Cinquenta tonalidades (e toneladas) de clichês

Pode a adaptação de uma subliteratura resultar em um bom filme? A resposta é mais do que óbvia. E se o livro em questão foi um fenômeno planetário de vendas, o filme retirado das páginas seguirá no mesmo caminho? Precisa dizer que a resposta é óbvia? Não estranhe aqui o uso e abuso da noção de obviedade. Esse contexto é altamente propício para falar de ‘Cinquenta Tons de Cinza’, o arrasa-quarteirões do momento que só não atrai mais gente para as salas escuras porque tem classificação indicativa elevada (mesmo com as cenas de sexo bem aliviadas por Hollywood em relação ao livro).
Mas tanto frenesi se justifica? Pelo ponto de vista do “estar antenado” ao assunto do momento, sim. Já pela ótica da concepção artística, obviamente não. A trilogia de E.L. James é uma invenção sofrível. O contexto é erótico, mas a condução da história e a elaboração (?) dos diálogos são infantilizadas e burocráticas. A construção dos conflitos é simplória. No geral, é um subproduto literário apimentado com sadomasoquismo para atrair multidões. E como o filme é bastante fiel ao livro, todos os defeitos possíveis e imagináveis das páginas estão na tela.
Então como, afinal, E.L. James acertou tanto se criou algo tão ruim, agora levado às telonas sob o comando da diretora Sam Taylor-Johnson? Além da assimilação extremamente fácil, com uma leitura que flui muito rapidamente, a obra contém incontáveis elementos básicos para mexer com o imaginário feminino. Christian Grey (Jamie Dornan) é um deus grego de beleza e riqueza. No entanto, tem uma faceta obscura de sua personalidade que pode ser lapidada com um amor sincero. Anastasia Steele (Dakota Johnson) é a jovem tímida e virgem, que se encanta com a possibilidade de desvendar os mistérios da alma do amado enquanto mergulha em um universo de novas experiências. E a dinâmica (?) desse relacionamento é turbinada com um aspecto menos comum da sexualidade: o sadomasoquismo.
Resumindo: o negócio é mesmo “coisa de cinema”, entendendo essa expressão como um mundo de sonhos e perfeição, prazer e ostentação, pequenos problemas que podem ser solucionados. Quando o conflito passa a ganhar um pouquinho de complexidade e atrair mais a atenção, com o casal começando a entender o quanto cada um está avançando em certos aspectos e precisa ceder em outros a fim de atingir um equilíbrio saudável para ambos, a tela fica preta.
Para muitos, os créditos finais que logo aparecem são como a frustração de um coito interrompido. Resta saber agora como é que vão conseguir fazer novos filmes se o material escrito que restou da trilogia é ainda mais sofrível que o do primeiro volume...





















