Usuários de drogas precisam de ecossistema de cura em Ponta Grossa
Conselheiro, médico explica que o tratamento desse público é complexo e precisa de várias 'frentes de trabalho'

O conselheiro da área da Saúde do Grupo aRede, Mário Rodrigues Montemor Netto, explica que o tratamento dos usuários de drogas é algo complexo - o debate é referente a uma reportagem especial do Portal aRede.
Para ele, há vários fatores que precisam estar conexos, como a criação de um ecossistema de cura, para auxiliar esse tipo de público.
Confira abaixo a opinião na íntegra de Mário, que é médico, pesquisador, professor e presidente da Associação Médica de Ponta Grossa (AMPG):
"A análise dos desafios sociais contemporâneos, particularmente o encarceramento e a dependência química no contexto de Ponta Grossa, exige uma abordagem que transcenda as métricas administrativas de vagas e custos. Para compreender a profundidade dessas disfunções e a eficácia das intervenções, proponho uma análise baseada na patologia geral sistêmica.
Se considerarmos a cidade como um macro-organismo biológico, a criminalidade e a dependência química não devem ser vistas como meros desvios morais, mas como lesões teciduais severas que rompem a homeostase do tecido social. Historicamente, a resposta do Estado tem sido uma 'reação inflamatória aguda e desregulada': o encarceramento em massa e a marginalização, que frequentemente atuam como agentes de morte social.
Neste cenário, as recentes frentes de trabalho do município, que intensificam as ações para retirar pessoas do mundo das drogas por meio da abordagem social, assim como o 'Projeto Salas Virtuais' do Instituto Mundo Melhor (IMM), o projeto 'Mulheres de Aço' e o programa 'Mãos Amigas', funcionam como protocolos terapêuticos avançados. Eles visam não apenas conter a infecção (segurança pública), mas promover a regeneração tecidual através da indução de processos biológicos e sociais positivos.
1. Etiologia da Degeneração: A Atrofia por Desuso e a Intoxicação do Tecido:
O organismo social sofre duas agressões principais. A primeira ocorre no encarceramento tradicional: sem trabalho ou estudo, cria-se um ambiente de pobreza sensorial e cognitiva. Na patologia, quando uma célula não é utilizada, ela sofre atrofia. Transpondo para a criminologia, a ociosidade força o cérebro do detento a um estado de desuso. A inércia e a perda de vínculos nas prisões tradicionais levam diretamente a uma 'atrofia celular e social', degradando a capacidade do indivíduo de viver em sociedade.
A imagem abaixo ilustra perfeitamente essa correlação entre a biologia e o ambiente prisional, demonstrando como a ociosidade gera atrofia, a superlotação causa hipertrofia disfuncional e o ambiente gera uma metaplasia (criminalização), que só pode ser curada através de processos de regeneração como a ressocialização pelo trabalho e educação.

A segunda agressão é a intoxicação crônica pela dependência química. Dados de Ponta Grossa apontam que 58% das abordagens a pessoas em situação de rua envolvem a dependência química, revelando um sintoma agudo de exclusão social.
A atuação intersetorial da Rede de Atenção Psicossocial (Raps) ilustra a alta demanda por cuidados: o município conta atualmente com 330 pacientes ativos (252 homens e 78 mulheres). Atuando como nossa 'emergência clínica' focada na redução de danos, o Centro de Atenção Psicossocial - Álcool e Drogas (Caps-AD) contabilizou expressivas 6.472 ações assistenciais somente em janeiro de 2026.
Garantir que um indivíduo severamente dependente passe um dia acolhido e sem consumir a substância é o equivalente a controlar uma hemorragia aguda; é o suporte básico à vida antes da cirurgia definitiva.
2. Terapêutica 1: Neuroplasticidade e Salas Virtuais do IMM:
Diante do risco de necrose social no sistema prisional, Ponta Grossa implementou um potente 'fator de crescimento': o 'Projeto Salas Virtuais'. Esta iniciativa do Instituto Mundo Melhor (IMM) não é apenas 'aula de computador'; é uma terapia de reabilitação neurocognitiva.
- O Vetor Tecnológico e Acadêmico: a plataforma AVA (Woli Treinamento) e a certificação do Centro Universitário Santa Amélia (UniSecal) exigem foco e raciocínio, transformando o tempo de estudo em remição de pena.
- O diagrama de fluxo de impacto ilustra perfeitamente essa fisiologia: podemos ver visualmente como o volume de beneficiários é canalizado através da educação e da validação acadêmica, convertendo tempo ocioso em qualificação até desaguar, de forma fluida, no objetivo final da reinserção social.
3. Terapêutica 2: Fisioterapia Cognitiva, o PTS e o Papel dos Creas:
A ciência urbana e médica nos ensina que o tratamento da dependência química em ambiente residencial (como as Comunidades Terapêuticas parceiras da Assistência Social e Saúde) busca a reabilitação psicossocial e a mudança de comportamento.
Em Ponta Grossa, esse modelo tem méritos indiscutíveis, mas o prognóstico a longo prazo exige ajustes para evitar o que chamo de 'Atrofia por Desuso das Habilidades Sociais'. O antídoto para essa atrofia inicia-se na escuta qualificada e na construção do 'Projeto Terapêutico Singular (PTS)'. Por se tratar de saúde mental, o PTS orienta o desenvolvimento de um tratamento focado na subjetividade e na realidade de cada indivíduo.
Na ponta desse atendimento integrado, operam de forma vital os Centros de Referência Especializada da Assistência Social (Creas), instalados em áreas estratégicas da cidade. Eles oferecem acolhimento e orientação contínua para os usuários e suas famílias, visando fortalecer vínculos e superar vulnerabilidades antes, durante e após possíveis internações. Sem esse apoio contínuo (emprego, moradia e família), o ciclo da recaída e o retorno às ruas tornam-se quase inevitáveis.
4. Terapêutica 3: Hipertrofia Funcional e Simbiose:
Na biologia, a hipertrofia é o aumento do volume celular em resposta a uma exigência de trabalho. Ponta Grossa induz essa 'hipertrofia funcional' através de projetos como o 'Mulheres de Aço' (que rompe a atrofia de gênero ao inserir detentas na indústria metalúrgica) e o programa 'Mãos Amigas'.
O gráfico de barras comparativo evidencia matematicamente essa eficiência metabólica: o modelo do 'Mãos Amigas' reduz os custos operacionais do Estado em 50%, ao mesmo tempo em que garante 75% do salário mínimo e a progressão de pena ao apenado, gerando uma simbiose perfeita entre reparo estrutural (escolas reformadas) e recuperação da dignidade.
5. O Ambiente: Um Meio de Cultura Otimizado:
Para que essas terapias funcionem, o ambiente deve ser estéril. A Unidade de Progressão (UP) funciona como um 'meio de cultura' livre de contaminantes. Ao exigir 100% de ocupação (trabalho ou estudo) e vetar a presença de facções criminosas, a UP impede a 'metástase cultural' do crime organizado, permitindo uma diferenciação celular saudável.
6. O Diagnóstico por Imagem: A Travessia da Reinserção, o Modelo ARES e a Família:
O tratamento clínico (como a desintoxicação) é apenas o suporte básico à vida; a reinserção social é a verdadeira cirurgia definitiva. Modelos europeus de excelência sugerem o uso do conceito ARES para a reinserção: Orientada à Autonomia, Enraizada na Recuperação, Focada na Educação/Trabalho e Apoiada Socialmente.
A jornada do cárcere ou das ruas de volta à sociedade funcional é, metaforicamente, uma ponte construída sobre um abismo. O sucesso dessa jornada depende de pilares estruturais firmes, mas é constantemente ameaçado por falhas sistêmicas (fendas) que engolem o paciente antes que ele chegue à margem da sociedade formal.
Para que o indivíduo não caia nessas fendas, precisamos aplicar 'vacinas' sociais estruturadas nos nossos pilares:
- Pilar do Trabalho (Fomento à Empregabilidade): a inserção no mercado de trabalho é fundamental para evitar a recaída e promover a autonomia. Precisamos de parcerias robustas com empresas locais para transformar a 'laborterapia' em formação profissional certificada;
- Pilar da Educação e Moradia: projetos de qualificação atuam como uma 'terapia neurocognitiva', transformando o tempo de ociosidade em novas sinapses. Em paralelo, o suporte de 'moradia assistida' atua para estancar a hemorragia social, garantindo que o indivíduo não saia do tratamento direto para o ambiente de risco onde a dependência floresceu;
- Pilar da Saúde Mental (A Perfeição Técnica e o Papel da Família): a base de qualquer política pública eficaz deve estar alicerçada na ciência. A dependência é um transtorno complexo que exige um ecossistema de cuidados. Para os familiares que acompanham o dependente, as consequências negativas do uso de drogas geram profundo desgaste e conflitos. O sucesso da recuperação e da reinserção exige o desenvolvimento de novas habilidades, como a comunicação assertiva, a prática da atenção plena (mindfulness) e a regulação emocional. Criar um ambiente propício ao diálogo sem julgamentos e com compaixão é uma ferramenta cientificamente validada para ajudar o dependente a trocar a gratificação da droga por um enfrentamento resiliente de suas frustrações.
7. O Ecossistema de Cura: Um Novo Paradigma Político e Clínico:
A formulação de uma política pública de excelência exige que abandonemos soluções fragmentadas. De nada adianta o esforço isolado de uma comunidade terapêutica se a exclusão digital e o desemprego travarem o processo final.
A verdadeira 'Medicina Preventiva Social' se materializa quando construímos um 'Ecossistema de Cura', uma união simbiótica e convergente entre o poder público, o Judiciário e a sociedade civil organizada.
Ao alinharmos a perfeição técnica dos tratamentos (com apoio familiar, psicológico e qualificação) com o ecossistema institucional ilustrado, não estamos apenas curando o sujeito; estamos devolvendo capital humano ao mercado, reduzindo a superlotação do sistema prisional e garantindo a regeneração completa do tecido social.
A redução de danos salva a vida hoje; mas é a cooperação irrestrita dessa rede que garantirá o 'transplante de vida' para o amanhã. Liderar essa regeneração deixou de ser apenas um gesto de empatia; tornou-se a mais perspicaz e definitiva estratégia de saúde e segurança pública que um Estado pode ofertar".
CONSELHO DA COMUNIDADE
Composto por lideranças representativas da sociedade, não ocupantes de cargo eletivo, totalizando 14 membros, a iniciativa tem o objetivo de debater, discutir e opinar sobre pautas e temas de relevância local e regional, que impactam na vida dos cidadãos, levantados semanalmente pelo Portal aRede e pelo Jornal da Manhã, com a divulgação em formato de vídeo e/ou artigo.
Conheça mais detalhes dos membros do 'Conselho da Comunidade' acessando outras notícias sobre o projeto.
LEIA ABAIXO UM RESUMO DO ARTIGO
- Diagnóstico como Patologia Social: O autor descreve a criminalidade e a dependência química como 'lesões' que rompem a homeostase de Ponta Grossa. O encarceramento tradicional é criticado como uma 'atrofia por desuso', onde a ociosidade degrada a capacidade cognitiva e social do indivíduo. Já a dependência química é vista como uma 'intoxicação crônica', exigindo que órgãos como o CAPS-AD (que realizou mais de 6,4 mil atendimentos em janeiro de 2026) atuem como uma 'emergência clínica' para estancar hemorragias sociais;
- Protocolos Terapêuticos de Reabilitação: em vez de apenas isolar o 'agente infeccioso', o texto destaca programas que funcionam como tratamentos regenerativos. O 'Projeto Salas Virtuais' do IMM é visto como terapia neurocognitiva, enquanto o 'Mãos Amigas' e o 'Mulheres de Aço' promovem uma 'hipertrofia funcional' - onde o trabalho e o estudo recuperam o indivíduo. O modelo 'Mãos Amigas', especificamente, é citado por sua eficiência metabólica: reduz custos estatais em 50% e garante renda e remição ao apenado;
- O Ecossistema de Cura e a Cirurgia Definitiva: a reinserção social é comparada à 'cirurgia definitiva', que só tem sucesso se houver um ambiente estéril (Unidades de Progressão sem facções) e suporte pós-operatório (os pilares de trabalho, educação, moradia e saúde mental). O autor defende que a cura real exige uma simbiose entre o Poder Público, o Judiciário e a Família, transformando o que seria um custo em capital humano e garantindo a regeneração completa do tecido social.





















