Leite longa vida salta 13,85% e lidera inflação de alimentos em maio
Repasse imediato de custos da indústria ao varejo reflete encarecimento de insumos no campo, fatores climáticos e retração na captação nacional

O bolso do consumidor brasileiro continua sentindo o avanço nos preços dos produtos lácteos nas prateleiras de supermercados e atacados por todo o país. O leite longa vida assumiu o posto de principal pressão inflacionária entre os alimentos no mês de maio, conforme apontam os dados do IGP-10 (Índice Geral de Preços – 10), mensurado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e divulgado na última segunda-feira (18). O item apresentou um salto de 13,85% em comparação com o mês de abril.
Essa trajetória ascendente também se destaca no índice oficial de inflação do país, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Após demonstrar estabilidade no primeiro mês do ano, as cotações do produto registraram elevação de aproximadamente 11% de fevereiro para março, avançando outros 14% em abril, consolidando o leite como uma das maiores pressões do segmento alimentar recente.
A dinâmica rápida de reajuste nas gôndolas decorre do caráter perecível da mercadoria. Diferente de culturas como o café, cujas oscilações de custo levam cerca de 60 dias para atingir os supermercados, a indústria de laticínios promove o repasse imediato dos gastos logísticos e de captação para o consumidor final.
CENÁRIO NO CAMPO
As projeções para o decorrer do ano sinalizam que o produto deve continuar encarecendo. O principal fundamento para a estimativa é a sazonalidade produtiva do outono-inverno, período em que a qualidade das pastagens nativas cai e reduz o volume de leite de forma natural, principalmente nas bacias leiteiras de Minas Gerais, Paraná e Goiás. Produtores e entidades do setor alertam ainda que o panorama pode registrar agravamento caso os efeitos do fenômeno meteorológico El Niño se intensifiquem nos meses seguintes.
Do lado de dentro das propriedades rurais, as margens financeiras dos pecuaristas seguem sob forte aperto. Embora o valor recebido pelo litro do leite cru tenha apresentado melhora em relação às médias registradas no ano de 2025, os custos operacionais da atividade cresceram em ritmo constante.
De acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), o preço médio pago ao produtor nacional subiu 10,5% em março na comparação com fevereiro, alcançando R$ 2,3924 por litro. Apesar de marcar o terceiro mês seguido de valorização, o ritmo de alta perdeu fôlego devido à expectativa de recuperação gradativa da produção adiante. As informações são da CNN Brasil.
O incremento no faturamento bruto, contudo, é anulado pela escalada nos preços dos insumos básicos. O custo da ração animal subiu impulsionado pelos desdobramentos geopolíticos e econômicos da guerra no Oriente Médio. Paralelamente, os desembolsos com fertilizantes, tarifas de energia elétrica e óleo diesel (combustível que move o maquinário e as frotas agrícolas) mantêm-se elevados, fazendo com que o pecuarista trave novas frentes de investimento em infraestrutura.
O relatório mensal do Cepea indica que os produtores seguem demonstrando resistência em expandir os aportes voltados à alimentação do rebanho, comportamento que só deve se alterar caso as cotações do leite cru permaneçam firmes ou voltem a subir. Essa postura cautelosa no campo tem potencial de influenciar diretamente os preços futuros de suplementos minerais e proteicos voltados à nutrição animal.
QUEDA NA CAPTAÇÃO E ALTA NOS DERIVADOS
A menor oferta de matéria-prima gerou uma disputa acirrada entre os laticínios industriais. O Índice de Captação Leiteira do Cepea (ICAP-L) recuou 3,9% em março na média nacional, acumulando uma retração severa de 11,1% no primeiro trimestre de 2026. A baixa é explicada pela entressafra climática e pela redução generalizada de investimentos iniciada no ano anterior. Em 2025, o chamado "ciclo do leite" inundou o mercado com excesso de oferta, derrubando os preços pagos aos fazendeiros e gerando forte desestímulo na cadeia produtiva.
Como resultado, o Custo Operacional Efetivo (COE), medido pelo Cepea em parceria com a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), subiu 0,46% em março, totalizando um avanço de 2,11% no acumulado dos primeiros três meses do ano.
Essa escassez de matéria-prima e o encarecimento da produção industrial foram repassados aos produtos derivados nas gôndolas. No mesmo período de análise, o leite UHT subiu 18,3%, enquanto a muçarela registrou valorização de 6,1%. Manteiga, iogurtes e suplementos alimentares proteicos produzidos à base de soro de leite também ficaram mais caros para o consumidor.
Com a captação interna enfraquecida após os desinvestimentos provocados pelo ciclo de 2025, os laticínios nacionais encontraram dificuldades para processar o leite cru em volumes suficientes para atender à demanda de consumo direto e de derivados. Para suprir a lacuna do mercado doméstico, o setor recorreu à importação. As compras de lácteos vindas do exterior cresceram 33% em março, somando 604 milhões de litros em equivalente leite.
A expectativa para os próximos meses é de uma desaceleração no ritmo de reajustes a partir de maio. Segundo os analistas do Cepea, a combinação entre a resistência do consumidor final em absorver os preços elevados no varejo e uma possível recuperação da produtividade no campo entre maio e junho deve reduzir a pressão de alta sobre as cotações pagas aos produtores rurais.
LEIA ABAIXO UM RESUMO DA NOTÍCIA
- Disparada nos Índices de Inflação: O leite longa vida foi o principal vetor inflacionário dos alimentos em maio, registrando alta de 13,85% no IGP-10 e avanços sucessivos no IPCA, impulsionado pelo repasse ágil de custos típico de alimentos perecíveis.
- Margens Apertadas por Custos Globais e Clima: Apesar do aumento no valor pago pelo litro ao produtor (R$ 2,3924 em março), o lucro no campo foi mitigado pela alta do diesel, energia, fertilizantes e da ração, afetada pela guerra no Oriente Médio, além da quebra sazonal das pastagens e riscos do El Niño.
- Retração Produtiva e Recurso à Importação: A captação nacional de leite cru recuou 11,1% no primeiro trimestre devido aos desinvestimentos decorrentes da crise de excesso de oferta em 2025, reduzindo o volume processado pelas indústrias e elevando as importações de lácteos em 33% em março.





















