A Aids e suas múltiplas facetas

Junte o binário bom ator/papel de grande impacto e você terá como resultado uma interpretação que entrará para a história (ou, no mínimo, ganhará os holofotes). Foi o que aconteceu com Matthew McConaughey e seu personagem Ron Woodroof, um eletricista texano homofóbico, apreciador de rodeios, mulherengo, “boca suja” e viciado em drogas. O protagonista de ‘Clube de Compras Dallas’ realmente existiu e coube a McConaughey encarná-lo na tela grande. McConaughey emagreceu, conquistou público e crítica e levou o Oscar de Melhor Ator neste ano. Quase o mesmo pode-se dizer de Jared Leto, que dá vida ao travesti Rayon. Leto também emagreceu, conquistou público e crítica e levou o Oscar 2014 (Melhor Ator Coadjuvante). Mas Rayon não existiu: é um compilado de vários personagens relacionados à situação mostrada pelo filme.
Não só de atuações memoráveis brilha este trabalho dirigido pelo canadense Jean-Marc Vallée. É rico o tratamento de múltiplas facetas do início da epidemia da Aids nos anos 1980. Em quase duas horas é possível chocar-se com a homofobia; indignar-se com os interesses de corporações farmacêuticas em detrimento da efetiva preocupação com a qualidade de vida dos pacientes; irritar-se com a burocracia governamental; e, claro, emocionar-se com tudo aquilo que a iminência da morte é capaz de provocar no ser humano.
Woodroof desafiou a FDA, órgão governamental estadunidense equivalente à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no Brasil. Enquanto muitos países já haviam liberado medicamentos para o tratamento da Aids, a FDA teimava na supremacia do AZT, que trazia inúmeros efeitos colaterais. O que Woodroof fez foi aproveitar o desespero de vários pacientes para ganhar algum dinheiro: passou a contrabandear remédios para comercializar nos EUA. Nesse processo, evoluiu como pessoa, melhorou seu próprio estado de saúde e revelou-se um autêntico anti-herói. Mesmo cheio de “pecados”, acabou se tornando, a seu modo todo inviesado, um altruísta preocupado com muitos soropositivos.
Alguém alguma vez duvidou que a vida real pode ser excelente fonte de matéria-prima para a sétima arte? ‘Clube de Compras Dallas’ é um filme intenso. E obrigatório.





















