‘Noé’ sofre dilúvio de invenções

Noé, o filho de Lamec e neto de Matusalém, é o centro das atenções em quatro capítulos do Livro do Gênesis. Há menções à sua história em outros momentos na Bíblia, mas a essência do relato que o envolve na famosíssima construção da arca para salvar do dilúvio os animais está mesmo entre os capítulos sexto e nono.
Esse material é curto demais para justificar uma produção cinematográfica de mais de duas horas, como acontece em ‘Noé’, dirigido por Darren Aronofsky e escrito por ele mesmo em parceria com Ari Handel. O próprio diretor divulgou que pretendeu dar uma abordagem nova aos épicos criando “um mundo bíblico de fantasia, como uma Terra Média”. E, realmente, dá-lhe fantasia e Terra Média.
Um dos exemplos mais gritantes do quanto sua “liberdade criativa” foi utilizada para rechear a história é a presença de guardiães de pedra, toscamente concebidos e gerados em tecnologia 3D. A Bíblia até menciona a existência de gigantes, mas daí a concebê-los da forma como o diretor fez é um disparate.
Não se trata, aqui, de defender fidelidade a um texto religioso e criticar a liberdade artística. O fato, simplesmente, é que a tal “licença poética” não funciona. Além da concepção de gosto duvidoso dos gigantes, há uma situação envolvendo descendência que perde feio para dramalhões mexicanos. Com o alto teor de invencionices, a “Terra Média” de Aronofsky logo conduz para a impaciência. O esdrúxulo fica ainda mais gritante quando se lembra: é um filme do mesmo cineasta responsável pelo excelente ‘Cisne Negro’.
As cenas que retratam exatamente o material original são as que mais têm capacidade para despertar a atenção. É o caso da chegada dos animais à arca, do dilúvio (já antecipado nos trailers) e do arco-íris. O restante é quase que totalmente dispensável. Um curta-metragem resolveria tudo. E pronto.





















