‘Cinderela’ é forte tributo à humildade

Cenários elaborados para preencher tomadas abertas, figurinos caprichosamente trabalhados, trilha sonora bastante presente e música que sobe nos momentos nos quais se espera maior emoção do público. Os elementos mais clichês de um conto de fadas feito para emocionar estão na versão do clássico ‘Cinderela’ preparada pelo diretor e ator britânico Kenneth Branagh. Mas o todo agrada.
Essa produção com atores de carne e osso é bem fiel à imagem construída pela animação de 1950, da própria Disney. Conhecido por sua relação com as obras de Shakespeare, Branagh entrega um produto marcado pela tradição. Não há grandes alterações ou releituras, como se vê ultimamente em obras como ‘A Garota da Capa Vermelha’ e ‘Malévola’.
A clássica história de humilhação (e superação) traz dois nomes conhecidos dos espectadores de séries: Lily James, de ‘Downton Abbey’, é a protagonista; e Robb Stark, de ‘Game of Thrones’, é o príncipe. Outros dois nomes de peso estão no elenco, interpretando personagens secundárias: Helena Bonham Carter (a fada) e Cate Blanchett (a madrasta).
Seria um clichê (agora da crítica) afirmar que Cate Blanchett, com sua encarnação da vilã, representa a grande força da Cinderela de Branagh. Muito mais do que a boa interpretação da atriz ou mesmo a magia trazida pela fada, é a importância dirigida à essência do ser humano (e não a poder, riqueza ou prestígio social) o que encanta em ‘Cinderela’. A fonte da qual nasce todo e qualquer encantamento no filme está mesmo na relação não impossível, mas pouco provável, entre a camponesa órfã e o príncipe humilde.
A história intensifica esse aspecto ao mostrar um príncipe que reforça a declaração de ser aprendiz do ofício de monarca. Talvez tamanha humildade soe altamente dissonante em um mundo marcado por competitividade, jogos de interesses e individualismo. Mas, quem sabe, o resultado também seja capaz de encantar multidões justamente por representar uma ilha de delicadeza e valores imateriais, um refúgio, em meio a tanta realidade severa. Na clássica cena do baile, o casal deixa-se levar com suavidade pela música. O espectador que fizer o mesmo com a narrativa sairá do cinema mais leve. A intenção, afinal, é essa.





















