Saudável embarque na vida alheia

Regimes ditatoriais tendem a inspirar boas histórias no cinema. Mesmo que funcionem apenas como pano de fundo para a trama. É o que acontece em ‘Trem Noturno para Lisboa’, filme de Bille August baseado na novela homônima de Pascal Mercier. O trabalho de August expõe a ditadura de Salazar, em Portugal, partindo da investigação da vida de um escritor.
Enquanto segue rumo à sua escola, em mais um dia habitual em Berna, na Suíça, o professor Raimund (Jeremy Irons) vê uma moça prestes a se lançar de uma ponte. Em meio à chuva, larga tudo e a salva. A jovem some, deixando seu casaco vermelho e, dentro dele, um livro de um escritor português. Em contato com a obra, Raimund encontra pensamentos que, conforme suas próprias palavras, “o incomodam há anos”.
A partir disso, decide deixar sua vida metódica e solitária na Suíça. Como no livro encontrado havia algumas passagens para Lisboa, o professor as utiliza e toma o trem que dá nome ao filme. Desembarcando na capital portuguesa, Raimund gradualmente mergulha na biografia de Amadeu do Prado (Jack Huston), o autor do livro. Na medida em que se aprofunda nesse plano, o professor suíço experimenta uma espécie de embarque na vida alheia para oxigenar sua própria existência.
Causa estranheza o fato de todos os personagens falarem inglês, da Suíça a Portugal, passando pela Espanha. Pode-se dizer o mesmo do sentimentalismo exacerbado, em alguns momentos, em detrimento do contexto sociopolítico. Expostas essas ressalvas, é instigante o modo como o passeio de Raimund pela vida desses vários personagens gradativamente compõe o retrato do passado, reconstruindo a relação existente entre todos.
Os avanços e retrocessos na história funcionam como a montagem de um quebra-cabeças para o protagonista e, por consequência, para o espectador. É um bom filme a respeito de (re)descobertas e (re)análises sobre o passado e o presente. Menos em termos históricos, mais em termos existenciais.





















