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Extremos para uma sociedade de extremos

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Gabriel Sartini

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‘Uma Noite de Crime’, do diretor James DeMonaco, é bem hollywoodiano e, portanto, bastante convencional e previsível. Mas o que o torna especial em meio à enxurrada de títulos lançados pela indústria cinematográfica estadunidense é o seu argumento. Em um futuro não muito distante, qualquer tipo de crime é liberado por doze horas seguidas, uma vez por ano.

A justificativa para essa medida sancionada pelo governo e apoiada por várias autoridades, inclusive das ciências sociais, é a catarse massiva. Ao cometerem qualquer tipo de delito, as pessoas estariam “liberando seus demônios”, externando sua raiva e, assim, tornando-se seres humanos melhores (!?) nos outros 364 dias do ano. Os opositores sustentam que “o expurgo” (como a medida é chamada pela mídia, governo e sociedade) serve apenas para eliminar os economicamente inativos ou pouco produtivos, como mendigos e enfermos. Claro que, aí, é possível incluir também as minorias.

Um dos aspectos irônicos do roteiro é que o maior alvo acaba sendo James Sandin (Ethan Hawke), responsável por comercializar sistemas de segurança. Com a sanção governamental, ele é um dos grandes privilegiados já que, há dez anos, conforme conta, mal podia pagar o aluguel da casa. No presente da trama, no entanto, Sandin já pensa até em comprar um barco. A “casa cai” quando o expurgo, geralmente comum em regiões periféricas e de menor progresso, seja econômico ou educacional, atinge a área dos mais abastados, provando que a sede de sangue não necessariamente escolhe classe social.

É um suspense futurista (ou nem tanto), que enfoca a sociedade estadunidense e lança sobre ela um olhar ácido. Mas não só. A premissa é universal e cabe a qualquer sociedade, dadas suas provocações sobre a diferença de classes e as razões que tornam um ser humano efetivamente... um ser humano (Alguém lembra que o ministro das Finanças do Japão, Taro Aso, declarou, em janeiro de 2013, que os idosos deveriam se apressar a morrer para deixarem de ser uma carga para o Estado?). ‘Uma Noite de Crime’ é convencional e previsível; mas, ainda assim, válido.

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