EIV deve servir como prevenção ao 'infarto' urbano em Ponta Grossa
Montemor Netto afirma que Ponta Grossa vive uma hipertrofia urbana: um aumento volumétrico desproporcional que sobrecarrega as "articulações" (infraestrutura de saneamento e drenagem) e estressa o "sistema cardiovascular" (vias de circulação e artérias logísticas)

O conselheiro da área da Saúde do Grupo aRede, Mário Rodrigues Montemor Netto, avalia que, no atual momento, Ponta Grossa vive uma hipertrofia urbana: um aumento volumétrico desproporcional que sobrecarrega as "articulações" (infraestrutura de saneamento e drenagem) e estressa o "sistema cardiovascular" (vias de circulação e artérias logísticas).
Isso se dá devido ao acelerado crescimento de Ponta Grossa, que, impulsionado pela expansão industrial, logística e imobiliária, tem exigido cada vez mais mecanismos capazes de conciliar desenvolvimento econômico com qualidade de vida.
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Segundo Montemor, o maior problema estrutural de Ponta Grossa é o seu crescimento horizontal desordenado, conhecido no urbanismo como espraiamento urbano (a expansão tentacular).
Confira abaixo a opinião na íntegra de Mário, que é médico, Diretor de Saúde da ACIPG, presidente da AMPG, professor do curso de Medicina da UEPG e conselheiro de Saúde do Portal aRede:
O Metabolismo do Crescimento: Diagnóstico, Terapia e o EIV como Medicina Preventiva contra a "Obesidade" e "Infarto" Urbano em Ponta Grossa. Por Mário Rodrigues Montemór Netto
Diretor de Saúde da ACIPG. Presidente da AMPG. Professor do curso de Medicina da UEPG. Conselheiro de Saúde Portal aRede.
1. INTRODUÇÃO: O ORGANISMO URBANO E OS SINTOMAS DE HIPERTROFIA
Como médico e professor, observo Ponta Grossa não como um arranjo inerte de concreto, mas como um organismo biológico complexo e vivo. Na fisiologia urbana, o crescimento é um sinal vital de pujança econômica; contudo, quando esse ganho de massa ocorre de forma acelerada e sem regulação metabólica, ele evolui para uma patologia. O atual momento de Ponta Grossa é de hipertrofia urbana: um aumento volumétrico desproporcional que sobrecarrega as "articulações" (infraestrutura de saneamento e drenagem) e estressa o "sistema cardiovascular" (vias de circulação e artérias logísticas).
Para garantir a sobrevivência desse corpo, o planejamento urbano deve atuar como o sistema imunológico fiscal do município. Sem diretrizes vinculantes, a cidade torna-se vulnerável a "infecções administrativas" — onde o custo da política pública se torna insustentável. Seguindo as metas do UN-Habitat e o nascimento do urbanismo científico, precisamos adotar um "manual de saúde" que priorize:
● Assentamentos Compactos: Redução do desperdício de energia vital e de recursos públicos.
● Conectividade Integrada: Fluxos sistêmicos que evitam o estresse cardiovascular da mobilidade.
● Sustentabilidade Resiliente: Preservação de áreas verdes como pulmões funcionais.
● Inclusão Social: Garantia de que todos os tecidos do organismo recebam oxigenação econômica.
A vitalidade externa de Ponta Grossa depende, portanto, de uma homeostase interna. Se falharmos em manter a integridade do tecido urbano central, o crescimento periférico será apenas o prenúncio de uma falência múltipla de órgãos.
2. O DIAGNÓSTICO: "OSTEOPOROSE URBANA" E SOBRECARGA CARDÍACA
O maior problema estrutural de Ponta Grossa é o seu crescimento horizontal desordenado, conhecido no urbanismo como espraiamento urbano (a expansão tentacular).
● A "Osteoporose Urbana" (Vazios Especulativos): A cidade cresceu em direção às bordas e periferias, muitas vezes impulsionada pela construção de grandes conjuntos habitacionais. Esse movimento periférico deixou para trás enormes "vazios urbanos" (lotes ociosos) em regiões centrais. Na prática, Ponta Grossa sofre de uma espécie de osteoporose: a cidade tem uma estrutura enorme, mas é "oca" por dentro. Temos uma área urbanizada muito maior do que o necessário para abrigar nossos 358 mil habitantes, resultando em uma densidade demográfica baixíssima onde já existe infraestrutura.
● A Sobrecarga do Coração (O Custo Público): Esse modelo de cidade "espalhada" encarece absurdamente a máquina pública. O "coração" da Prefeitura é obrigado a bombear sangue (asfalto, saneamento, iluminação, postos de saúde, segurança e coleta de lixo) para extremidades cada vez mais distantes.
● O Risco de Falência Múltipla dos Órgãos: Manter quilômetros de redes ociosas passando por terrenos vazios até chegar a um bairro periférico drena a nossa energia vital. Com um orçamento municipal projetado na casa dos R$ 2 bilhões para 2026, grande parte dessa riqueza é engolida apenas para "tapar buracos" e levar o básico a loteamentos distantes, impedindo que a cidade invista em tecnologia, modernização e qualidade de vida.
Estatisticamente, a gravidade dessa patologia reflete um desafio nacional: segundo o Relatório Habitat III, o Brasil viu o número absoluto de domicílios vagos saltar de 2,96 milhões em 1991 para 4,67 milhões em 2010. Esse dreno de energia impede o investimento em tecnologias de ponta, limitando as economias de aglomeração que geram inovação e capital humano.
Indicador Crescimento Espraiado (Osteoporose/Patológico) Adensamento Planejado (Vitalidade/Saudável)
Metabolismo Fiscal Dreno de recursos; manutenção de redes ociosas. Eficiência; o "imposto" retorna como inovação.
Barganha Política Opaca, lote a lote; gera "fricção econômica". Transparente; funciona como uma "Tabela de Preços".
Economias de Escala Baixas; custos logísticos elevados por habitante. Altas; potencializa spillovers de capital humano.
Função Social Tecido necrosado por especulação imobiliária. Propriedade ativa que oxigena a economia local.
Devemos substituir a "barganha parcelada" — defendida por economistas como Fischel e Nelson, que favorece insiders bem conectados — por planos vinculantes que funcionem como uma "Planilha de Preços Padronizada" (remetendo à lógica do Grid de Manhattan de 1811). A clareza ex ante reduz os custos de informação e protege o organismo contra a "fricção" de acordos ad hoc que geram insegurança jurídica e custos de transação proibitivos.
3. COMPLICAÇÕES SISTÊMICAS: MOBILIDADE E TROMBOSE LOGÍSTICA
A fluidez dos fluxos vitais é o termômetro definitivo da saúde urbana. O espraiamento gera uma fadiga muscular no transporte coletivo, onde trajetos exaustivos afastam o usuário do sistema, provocando uma migração em massa para o transporte individual. O resultado é o entupimento das artérias viárias por um "colesterol logístico": o conflito mortal entre o tráfego pesado de caminhões e o trânsito local de moradores.
Vias como a Avenida Souza Naves (BR-373) sofrem de uma trombose crônica. A construção do Contorno Norte não é uma obra opcional; é uma "ponte de safena" inegociável para desviar o fluxo pesado e evitar o colapso irreversível do perímetro urbano.
ESTUDO DE CASO: O Macro-Polo Uvaranas e o Infarto de 2030
A região leste de Ponta Grossa apresenta uma anatomia crítica. O poder público concentrou um complexo de órgãos vitais (UPA, HU-UEPG, AME, CER-4, Campus UEPG) em uma rede vascular de bairro, criando um perigoso ponto único de falha.
● O Transplante Massivo: A expansão da nova torre do HU-UEPG deve ser vista como um transplante de órgão em larga escala. Sem um upgrade vascular correspondente, o sistema rejeitará o investimento.
● Refluxo Vascular: Em 2030, a projeção indica que o aumento de leitos e funcionários gerará um refluxo vascular massivo, travando a Avenida General Carlos Cavalcanti e impedindo que ambulâncias alcancem a "hora de ouro" do atendimento de urgência.
● Negligência Administrativa: Manter um polo de saúde dessa magnitude dependente de vias estreitas de mão única é configurar uma verdadeira "fila da morte". A omissão presente forçará cirurgias de "peito aberto" no futuro — desapropriações milionárias e intervenções invasivas que poderiam ser evitadas com terapia preventiva hoje.
4. A TERAPIA PREVENTIVA: PLANO DIRETOR, IPTU PROGRESSIVO E O EIV
As leis urbanísticas são protocolos terapêuticos que garantem a função social da propriedade, amparadas pelo Estatuto da Cidade e pela Constituição Federal. Elas buscam substituir a opacidade das negociações por transparência transacional:
● IPTU Progressivo: É o tratamento de choque contra a osteoporose urbana. Ele força o adensamento celular em áreas infraestruturadas, combatendo o "tumor" da especulação ociosa.
● EIV (Estudo de Impacto de Vizinhança): Funciona como uma vacina. Mitiga os impactos sistêmicos antes mesmo que o empreendimento nasça, garantindo que o novo "membro" não sobrecarregue a pressão arterial do bairro.
Graças a esses instrumentos, entre 2024 e 2026, R$ 69,9 milhões foram injetados em "cirurgias vitais" no nosso município:
Projeto Realizado (A "Cirurgia") Impacto Clínico Observado
CMEI Vanessa Kubaski Maciel Fortalecimento da base social (nutrição da educação infantil).
Ponte Vila Cipa / Campo Bello Criação de "circulação colateral" entre tecidos urbanos antes isolados.
Rua Padre Arnaldo Jansen Desobstrução arterial estratégica de acesso ao Contorno Leste.
A redistribuição das mais-valias urbanas através do EIV é a forma mais equilibrada de manter a pressão arterial econômica da cidade, evitando que o lucro privado gere um déficit crônico na saúde pública.
5. O PROGNÓSTICO E A PRESCRIÇÃO: MITIGAÇÃO E PLANEJAMENTO SUSTENTÁVEL
A saúde de Ponta Grossa em 2030 é uma variável que depende integralmente das decisões tomadas hoje no "centro cirúrgico" do planejamento. O zoneamento sustentável não é uma opção ideológica; é uma prescrição estrita de sobrevivência.
Para evitar o infarto iminente do Macro-Polo Uvaranas e curar a nossa expansão desordenada, assino o seguinte receituário:
RECEITUÁRIO ESTRATÉGICO DE URGÊNCIA
● Bypass Viário (Campus UEPG): Criação de acessos logísticos independentes para separar fisicamente o fluxo acadêmico do fluxo de emergência médica.
● Faixa Vermelha (Vascularização Prioritária): Segregação imediata de faixas exclusivas para ambulâncias, garantindo fluxo ininterrupto para a UPA e o HU.
● Logistical Filter (Terminal de Transbordo Regional da Saúde): Criação de um filtro periférico para vans intermunicipais, removendo a "trombose" de veículos estacionados ociosamente nas nossas vias arteriais.
Como gestores e cidadãos, a nossa responsabilidade ética é manter o "organismo Ponta Grossa" em pleno vigor. A prevenção é infinitamente mais barata e humana do que a ressuscitação de um sistema colapsado. O planejamento técnico, rígido e vinculante é a única garantia de que as futuras gerações herdarão uma cidade verdadeiramente saudável.























