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Sobre o grande sentido que um parêntese pode ter

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Tiago Bubniak

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‘Amor Sem Escalas’, de Jason Reitman, busca inspiração em um contexto sócio-econômico específico: as consequências da crise de 2008, nos Estados Unidos. O filme, no entanto, está bem distante de ser datado. O pano de fundo é particular, mas as reverberações do enfoque são universais.

Aparentemente, ‘Amor Sem Escalas’ lança seus holofotes sobre a frieza do universo corporativo tendo como instrumento para isso a exibição de personagens especializados em demitir. É emblemática a cena na qual Natalie (Anna Kendrick) digita febrilmente um fluxograma com técnicas para mandar funcionários para a rua. A objetividade com que se pretende preparar desempregados para achar um novo espaço no mercado de trabalho e reduzir processos contra a empresa que demite é tanta que chega facilmente a ganhar novo nome: frieza.

Olhares levemente mais aguçados, no entanto, observarão neste trabalho de Reitman um debruçar-se sobre a humanidade que circula no  “desumano” e calculista organismo que é uma grande corporação. A história está repleta de sentimentos, mesmo que haja uma insistência (calculada e muito bem contextualizada) de ofuscá-los com o comportamento racional que se espera de um profissional respeitável. Assim, razão e emoção travam uma guerra intensa e, simultaneamente, discreta. Uma das batalhas escancara, de forma magistral, a alta carga de significação que um parêntese pode conter.

O protagonista (Ryan, interpretado por George Clooney) tem como emprego avisar aos outros que eles acabaram de ficar sem emprego. Se Ryan é muito bem sucedido no âmbito profissional, não se pode dizer o mesmo de suas relações de afeto, já que ele é solitário e mantém considerável distância da família. O título original, ‘Up in the Air’ (“no ar”, “indeciso”), diz muito sobre o personagem de Clooney, que, inclusive, vive de aeroporto em aeroporto, migrando daqui para lá para “tornar o limbo tolerável”. No caso, seria o limbo dos novos desempregados. Ou dele mesmo?

‘Amor Sem Escalas’ é um filme que certamente não agrada a muitos. Mas, visto com a merecida atenção, pode entrar para a lista das obras que têm muito a provocar. Principalmente em uma sociedade ultracapitalista e individualista.

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