ele se concentra em expor a concretização de um sonho e a beleza do companheirismo. “Viajando” um pouco mais, é possível estabelecer metáforas com a própria vida, essa grande travessia que não raras vezes coloca cada um na corda bamba e exige equilíbrio entre as situações mais contrastantes e desafiadoras.
Em termos de narrativa, o filme é bastante competente. Exemplos? A linha que lembra o cabo a ligar os dois prédios está presente em vários momentos (já a partir dos créditos iniciais); um guarda acompanha o equilibrismo de Petit em um parque e imaginamos que o homem da lei prenderá o artista rebelde que vive a desafiar policiais até que ficamos sabendo existir uma relação entre ambos; a aproximação com outra artista (vivida por Charlotte Le Bon) é feita de modo muito encantador; e uma cena do treino de Petit ainda menino envolvendo várias cordas é avassaladora em termos de significado. ‘A Travessia’, enfim, é soberbo naquilo que se propõe: entreter e cativar o espectador. E, claro, não deixa de ser uma bela homenagem às Torres Gêmeas.





















