O amor acima do barulho

Sexo. Muito. E muito explícito. É gritante o uso desse recurso em ‘Love’, o mais novo filme de Gaspar Noé. Mas a decisão do diretor está igual e explicitamente inserida em um contexto: retratar o sexo como amor. Isso fica evidente quando se acompanha o abismo que separa dois momentos da trajetória do protagonista, Murphy (Karl Glusman): o antes, uma vida na qual o sexo era prazer, liberdade e entrega sublime à amada, Electra (Aomi Muyock); e o agora, um casamento forçado pelas circunstâncias no qual a convivência com a esposa (Klara Kristin) é desconfortavelmente exibida como fonte de opressão e tédio.
A sinopse revela uma história simples: homem está com sua atual mulher por “obrigação”, mas lembra-se com saudade e ardor do grande amor de sua vida. Para muitos, o que fica é a costura dessa trama com várias cenas de sexo recheadas de closes de órgãos genitais. E, consequentemente, a ideia de que é um “pornô com roteiro”. Para outros, o que pode permanecer é a alta carga de autorreferência e metalinguagem da obra.
São muitos os elementos e situações que evocam referências ao próprio filme e/ou ao cinema em geral: há uma brincadeira com o nome do diretor; Murphy é um aspirante a cineasta e faz uma autoanálise a respeito do próprio talento; e, sobretudo, o filme questiona “por que o cinema não mostra a sexualidade sentimental”. Expor a “sexualidade sentimental”, o sexo como amor, é justamente tudo o que ‘Love’ pretende, algo evidente no próprio título.
Fora tudo isso, pode-se dizer que Gaspar Noé foi um tanto quanto narcisista nesta obra. Além de brincar com seu nome e compor a lista de atores, o diretor presta homenagem a outro exemplar de sua filmografia tão – ou mais – polêmico quanto ‘Love’. Alguém esqueceu de ‘Irreversível’ (2002) e de sua comentadíssima cena de estupro em um túnel? Pois ‘Love’, mesmo que rapidamente, faz referência a ela. Além disso, tanto em ‘Irreversível’ quanto agora, Gaspar Noé usa e abusa do vermelho, essa cor tão representativa para evocar paixão, amor e desejo. Nada mais coerente em um filme que transpira – e transborda! – paixão, amor e desejo. Mas, também, angústia, arrependimento e carência. ‘Love’ é para poucos. O barulho ao seu redor confirma isso.





















