Desembolsos de crédito rural caíram 12% na safra 2025/26 | aRede
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Desembolsos de crédito rural caíram 12% na safra 2025/26

Endividamento elevado dos produtores e aversão a riscos climáticos e financeiros fazem instituições financeiras pisarem no freio

Cenário revela que grandes produtores migraram para títulos privados
Cenário revela que grandes produtores migraram para títulos privados -

Publicado por Eduarda Gomes

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Os financiamentos concedidos por meio das linhas tradicionais do crédito rural registraram uma retração de 12% na safra 2025/26, que foi encerrada na semana passada. Pressionados pelo avanço no endividamento do setor e demonstrando maior aversão ao risco diante de adversidades climáticas e financeiras no campo, os bancos reduziram o ritmo de concessões, marcando a segunda temporada seguida de retração nos desembolsos.

De acordo com dados do Banco Central extraídos em 2 de julho, o montante total concedido a pequenos, médios e grandes produtores somou R$ 338,9 bilhões. O recuo atingiu as linhas de custeio (-13%), investimentos (-17%) e comercialização (-25%), enquanto o segmento de industrialização apresentou expansão de 54%. As informações são do Globo Rural.

A retração nas concessões concentrou-se nos grandes produtores, que acessaram R$ 210,1 bilhões, volume 19% inferior ao registrado no ciclo anterior. Esse público tem buscado financiamento de forma crescente no mercado privado por meio da emissão de Cédulas de Produto Rural (CPRs), cujas liberações somavam R$ 185,1 bilhões até maio. Sem os dados consolidados de junho, a expectativa governamental é que as CPRs fechem o ciclo entre R$ 200 bilhões e R$ 210 bilhões.

Por outro lado, o crédito voltado à agricultura familiar e aos médios produtores apresentou ligeiro crescimento. O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) liberou R$ 67,4 bilhões, uma alta de 3%, enquanto o Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor (Pronamp) registrou R$ 61,4 bilhões, crescendo 5%.

Do total desembolsado no país, a distribuição por finalidade se deu da seguinte forma:

- R$ 181,3 bilhões para custeio;

- R$ 84,9 bilhões para investimentos;

- R$ 37,8 bilhões para comercialização;

- R$ 34,9 bilhões para industrialização.

O balanço da safra 2025/26 contabiliza, ainda, cerca de R$ 47 bilhões destinados a operações de renegociação de dívidas rurais, amparadas pela Medida Provisória 1.314/2025. Quando comparado ao ciclo 2023/24, período em que foram emprestados R$ 421,8 bilhões, o valor total liberado na atual temporada é quase 20% menor.

PERFIL DOS CREDORES E CRÍTICAS À POLÍTICA AGRÍCOLA

Os dados do Banco Central revelam uma mudança estrutural no mercado de crédito nas últimas duas safras. Houve queda na participação de bancos públicos (-29%) e de bancos privados (-25%) nas concessões do Plano Safra, ao mesmo tempo em que as cooperativas financeiras ampliaram sua fatia em 15%.

A inclusão de mecanismos privados nos dados oficiais, contudo, gera divergências. Ivan Wedekin, consultor em crédito rural e ex-secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, apontou o recuo expressivo no custeio tradicional e criticou a inclusão das CPRs na contabilidade do governo.

Segundo ele, o Plano Safra gera uma "ilusão estatística", uma vez que as CPRs são títulos emitidos pelo próprio produtor e não entram no cômputo de empréstimos do Banco Central. Para o ciclo 2026/27, o Ministério da Agricultura adicionou R$ 38,5 bilhões de programas independentes ao bolo do Plano Safra.

José Carlos Vaz, consultor jurídico do agronegócio e também ex-secretário de Política Agrícola, avalia que o modelo atual de subsídios estatais perdeu força. Para Vaz, a política agrícola não pode ignorar que o produtor diversifica seus financiadores, destacando que o Tesouro Nacional deixou de ser o motor da atividade para se tornar um "freio de mão" em virtude da ineficiência alocativa dos recursos públicos.

PRODUTORES EM ALERTA PARA A NOVA SAFRA

Diante do cenário de maior exigência de garantias e forte seletividade por parte dos bancos, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) relatou que os produtores enfrentam barreiras até mesmo no mercado privado, dominado por um clima de precaução. Guilherme Rios, assessor da CNA, alertou que as restrições financeiras e a carência de ferramentas eficientes de gestão de risco podem culminar na redução da área plantada no país e na adoção de pacotes tecnológicos mais enxutos por parte dos agricultores.

A percepção de retração é compartilhada pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB). De acordo com Rodolfo Jordão, coordenador do ramo agropecuário da entidade, fatores como juros elevados, câmbio volátil, tensões geopolíticas no comércio internacional e a consequente redução da capacidade de pagamento dos produtores forçaram uma reprogramação nas fazendas. Para a safra 2026/27, a OCB recomenda cautela, prevendo investimentos mais conservadores e contenção na expansão de terras via arrendamentos ou novas infraestruturas.

LEIA ABAIXO UM RESUMO DA NOTÍCIA

- Retração de dois dígitos: Os desembolsos das linhas tradicionais do crédito rural caíram 12% na safra 2025/26, somando R$ 338,9 bilhões, puxados pela forte seletividade dos bancos decorrente do endividamento e do risco climático.

- Migração para o mercado privado: Grandes produtores lideraram a queda nos financiamentos bancários (-19%), migrando progressivamente para títulos privados como as CPRs, que devem atingir até R$ 210 bilhões no encerramento do ciclo.

- Perspectiva conservadora: Entidades como CNA e OCB alertam para uma postura defensiva dos agricultores na safra 2026/27, com provável redução de investimentos, pacotes tecnológicos restritos e possível diminuição da área plantada no país.

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