Ponta Grossa tem riscos e oportunidades como 'coração' da logística do Sul
Conselheiro de Saúde do Grupo aRede, Mário Rodrigues Montemor Netto avalia o futuro da nova concessão ferroviária da Malha Sul

O conselheiro da área da Saúde do Grupo aRede, Mário Rodrigues Montemor Netto, avalia que o futuro logístico de Ponta Grossa está diretamente ligado às decisões sobre a nova concessão ferroviária da Malha Sul e à capacidade do município de garantir investimentos estratégicos para sua infraestrutura.
Para ele, a cidade exerce o papel de 'nódulo sinusal logístico' da Região Sul, por concentrar importantes conexões ferroviárias e coordenar o fluxo de cargas entre diferentes regiões. Montemor defende a adoção de metas obrigatórias de movimentação, a realização de obras estruturantes e a preservação da competitividade do entroncamento ferroviário ponta-grossense, considerado fundamental para o desenvolvimento econômico dos Campos Gerais.
Confira abaixo a opinião na íntegra de Mário, que é médico, Diretor de Saúde da ACIPG, presidente da AMPG, professor do curso de Medicina da UEPG e conselheiro de Saúde do Portal aRede:
"Ponta Grossa e o Grande Tronco Encefálico do Mercosul: A Fisiologia de uma Concessão que Alimenta o Tecido Econômico
Na última vez em que nos encontramos neste espaço, analisamos as microartérias da nossa cidade, diagnosticando a isquemia que a falta de acessibilidade nas calçadas impõe aos nossos cidadãos. Hoje, convido o leitor a ampliar a lente microscópica para um plano macrofisiológico. Vamos olhar para o mapa da Região Sul não apenas como uma divisão política, mas como a anatomia de um grande sistema nervoso e circulatório interconectado.
A decisão do Ministério dos Transportes, da Infra S.A. e da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) de estruturar a concessão de 4,2 mil quilômetros de ferrovias federais por meio do fatiamento da antiga Malha Sul — dividida nos corredores Paraná-Santa Catarina, Rio Grande e no extenso Corredor Mercosul — reposiciona estrategicamente o nosso município. Esta transição regulatória representa o fim de um monopólio regional histórico que se arrasta desde a desestatização da antiga Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA), em 1997.
Se as calçadas são os capilares onde o cidadão respira, as ferrovias são as grandes veias profundas de escoamento e o tronco encefálico que coordena o metabolismo produtivo do nosso continente. Estamos diante de um momento de decisão existencial para os Campos Gerais; a hora de sermos tecnicamente precisos e politicamente incisivos é agora.
A Nova Modelagem: Um Mecanismo de Anastomose e a Hemorragia de Capital Gaúcha
Na fisiologia humana, quando um tecido necessita de reabilitação, o organismo pode realizar uma anastomose — a conexão cirúrgica entre canais para redirecionar o fluxo vital e garantir que nenhuma parte morra por falta de suprimento. É esse o princípio por trás do mecanismo regulatório do subsídio cruzado desenhado pelo governo federal.
O Corredor Paraná-Santa Catarina (com 1.502,26 km) é o pulmão hiperventilado do sistema: concentra 78% de toda a carga movimentada contemporaneamente e drena a safra até os complexos portuários de Paranaguá (PR) e São Francisco do Sul (SC). Por gerar um excedente econômico vultoso, ele atuará como o doador primário de oxigênio financeiro para os eixos menos rentáveis, aportando obrigatoriamente R$ 8,6 bilhões ao longo do contrato — sendo R$ 1,47 bilhão para o Corredor Rio Grande e R$ 3,46 bilhões para o Corredor Mercosul.
No entanto, um choque traumático externo alterou a distribuição desse fluxo de capitais. O Corredor Mercosul é a rota mais longa e complexa da concessão (1.865,78 km), estendendo-se de Iperó (SP), passando por Ponta Grossa, cruzando Santa Maria e General Luz (RS) até alcançar a aduana de Uruguaiana, na fronteira argentina. Originalmente orçado com um CAPEX de até R$ 4,8 bilhões para modernização de ponta a ponta, o corredor teve sua equação financeira mutilada pelo desastre climático de 2024 no Rio Grande do Sul.
Por determinação interministerial, R$ 3 bilhões desse orçamento foram compulsoriamente carimbados para a reconstrução exclusiva das linhas destruídas pelas chuvas gaúchas. Para o Paraná e para os Campos Gerais, o diagnóstico desse redirecionamento é preocupante: resta uma fração minoritária (em torno de R$ 1,5 bilhão) para custear toda a modernização, retificação e contornos nos quase mil quilômetros restantes do braço norte. O setor produtivo paranaense teme, com razão, que o braço norte do Mercosul sofra um estrangulamento financeiro crônico, transformando Ponta Grossa em uma extremidade subcapitalizada do sistema.
Ponta Grossa: O Nódulo Sinusal Logístico e a Exigência de Metas de Carga
Na cardiologia, o nódulo sinusal é a estrutura responsável por ditar o ritmo e o compasso dos batimentos cardíacos. Ponta Grossa exerce exatamente esse papel no Sul do país. A cidade abriga o maior e mais importante entroncamento ferroviário da região, funcionando como um funil distributivo onde cinco grandes linhas macrorregionais convergem no bairro de Uvaranas (as rotas interestaduais de São Paulo, o escoamento de celulose de Apucarana, o intercâmbio de grãos de Cascavel/Ferroeste e a distribuição para o porto via Lapa/Engenheiro Bley).
Atualmente, o subinvestimento histórico atrofia essa capacidade. As severas limitações operacionais e topográficas no trecho entre Guarapuava e o Desvio Ribas derrubam a velocidade de tração dos comboios, infartando a competitividade do frete e elevando o Custo Brasil. É por isso que a Federação das Indústrias do Estado do Paraná (FIEP), liderada na área por João Arthur Mohr, tem travado uma batalha técnica incisiva junto à ANTT.
A FIEP exige que o novo edital estabeleça a imposição contratual de volumes mínimos de movimentação de cargas pormenorizados por região e trecho. Sem esses parâmetros rígidos e fiscalizáveis, a futura concessionária concentrará suas locomotivas apenas nas descidas lucrativas para o litoral, abandonando gradualmente os ramais do interior. Ponta Grossa necessita dessa salvaguarda legal impositiva para garantir que a conexão industrial do Corredor Mercosul não seja precocemente transferida para caminhões nas rodovias.
O cenário ganha ainda mais complexidade com o projeto da Nova Ferroeste (orçado em R$ 14,5 bilhões), desenhado para ligar Cascavel diretamente a Paranaguá por uma rota expressa que contorna os Campos Gerais. Longe de ser uma desidratação econômica, os especialistas enxergam aqui uma oportunidade de cura: ao expurgar o fluxo lento e massivo das commodities agrícolas das nossas vias centrais, a malha interna de Ponta Grossa será descongestionada, liberando os trilhos e estações para o manuseio especializado de cargas de alto valor agregado e contêineres industriais do Corredor Mercosul.
Cirurgia Urbana: Contornos, Desvio Ribas e a Batalha pelo Ramal Oficinas
Se a macroeconomia ferroviária exige precisão, no nível micro e urbano a ferrovia impõe cicatrizes viárias profundas que cindem bairros e estrangulam o trânsito em passagens de nível críticas em Uvaranas e nas Órfãs. Sob a coordenação da prefeita Elizabeth Schmidt e articulação política em Brasília, o município consolidou o seu Plano Estruturante de Logística e Mobilidade, estabelecendo três contrapartidas urbanas irrevogáveis na ANTT:
1. Inclusão Obrigatória do Contorno Ferroviário: Em alinhamento com o Plano Estadual de Logística em Transporte (PELT 2035), a construção do bypass ferroviário de Ponta Grossa deve figurar explicitamente como investimento obrigatório (CAPEX) nas minutas do edital, retirando a carga pesada do perímetro citadino.
2. A Variante do Desvio Ribas: A expansão da pista e do terminal de cargas do Aeroporto Santana é fisicamente impedida pela passagem transversal da linha férrea comercial. Exige-se que a futura vencedora do leilão assuma a execução física da variante topográfica do Desvio Ribas para destravar o modal aéreo regional.
3. A Libertação do Ramal Oficinas: Há décadas, uma faixa linear de 4 quilômetros totalmente inativa permanece sob o controle ocioso da concessionária Rumo. Uma diligência liderada pelo juiz federal Dr. Antonio Bochenek atestou o completo abandono do local, convertido em depósito de lixo, carcaças e sucatas de trens em ruínas. A prefeitura impetrou uma ação administrativa junto ao Ministério dos Transportes exigindo a desafetação e doação imediata desse traçado para a construção do Parque Linear, reconectando o tecido urbano e eliminando esse bolsão de exclusão social.
A Rebelião Federativa do CODESUL e o Novo Cronograma
Enquanto os municípios lutam por suas mitigações locais, um choque tectônico institucional ocorre nas superestruturas políticas. O Conselho de Desenvolvimento e Integração Sul (CODESUL), que reúne os governadores do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul, declarou repúdio formal ao fatiamento da Malha Sul.
Os governadores e as lideranças do agronegócio acusam o Ministério dos Transportes de omitir e ocultar os dados técnicos completos do EVTEA, cerceando o direito de auditoria dos estados. O CODESUL argumenta que fragmentar uma malha responsável por 18,3% do PIB nacional quebra a sinergia logística, eleva os custos transacionais nas transições de linhas e exige uma resolução prévia do pesado passivo de trechos degradados deixados pela Rumo. A cúpula federativa exige que a concessão ocorra em Bloco Único e, via BRDE, contratou uma consultoria independente para contra-atacar a modelagem da União no Tribunal de Contas da União (TCU).
Diante deste embate técnico e político, o cronograma original da chamada "Carteira de Projetos 2026" desmoronou. O leilão, previsto para o fim de 2026, foi dilatado e remanejado para março de 2027, com os editais estimados para publicação apenas em dezembro de 2026, após o crivo pericial do TCU.
Para evitar um apagão logístico, o Ministério dos Transportes descartou as prorrogações antecipadas de longo prazo (como a realizada na Malha Paulista) e fixou um contrato de prorrogação emergencial pontual de exatamente dois anos com a Rumo, estendendo sua operação provisória até fevereiro de 2029.
Esta sobrevida de 24 meses é um escudo tático ambivalente para Ponta Grossa: se por um lado adia o início dos bilhões de investimento do CAPEX do novo Contorno Ferroviário, por outro outorga à prefeitura o fôlego cronológico necessário para liquidar judicialmente o contencioso do Ramal Oficinas e garantir que as amarras protetivas de cotas de carga sejam encartadas em definitivo no prelo do edital.
As engrenagens ferroviárias em torno de Ponta Grossa operam como o laboratório definitivo para o travamento ou destravamento da infraestrutura nacional. Curar nossas linhas e blindar o nosso entroncamento não é um debate secundário; é a cirurgia regulatória necessária para manter pulsando o coração econômico dos Campos Gerais pelas próximas décadas".
Conselho da Comunidade
Composto por lideranças representativas da sociedade, não ocupantes de cargo eletivo, totalizando 14 membros, a iniciativa tem o objetivo de debater, discutir e opinar sobre pautas e temas de relevância local e regional, que impactam na vida dos cidadãos, levantados semanalmente pelo Portal aRede e pelo Jornal da Manhã, com a divulgação em formato de vídeo e/ou artigo.
Conheça mais detalhes dos membros do 'Conselho da Comunidade' acessando outras notícias sobre o projeto.





















