Crônicas dos Campos Gerais: Onde adormecem os diamantes
O texto de hoje é de autoria de Dionezine de Fátima Navarro, Farmacêutica/Bioquímica docente e pesquisadora da UEPG
O texto de hoje é de autoria de Dionezine de Fátima Navarro, Farmacêutica/Bioquímica docente e pesquisadora da UEPG
Hoje, um asfalto cômodo, ao invés da estrada poeirenta ou a lamacenta, traz o bucolismo do velho casarão que parece ter retido no passado os ponteiros do tempo. Um casarão centenário à beira da entrada da cidade de Tibagi. Suas inúmeras janelas venezianas coloridas são portais de um ontem nostálgico, vividos por quem adentrou os seus degraus.
Um armazém, um salão de festas ou um local de reza! Mas é esse casarão que traz o suspiro ao viajante feliz porque chegou à tão amada cidade natal. Tibagi, que na língua Tupi-Guarani significa "grandes águas" em alusão ao rio que banha a cidade e onde ainda dormem os diamantes, que foram motivo de peregrinação de homens de terras longínquas.
Rio Tibagi transportou sonhadores, foi o único lazer refrescante em dias de calor, onde crianças aos risos desciam suas correntezas em boias de pneu de seus pais caminhoneiros. Hoje, referência em rafting, suas corredeiras lhe presenteiam com atrativos da modernidade que continua atraindo aventureiros.
Se o rio clama por aventura, a praça em frente à Matriz Nossa Senhora dos Remédios, ao som da melodia de um chafariz apaixonado, e com a cumplicidade da lua, continua sendo palco de encontros clandestinos onde amores precisam ser declarados. Seja pelos acordes de um violão, que em agonia suplica pela paixão, seja pelo beijo roubado dentro do coreto que em dias de festa acolhe a banda frenética da cidade. Nesse transitar distraído, a tudo alguém assiste disfarçadamente.
Um cão preguiçoso, que já fez desses bancos da praça a sua morada, e no silêncio, em passos lentos, parece querer atrasar o amanhã, para que o encanto do hoje dure mais. Assim é essa bucólica cidadezinha que, incrustada pelos casarios nostálgicos e rodeada por paisagens verdejantes que adoçam a alma, ainda tem bolo de polvilho em forno de tijolos, faz pamonha com o milho ralado do quintal, repica o sino da igreja todos os domingos, chamando para missa, prepara doce de abóbora em fogão a lenha. Ou numa rede amarrada a galhos das laranjeiras do quintal, o pai orgulhoso, espera o filho, que chegará um dia com um diploma na mão.
Seus visitantes, que já se encantaram com a suntuosidade ao passar pelo Cânion do Guartelá, ainda desejam conhecer um patrimônio histórico desta cidade: sua rapadura! Envolta em palha seca, bem amarradinha, ela dá a certeza de que a doçura escolheu esse lugar para morar!
Texto escrito no âmbito do projeto Crônicas dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais.