Mentir pode ser uma virtude?

Lindas paisagens africanas tomam conta da tela no decorrer de ‘Uma Boa Mentira’. Mas enquanto as contempla, o espectador é simultânea e contraditoriamente exposto a uma realidade desprovida de beleza: a do sofrimento de crianças órfãs do Sudão que percorrem milhares de quilômetros a pé pelo deserto buscando uma vida melhor. Lembrou do relato bíblico de Moisés, que libertou o povo hebreu da escravidão no Egito? Pois saiba que sua relação entre uma ideia e outra não é deslocada. Uma Bíblia acompanha a peregrinação do grupo de personagens principais. E isso reforça a associação religiosa.
O grupo de protagonistas em questão é formado por irmãos sudaneses que fogem da guerra civil iniciada no país em 1983. Por volta de 1987, milhares de crianças que tiveram os pais mortos nos conflitos caminhavam cerca de 1,6 mil quilômetros até a Etiópia e o Quênia. Treze anos depois, os refugiados buscaram abrigo nos Estados Unidos. Inspirado nesse fato real, ‘Uma Boa Mentira’ retrata um dos mais comentados temas contemporâneos: o dos fluxos migratórios e suas incontáveis mazelas.
Quando o filme do diretor canadense Philippe Falardeau (‘O que Traz Boas-Novas’) enfoca a chegada dos sudaneses aos Estados Unidos, abre-se espaço para exibir um profundo choque cultural. Em linhas gerais, o que se vê é o confronto entre o altruísmo e o individualismo, a gratidão pelas coisas simples e o materialismo.
Aproximando um pouco mais a lupa, é possível detectar em que cenas o impacto fica evidente: o espanto em saber que existe comida específica para cachorro sendo vendida nos mercados; alimentos aparentemente ótimos para o consumo são jogados no lixo; sorrisos forçados deixam de ser falsidade para serem encarados como virtude; um policial é reverenciado e abençoado por ser alguém que “arrisca a vida para defender a lei”; a gratidão motiva a “invasão” a uma casa; uma estranha é convidada a partilhar uma laranja no ônibus.
Com uma montagem cuidadosa, na qual poucos segundos são suficientes para contar muito, o filme de Philippe Falardeau emociona, encanta, diverte e faz pensar. Ao mesmo tempo, conduz o espectador a descobrir, afinal, o que é “uma boa mentira”.





















