UEPG busca inclusão de povos indígenas no ensino superior
“Quando a gente sai da aldeia para o mundo acadêmico, é aprender outra língua e lutar para não deixar a nossa cultura para trás”, afirma Kaingang

Em um País de desigualdades econômico-sociais e educacionais, a presença de povos indígenas no ensino superior representa um avanço para toda sociedade. Como política de Estado do Paraná, a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) tem buscado a inclusão de estudantes indígenas, com implementação de políticas de ingresso e permanência na Instituição. “Quando a gente sai da aldeia para o mundo acadêmico, não é só estudar, é aprender outra língua, outra lógica e lutar para não deixar a nossa cultura para trás”, afirmou Jorge Alves, 34 anos, da etnia Kaingang e estudante do 3º ano de Direito na UEPG. Ele falou à reportagem do Pauta Ambiental em referência ao 19 de Abril, Dia dos Povos Indígenas.
Desde a implantação da política de acesso indígena nas Universidades Estaduais do Paraná, estabelecida pela Lei Estadual 13.134, de 2001, que criou as vagas específicas e o vestibular para indígenas, a UEPG formou 19 profissionais das etnias Kaingang, Guarani e Guarani Mbya entre 2005 e 2024. Os dados são da Diretoria de Ações Afirmativas e Diversidade da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) da UEPG. No ranking dos cursos mais procurados pelos indígenas na UEPG se destacam Educação Física, em 1º lugar; Enfermagem, em 2º; Direito, em 3º; seguidos de Medicina, Pedagogia, História, Odontologia e Agronomia.
Neste ano, a UEPG conta com 27 estudantes indígenas matriculados na graduação, sendo 11 na Medicina, cinco em Odontologia, cinco em Direito, três em Enfermagem, dois em Pedagogia e um em Artes Visuais.
Originário da Terra Indígena Faxinal, em Cândido de Abreu, e atualmente residente em Ponta Grossa, Jorge destaca que a jornada na Universidade vai além das disciplinas e se foca no aprimoramento do Português. Ele explica que, embora muitas aldeias ofereçam ensino da Língua Portuguesa já na infância, a Universidade possibilita desenvolver a habilidade de se expressar em um contexto formal. Jorge enfatiza a necessidade de se “conviver entre os dois mundos, tanto dentro da aldeia, quanto para fora da aldeia”, mantendo viva a cultura Kaingang. Para ele, a educação é uma ferramenta de empoderamento e defesa de sua comunidade.
A presença de estudantes indígenas na UEPG também tem ocorrido na pós-graduação. O casal Alexandre Kuaray de Quadros e Regina Kosi dos Santos comemora o fato de terem sido os primeiros indígenas a concluir o Mestrado na UEPG na área de Estudos da Linguagem. Alexandre formou-se em Licenciatura em Geografia em 2018; em 2022, terminou o Mestrado; e atualmente cursa o 2º ano de Doutorado em Estudos da Linguagem também na UEPG, com ingresso no ano passado. Regina graduou-se em Licenciatura em História, em 2019. Em 2023, concluiu o Mestrado.
Nascido e criado na terra indígena Rio das Cobras, da etnia Guarani, Alexandre destaca a luta por reconhecimento e espaço para os povos indígenas na universidade. Conforme afirmou, um dos maiores desafios é a falta de conhecimento da sociedade sobre a diversidade indígena, especialmente fora da Amazônia.
Alexandre criticou “a falta de reconhecimento” por parte das pessoas que ignoram a presença de etnias no Sul do Brasil. O que ocorre até mesmo no ambiente acadêmico, conforme afirmou: “Aqui mesmo na universidade, se você perguntar para alguns acadêmicos se tem, se conhecem a cultura indígena, eles vão falar do Mato Grosso, Amazonas, sendo que aqui no sul, nós temos três etnias diferentes: Guarani, Kaingang e Xetá”.
Alexandre também criticou a visão de que os indígenas são sustentados pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). Pelo contrário, conforme disse: “Muitas pessoas falam ‘Vocês são dependentes da Funai!’ Mas não. Estou aqui para afirmar que não. O nosso modo de sobrevivência é o artesanato”.
Membro da Comissão Universidade para Indígenas (CUIA) da UEPG, Alexandre destacou sua atuação no acompanhamento e suporte a outros estudantes indígenas, a fim de garantir que suas vozes sejam ouvidas e necessidades atendidas. No ambiente acadêmico, Alexandre contou que não escapam do preconceito e que já ouviram: “Mestrado não era para indígena. Muito difícil”.
Nas sete Universidades Estaduais do Paraná e uma Federal, atualmente são 52 vagas destinadas ao vestibular para indígenas, segundo dados da Diretoria de Ações Afirmativas e Diversidade da PRAE/UEPG. Da política de Estado do Paraná, inclui o funcionamento da Comissão Universidade para os Indígenas (CUIA), a concessão do Auxílio Permanência Indígena, acolhimento e suporte pedagógico, auxílios materiais essenciais, refeição gratuita no Restaurante Universitário (RU), transporte público gratuito. A UEPG também promove a isenção de taxas de inscrição em cursos e eventos e a produção de materiais em línguas indígenas, como o Manual da ABNT traduzido para Guarani e Kaingang.
O Dia dos Povos Indígenas: história e significado
O Dia dos Povos Indígenas, celebrado no 19 de abril, marca a diversidade cultural e a luta por direitos territoriais e contra o preconceito. Sua origem remonta ao Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, realizado em 1940, em Pátzcuaro, México, onde lideranças indígenas de todo o continente se reuniram para debater suas realidades e reivindicações. A data foi oficialmente instituída no Brasil em 1943. Em 2022, a Lei nº 14.402 alterou a denominação “Dia do Índio” para “Dia dos Povos Indígenas”, reconhecendo a diversidade de mais de 300 povos e 270 línguas existentes no país, conforme dados do Censo IBGE.
Violência marca realidade indígena no Brasil
A realidade dos povos indígenas no Brasil é marcada pela violência, como preconceito, agressões físicas e assassinatos na disputa por território. Dados do Atlas da Violência 2025, em colaboração entre o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), indicam que, em 2023, o número de homicídios de indígenas aumentou 10,7% em comparação com o ano anterior. Este crescimento ocorre em um período em que a taxa geral de homicídios no Brasil registrou uma queda, atingindo o menor nível em 11 anos (21,2 por 100 mil habitantes). A diferença nos dados aponta para a vulnerabilidade dos povos indígenas à violência letal, com regiões como o sul da Bahia registrando um aumento de até 418% nos homicídios contra essa população.
No Paraná, entre o final de 2024 e o início de 2025, houve uma série de ataques armados contra comunidades Avá-Guarani nos municípios de Guaíra e Terra Roxa, resultando em 17 indígenas baleados, incluindo crianças e idosos. Estes ataques ocorreram em áreas de retomada, intensificados pela insegurança jurídica gerada pela Lei do Marco Temporal (Lei 14.701/2023), que, segundo o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), tem impactado processos de demarcação de terras e incentivado a invasão de territórios indígenas. O Ministério dos Povos Indígenas (MPI) condenou formalmente os ataques em janeiro de 2025, citando a omissão de forças de segurança locais. Além disso, em janeiro de 2026, famílias do povo Xetá realizaram uma retomada em São Jerônimo da Serra, em uma área cuja demarcação está paralisada há 27 anos. A situação de violência e a morosidade nas demarcações de terras impactam diretamente a vida dos povos Guarani (Nhandeva e Mbya), Kaingang e Xetá no Paraná, que frequentemente precisam conciliar a vida em acampamentos ou áreas reduzidas com a busca por direitos e a preservação de suas culturas.
Texto escrito por Isabella Meira e Valentina Bortoluzze, estudantes do 2º ano do Curso de Jornalismo da UEPG e integrantes do serviço de extensão Pauta Ambiental.





















