Desordem que faz bem

Tudo bem, ‘Uma Aventura Lego’ é mais uma estratégia de marketing da empresa de brinquedos dinamarquesa que, há pouco mais de uma década, quase decretou falência. Para sair da crise, a companhia investiu em pesquisa incluindo a inserção de antropólogos em famílias estadunidenses e alemães (seus maiores mercados), jogos eletrônicos e sites colaborativos a fim de que os clientes dessem sua parcela de inventividade para o lançamento de novos produtos. E não é que tudo deu certo? Inclusive o filme. Além de alavancar a marca, a história é bastante simpática.
A Lego é um “universo” no qual palavras como criatividade, invenção, construção e reconstrução integram não apenas as horas de quem se dedica a montar as peças, mas, também, daqueles que estão no outro lado, elaborando produtos e lançando no mercado. Nada mais natural, portanto, que essas concepções estivessem inseridas na trama, que é dirigida por Phil Lord e Christopher Miller.
Emmet é um operário comum, com um rosto genérico, que segue um manual de instruções para estar sempre de bem com a vida. A mudança vem quando ele é considerado o “messias” de uma profecia que o coloca como salvador do mundo. O vilão é o Senhor Negócios, que pretende pulverizar tudo com uma super cola. O que muitos podem ver como inibição de qualquer traço de criatividade e reconstrução, o Senhor Negócios encara como garantia da ordem frente ao caos.
Multi e autorreferencial (afinal, frise-se, a própria Lego vive justamente do constante rompimento de visões engessadas em favor da inovação) e repleta de personagens e situações, a trama é capaz de atrair os pequenos e os nem tão pequenos assim. As crianças se encantarão com a trajetória do (anti)herói Emmet, trajetória que é ágil como um videogame e tão colorida quanto as tradicionais peças de encaixe.
Uma das grandes diversões dos adultos será identificar que a quantidade de deboche é diretamente proporcional à imensa quantidade de peças que compõem os cenários e personagens. As ironias atingem conglomerados midiáticos e corporativos, a extrema estratificação social, o otimismo ingênuo, personagens de histórias em quadrinhos. É hilário o contraste entre Batman e a Princesa Unigata (uma combinação esdrúxula de gata com unicórnio). Que venha o segundo filme!





















