Coluna Fragmentos: Uma naçãozinha
A coluna ‘Fragmentos’, assinada pelo historiador Niltonci Batista Chaves, publicada entre 2007 e 2011, retorna como parte do projeto '200 Vezes PG', sendo publicada diariamente entre os dias 28 de fevereiro e 15 de setembro
Publicado: 04/08/2023, 00:05

Em um dos seus livros mais cultuados, o linguista e sociólogo Antonio Candido registra uma passagem que expressa, de forma singela e ao mesmo tempo precisa, como podemos definir o que é exatamente aquilo que cotidianamente chamamos de bairro: “O que é bairro? – perguntei certa vez a um velho caipira, cuja resposta pronta exime numa frase o que se vem expondo aqui: ‘Bairro é uma naçãozinha!’ – Entenda-se: a porção de terra a que os moradores têm consciência de pertencer formando uma certa unidade diferente das outras.” (Os parceiros do Rio Bonito. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964, p.84).
Apesar de podermos definir um bairro apenas por seus limites e aspectos físicos, a percepção de que essa unidade espacial se constitui sobretudo por um processo histórico próprio e que reúne pessoas que estabelecem relações particulares e específicas, nos ajuda a compreender o motivo, em qualquer cidade, de cada bairro apresentar singularidades e dinâmicas próprias.
De acordo com o sociólogo francês Henri Lefebvre, da mesma forma que um bairro se define por sua escala territorial ele se estrutura a partir de um módulo social próprio. Nos dicionários o comum é encontrarmos a definição de bairro como sendo um determinado espaço territorialmente definido e que integra uma cidade. Mas podemos avançar um pouco além dessa definição um tanto fria e marcadamente técnica.
A palavra bairro deriva do árabe “barri” (separado) e era aplicada as povoações medievais que se formaram além das cidades protegidas por muros (comuns na Europa da Idade Média). Talvez a utilização mais antiga que se tenha com tal denominação se aplica a Saint Germain, um populoso burgo que surgiu ao lado dos muros de Paris e que, com o passar do tempo, acabou integrado a capital francesa, tornando-se um dos seus bairros mais conhecidos e charmosos.
Mas a conceituação atual do que vem a ser um “bairro” apresenta particularidades. Por exemplo: em Portugal, país que colonizou o Brasil (e que aqui implantou seus padrões administrativos), o conceito de bairro está associado ao de uma unidade administrativa. Por exemplo, em Lisboa, capital lusitana, até hoje existem apenas quatro bairros (Ocidental, Oriental, Baixo, Alto) tendo cada um deles um administrador. A definição aplicada àquilo que hoje chamamos de bairro em nosso país é, em Portugal, a de freguesia (a mesma denominação que foi usada por aqui até o final do nosso Império).
No Brasil seria impossível pensarmos em uma cidade sem a existência de seus bairros. São eles que nos ajudam a entender como se deu a formação histórica das cidades brasileiras. Por exemplo: enquanto em Recife é possível encontrar vários bairros que tiveram origem onde funcionavam os engenhos coloniais do século XVI (Apipucos e Casa Forte), em São Paulo existem os que se formaram ou se fortaleceram a partir dar vilas operárias estruturadas no início dos Novecentos (Lapa e Bom Retiro) e em Curitiba, muitos bairros estão ligados a presença dos imigrantes europeus (Umbará, Abranches). É também nos bairros que se desenvolvem os laços de vizinhança que acabam dando unidade e identidade própria para tais espaços e para as próprias cidades.
Além da questão espacial e histórica, outro elemento essencial para se pensar um bairro é a existência de uma rede de serviços e equipamentos comunitários: mercados, igrejas, hospitais, casas comerciais, praças, escolas e demais espaços de lazer. Atualmente esses elementos são indispensáveis para a existência de qualquer bairro, indiferentes de sua localização física e do perfil socioeconômico de seus habitantes.
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Nova Rússia, Oficinas, Uvaranas
De acordo com geógrafos e historiadores locais, a estrutura urbana de Ponta Grossa, tal qual conhecemos hoje, se definiu claramente nas três primeiras décadas do século XX. A configuração urbana da cidade é reflexo do aumento físico e das transformações demográficas e produtivas pelas quais Ponta Grossa passou no início do último século. Nessa configuração, se estruturaram três bairros principais, a partir dos quais a cidade se desenvolveu: Nova Rússia (onde se estabeleceram majoritariamente colonos de origem eslava como os poloneses e os ucranianos), Uvaranas (no qual se concentraram as chácaras dos colonos italianos e também se estabeleceu o quartel) e o bairro das Oficinas (onde foram construídas as instalações da rede ferroviária e as casas dos seus operários).
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O material original, com mais de 170 colunas, será republicado na íntegra e sem sofrer alterações. Por isso, buscando respeitar o teor histórico das publicações, o material apresentará elementos e discussões datadas por tratarem-se de produções com mais de uma década de lançamento. Além das republicações, mais de 20 colunas inéditas serão publicadas. Completando assim 200 publicações.
Publicada originalmente no dia 24 de outubro de 2010.
Coluna assinada por Niltonci Batista Chaves. Historiador. Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná.




















