‘Chappie’ tem ideia boa, mas mal desenvolvida

“Você procura a presidente de uma empresa bélica de capital aberto para propor a criação de um robô que escreve poesia?” O espanto e a descrença da pergunta estão na voz de Sigourney Weaver, ou melhor, de Michelle. A personagem ocupa o mais alto cargo de uma corporação devotada ao desenvolvimento e comercialização de humanoides policiais no filme ‘Chappie’, do diretor Neill Blomkamp. Diante de Michelle está Deon (Dev Patel), um de seus funcionários. Na cena que contextualiza a fala, Deon tenta convencer sua superiora a autorizar o investimento na elaboração de um robô dotado de inteligência artificial avançada, capaz de imitar os sentimentos humanos e, inclusive, evoluir como um ser humano.
O conteúdo da fala e o contexto em que ela é dita fazem com que se crie uma boa expectativa a respeito da qualidade deste terceiro longa do diretor de ‘Distrito 9’ e ‘Elysium’. Afinal, de imediato, o que se vê é o embate entre um cientista interessado no progresso do conhecimento e uma executiva preocupada com a multiplicação dos lucros vindos da guerra. Contrariado, Deon leva adiante seu projeto à revelia. Assim, ele cria o personagem título do filme que, lá pelas tantas, acaba sendo adotado por criminosos. Chappie, então, passa a ter uma “mãe” e um “pai” postiços e devotados à criminalidade. O “deus” que o criou fica em segundo plano. Ou quase.
A complexidade do relacionamento dessa “família” que tem como centro uma criatura que não é humana, mas projetada para ser um arremedo de ser humano, até que abre margem à criação de novas e boas expectativas sobre o filme. Mas elas se perdem. Como Chappie nasce com a “mentalidade” de um bebê, suas reações e falas são infantis. E toda essa infantilidade do personagem título transborda para a produção em geral. O conjunto, portanto, é um festival de ingenuidade. Mas no sentido negativo. Fica no ar uma sensação de amadorismo, projeto feito sem cuidado e arestas que não foram aparadas. Até as antenas de Chappie são de gosto duvidoso, remetendo a um cão exageradamente obediente e amedrontado.
Nomes conhecidos no elenco (Hugh Jackman também marca presença, interpretando um militar que faz oposição a Deon) não são suficientes para salvar a produção, que acaba sendo enquadrada na categoria “ideia boa, mas mal desenhada”.





















