Fragmentos de um diário inexistente (IV)
Madrid, Espanha
Chego em Madrid às 8 da manhã. Vou ficar apenas algumas horas, não adianta telefonar para amigos, marcar algum encontro. Resolvo caminhar sozinho por lugares que gosto, e termino fumando um cigarro num banco do parque Retiro.
- Você parece que não está aqui - diz um velho, sentando-se ao meu lado.
- Estou aqui – respondo. – Só que há doze anos atrás, em 1986. Sentado neste mesmo banco com um amigo pintor, Anastasio Ranchal. Nós dois estamos olhando minha mulher, Christina, que bebeu além da conta, e está fingindo que dança flamengo.
- Aproveite - diz o velho. – Mas não esqueça que a lembrança é como o sal: a quantidade certa dá tempero a comida, mas o exagero estraga o alimento. Quem vive muito no passado, acaba sem presente para recordar.
Vôo de Belgrado para Barcelona
No jornal, um texto que recorto e coloco na maleta de mão. O autor é W. Timothy Gallway:
“Quando plantamos uma roseira, notamos que ela fica dormindo muito tempo no seio da terra, mas ninguém ousa criticá-la, dizendo:” “você não tem raízes profundas” ou “falta entusiasmo na sua relação com o campo”. "Ao contrário, nós a tratamos com paciência, água, e adubo.”
“Quando a semente se transforma em muda, não passa pela cabeça de ninguém condená-la como frágil, imatura, incapaz de nos brindar imediatamente com as rosas que estamos esperando. Ao contrário: nos maravilhamos com o processo do nascimento das folhas, seguido dos botões, e, no dia em que as flores aparecem, nosso coração se enche de alegria.”
“Entretanto, a rosa é a rosa desde o momento em que colocamos a semente na terra, até o instante em que, passado seu período de esplendor, termina murchando e morrendo. A cada estágio que atravessa – semente, broto, botão, flor – expressa o melhor de si.”
“Também nós, em nosso crescimento e constante mutação, passamos por vários estágios: vamos aprender a reconhecê-los, antes de criticar a lentidão de nossas mudanças.”
Brissac, França
Durante minha estada no castelo alugado por uma revista brasileira, um jornalista da região vem me entrevistar. No meio da conversa, assistida por outras pessoas, ele quer saber:
- Qual foi a melhor pergunta que um repórter já lhe fez?
Melhor pergunta? Acho que já me fizeram TODAS as perguntas, menos a que ele acaba de fazer. Peço tempo para pensar, estudo as muitas coisas que queria dizer e nunca quiseram saber. Mas no final, confesso:
- Acho que foi exatamente esta. Já tive perguntas que me recusei a comentar, outras que me permitiram falar sobre temas interessantes, mas esta é a única que não tenho como responder com sinceridade.
O jornalista anota. E diz:
- Vou lhe contar uma interessante história. Certa vez, fui entrevistar Jean Cocteau. Sua casa era um verdadeiro amontoado de bibelôs, quadros, desenhos de artistas famosos, livros, Cocteau guardava tudo, e tinha um profundo amor por cada uma daquelas coisas. Foi então que, no meio da entrevista, eu resolvi perguntar: “se esta casa começasse a pegar fogo agora, e você só pudesse levar uma coisa consigo, o que escolheria?”
- E o que Cocteau respondeu? – pergunta Álvaro Teixeira, responsável pelo castelo onde estamos, e grande estudioso da vida do artista francês.
- Cocteau respondeu: “Eu levaria o fogo”.
E ali ficamos todos, em silêncio, aplaudindo no íntimo do coração a resposta tão brilhante.





















