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Ícaro hollywoodiano

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Tiago Bubniak

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Muito se falou de ‘Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)’ assim que foi lançado. Comentou-se que o novo filme de Alejandro González Iñárritu é de alta qualidade por misturar, com capricho, a discussão de temas caros à própria arte, investir na metalinguagem ao tratar de cinema, indústria cultural, celebridades e ego e ousar na edição. Tudo foi  filmado para parecer que se trata de um único e longo plano-sequência, destacando a impressão de não haver cortes entre uma cena e outra.

Pois todo esse falatório se justifica. ‘Birdman’ é extremamente sarcástico com o próprio universo cinematográfico (e artístico em geral), alfinetando atores e diretores sem piedade e brincando com a avalanche de filmes de super-heróis que domina o cinema hollywoodiano. Sobrou até para a crítica. E isso é ótimo. A plateia ri aqui e ali. Entre um riso e outro, no entanto, há muita acidez séria sobre esse meio que pode ser tão libertador e inebriante, mas, também, tão claustrofóbico e vazio.

Riggan Thomas (Michael Keaton) é um ator que ainda sobrevive no imaginário popular por ter interpretado no cinema, por vários anos, o super-herói Birdman. Agora decadente e atormentado por uma voz misteriosa, ele tenta provar seu talento dirigindo e protagonizando uma peça na Broadway. O filme acompanha Thomas nessa empreitada e sua conturbada convivência com todos que o cercam, incluindo a filha Sam (Emma Stone).

‘Birdman’ é uma obra de coloração mais alegre na filmografia de Iñárritu, na qual constam produções densas como ‘Amores Brutos’, ‘21 Gramas’, ‘Babel’ e ‘Biutiful’ (que, de bonita, só tem o arremedo do título em inglês). Cômico e multirreferencial, este novo filme torna difícil não lembrar da conexão existente entre o ator/personagem Riggan Thomas/Birdman (ficção) e o ator/personagem Michael Keaton/Batman (realidade). Afinal, Keaton encarnou o super-herói na franquia comandada por Tim Burton. O resultado é surpreendente, com todo o elenco entregando-se apaixonadamente aos personagens. Vale destacar, ainda, o sarcasmo que jorra da situação que explica o porquê de o filme também chamar-se ‘A Inesperada Virtude da Ignorância’.

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