Ilhas de carência num oceano de tecnologia

“Apaixonar-se é uma forma socialmente aceita de insanidade”, diz uma das personagens do filme ‘Ela’. Nessa linha de raciocínio, enamorar-se por um sistema operacional que parece ter vida própria não seria necessariamente uma aberração. Ou seria? Essa questão é apenas uma das tantas provocadas pela obra escrita e dirigida por Spike Jonze.
Theodore (Joaquin Phoenix) escreve cartas supostamente à mão. Na verdade, o que ele faz é ditar para o computador frases que tentarão estreitar os laços entre as pessoas. A máquina redige em letra cursiva e imprime, como se a correspondência tivesse mesmo sido elaborada de próprio punho. Para alguém sensível, recém-separado e tão familiarizado com a interferência da tecnologia naquilo que é tão humano (a possibilidade de expressar afeto), investir em um relacionamento com uma voz de inteligência artificial acaba sendo considerado um desfecho até natural. Pelo menos é esse o contexto que o roteiro de Jonze constrói para, então, falar sobre a complexidade dos relacionamentos.
Em determinado momento, Theodore filosofa sobre o fato de possivelmente já ter sentido tudo o que poderia e que, sendo assim, o que mais viesse a partir de então seria apenas um conjunto de “versões menores do que já sentiu”. Nesse contexto, seria a inteligência artificial uma experiência nova capaz de servir como antídoto para o ápice da solidão? Ou seria uma fonte de potencialização da solidão? Em uma sociedade submersa na onipresença da tecnologia, como ficam características tidas como essencialmente humanas? É mais fácil lidar com os “sentimentos” de uma máquina do que com os de uma pessoa real? Prepare-se para pensar sobre tudo isso – e mais – ao acompanhar este filme sensível, criativo e provocador, típico de um diretor de obras como ‘Quero ser John Malkovich’ (1999) e ‘Adaptação’ (2002).
Costuma-se ver a inteligência artificial no cinema como um “corpo”, condensada em um robô. Essa concepção remete à força física, à ameaça da destruição da raça humana, a lutas homéricas com direito a explosões e efeitos especiais. Em ‘Ela’, a inteligência artificial está concentrada no campo das emoções. Nem por isso, o enfoque do assunto deixa de ser assustador. E inquietante.





















