Plano de revitalização quer devolver protagonismo ao Centro de PG
Plano prevê via gastronômica, fortalecimento do comércio e articulação entre poder público e iniciativa privada para transformar a região central da cidade

Apesar da relevância histórica, econômica e simbólica do Centro de Ponta Grossa, a região está marcada pelo aumento de imóveis ociosos e pela necessidade de tornar a região mais atrativa para moradores e comerciantes. Com base nesse diagnóstico, um projeto de requalificação do Centro foi aprovado pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico de Ponta Grossa (CDEPG). A proposta, apresentada pelo presidente do Secovi-PR, Carlos Tavarnaro, reúne mudanças urbanísticas, revisão da legislação e intervenções em espaços públicos, buscando devolver o protagonismo ao coração da cidade.
Segundo Tavarnaro, o projeto surgiu como uma inspiração nas capitais do Brasil, como São Paulo, Porto Alegre e, principalmente, Curitiba. O presidente conta que acompanhou o desenvolvimento do projeto na capital paranaense e reconheceu particularidades em comum com o centro de Ponta Grossa, motivação que o fez adaptar a ideia à realidade local.
Sobre os objetivos, Tavarnaro explica: “Consiste em levar a população novamente para o centro da cidade, que ficou durante algum tempo esquecida. O centro é a região onde tem a maior renda per capita. Então, existem muitos aposentados e pessoas que ganham bem e que não conseguem consumir, porque têm medo de sair quando o sol se põe. E o projeto é basicamente isso: ressignificar o centro da cidade”.
Para a presidente do CDEPG, Priscila Garbelini Jaronski, a revitalização do Centro tem potencial para impulsionar a economia local ao estimular a circulação de pessoas e fortalecer o comércio. Segundo ela, um espaço mais organizado e atrativo incentiva os moradores a voltarem a frequentar a região, gerando reflexo nos bares, restaurantes e hotéis.

Priscila destaca que os impactos da proposta vão além do comércio e devem alcançar outros segmentos da economia. Na avaliação dela, um Centro mais vivo também fortalece o turismo, uma vez que passa a oferecer outras experiências aos visitantes que vêm em busca de atrativos como o Parque Estadual de Vila Velha e o Buraco do Padre. “O turista busca um local para ele fazer um pernoite que tenha uma continuidade desse planejamento turístico”, diz.
Propostas-piloto miram ruas históricas da cidade
Dentro do projeto apresentado, existem três principais propostas-piloto. A primeira diz respeito à Rua XV de Novembro, um dos espaços mais tradicionais de Ponta Grossa. A proposta busca transformar o entorno da Praça Marechal Floriano Peixoto e da Rua XV de Novembro em uma via gastronômica, incentivando a ocupação do espaço público por bares, restaurantes e atividades de lazer. Nesta ideia, estão previstas medidas como ampliação das calçadas, fachadas ativas, reforço de iluminação e segurança, regulamentação do uso das calçadas para mesas e reorganização do fluxo de veículos.
Segundo Carlos Tavarnaro, a escolha da Rua XV não foi por acaso. O presidente do Secovi-PR afirma que a região já reúne equipamentos culturais e espaços de convivência que demonstram uma vocação natural. "Já existem algumas operações que são dessa natureza no local, como o Hotel Planalto, o Botequim, o Cine Teatro Ópera, o Quintal da XV. Então, existe uma vocação e, no meu entendimento, é o primeiro projeto mais fácil de realizar", afirma.
Além disso, a proposta prevê transformar a Rua XV em uma via compartilhada, modelo em que o espaço passa a priorizar o pedestre. A ideia é elevar o nível da pista para reduzir a velocidade dos veículos e ampliar a sensação de segurança. O projeto também prevê monitoramento por câmeras e presença da Guarda Municipal.
Para Tavarnaro, nenhuma dessas medidas, isoladamente, resolverá os problemas, mas o conjunto de ações deverá estimular o retorno da população e impulsionar novos investimentos privados. "Tenho certeza de que o somatório disso vai trazer o povo de volta para lá", destaca.
A segunda frente do projeto concentra as ações na Avenida Vicente Machado, no Calçadão e em quadras adjacentes, região que já reúne parte do comércio popular de Ponta Grossa. A proposta prevê incentivos fiscais, facilitação de licenciamentos, padronização visual e medidas para organizar o comércio ambulante.
De acordo com Tavarnaro, a escolha da região leva em consideração a vocação comercial já consolidada da avenida, que concentra grande circulação de pessoas por estar no trajeto do Terminal Central.
A terceira proposta-piloto prevê a criação de núcleos comerciais especializados na Rua Dr. Colares. A ideia é organizar o comércio por segmentos, como calçados, moda feminina, roupas infantis e outros nichos. O projeto também prevê o incentivo à criação de estacionamentos particulares, facilitando o acesso de consumidores à região.
Segundo Tavarnaro, a concentração de estabelecimentos do mesmo ramo pode fortalecer a atividade econômica. "A gente sabe que a concorrência se ajuda, ela não se atrapalha. Então, quando eu quero comprar um sapato, se eu souber que em uma quadra na Doutor Colares eu vou ter quatro, cinco lojas de sapato, certamente é lá que eu vou", afirma. O presidente destaca ainda que a proposta busca resgatar uma vocação comercial que a Rua Dr. Colares já teve no passado.
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Próximos passos
As intervenções propostas para o Centro, no entanto, dependem de uma série de mudanças legais e da articulação entre diferentes setores. Além das adequações na Lei de Uso e Ocupação do Solo (Lei nº 14.482/2022), o projeto ainda passa por discussões técnicas, seguirá para elaboração no Legislativo e análise do poder público antes que as primeiras obras deem início.
Tavarnaro conta que o processo já começou com a formação de um grupo de trabalho na Câmara Técnica de Urbanismo do CDEPG, que reúne representantes do poder público, universidades e entidades ligadas ao setor imobiliário. Conforme o cronograma, julho será dedicado à definição das etapas do projeto e, em agosto, estudantes do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) realizarão um diagnóstico da região central, que servirá de base para as propostas.
Porém, para a proposta avançar no poder público, o projeto depende da aprovação no Legislativo. É nesse momento que a Câmara de Vereadores passa a ter papel decisivo.
O presidente da Câmara, Júlio Küller, avalia que o Centro carrega a história da cidade, mas hoje convive com prédios fechados, imóveis históricos se deteriorando e a sensação de insegurança que afasta as famílias. "Uma proposta que reúne poder público, setor produtivo e sociedade civil em torno de um diagnóstico comum é exatamente o tipo de articulação que dá solidez a um projeto de lei", afirma.

Küller também se colocou à disposição para conduzir a articulação política da proposta na Câmara Municipal. Segundo ele, o objetivo é construir um entendimento entre os vereadores. "Meu papel será garantir que o debate técnico do Conselho chegue ao plenário já com um caminho de convergência, ouvindo as diferentes bancadas, para que a matéria não se perca em disputas menores e avance com o apoio mais amplo possível", destaca.
De acordo com o presidente da Câmara, caberá ao Legislativo dar legalidade às alterações previstas na Lei de Uso e Ocupação do Solo e a outros instrumentos urbanísticos necessários para viabilizar o projeto. Para isso, ele defende que as mudanças sejam debatidas em audiências públicas e contem com a participação da população.
Por fim, Küller ressalta que um dos principais desafios é o tempo, visto que cada mudança legal exige análise técnica. Além disso, será necessário equilibrar as demandas de comerciantes, ambulantes e investidores, sem deixar de lado questões sociais. "Revitalização urbana sem política social vira só reforma de fachada", pontua.
Segundo ele, após a conclusão do diagnóstico técnico, a expectativa é iniciar a elaboração dos projetos de lei e manter um processo transparente.
Tavarnaro conta que, se o cronograma sair como o planejado, a expectativa é que as primeiras intervenções comecem a ser percebidas pela população no início de 2027.



























