Vida dos animais também precisa ser preservada em PG
Conselheira, médica-veterinária questiona que conseguimos reconhecer valor em paredes históricas, mas ainda relativizamos a vida dos animais

A conselheira da Causa Animal do Grupo aRede, Érika Zanoni Fagundes Cunha, questiona o que consideramos como patrimônio histórico de Ponta Grossa. Para ela, é necessário refletir o que é digno de proteção - o debate é referente a uma reportagem especial do Portal aRede.
Além disso, como médica-veterinária, ela indaga que conseguimos reconhecer valor em paredes históricas, ao se referir aos prédios tombados, mas ainda relativizamos o valor da vida dos animais.
Confira abaixo a opinião na íntegra da Érika, que é médica veterinária, especialista em Neurociência Clínica, mestre em Ciências Veterinárias, doutora em Zoologia e pós-doutora em Direito Animal pela Universidade Federal do Paraná (UFPR):
"A recente divulgação das medidas adotadas pelo município de Ponta Grossa para a preservação do patrimônio histórico merece reconhecimento. Proteger edificações, espaços e marcos culturais é preservar a memória coletiva, a identidade de um povo e os registros materiais de sua trajetória no tempo. Trata-se de um avanço civilizatório importante, que demonstra compromisso com a cultura e com as gerações futuras.
Entretanto, essa iniciativa também nos convida a uma reflexão mais ampla: o que, afinal, consideramos patrimônio digno de proteção?
Se, por um lado, reconhecemos valor histórico, arquitetônico e simbólico em construções e estruturas físicas, por outro, ainda enfrentamos desafios significativos na proteção de um patrimônio igualmente relevante e, talvez, ainda mais sensível: a vida animal.
Os animais não são meros elementos do meio ambiente ou recursos à disposição humana. São seres sencientes, dotados de capacidade de sentir dor, medo, prazer e estabelecer vínculos. A ciência contemporânea já consolidou esse entendimento, e ele vem sendo progressivamente incorporado aos ordenamentos jurídicos e às políticas públicas. Ainda assim, na prática, a proteção conferida aos animais muitas vezes permanece aquém do necessário.
É interessante observar que o instituto do tombamento, utilizado para a proteção do patrimônio histórico, parte do reconhecimento de um valor intrínseco, algo que merece ser preservado independentemente de sua utilidade imediata. Esse mesmo raciocínio poderia, e deveria, ser ampliado para a proteção da vida animal. Se reconhecemos valor em paredes que contam histórias, por que ainda relativizamos o valor de vidas que sentem, sofrem e compartilham conosco o espaço social?
Além disso, a preservação do patrimônio histórico não pode ser dissociada da preservação ambiental. Em regiões como Ponta Grossa, onde há grande riqueza natural e biodiversidade, a proteção integrada entre cultura, meio ambiente e fauna é essencial. A expansão urbana, o turismo e as intervenções humanas impactam diretamente os animais, especialmente os silvestres, que frequentemente são invisibilizados nesse debate.
Do ponto de vista ético e social, a forma como uma sociedade trata seus animais revela aspectos profundos de sua consciência coletiva. Diversos estudos, inclusive no campo da criminologia e da medicina veterinária legal, demonstram que a violência contra animais pode estar associada a outras formas de violência contra vulneráveis, o que reforça a importância de políticas públicas efetivas de proteção e educação.
Assim, ao celebrarmos os avanços na preservação do patrimônio histórico, é oportuno ampliar o olhar. Uma sociedade verdadeiramente evoluída não é apenas aquela que conserva seu passado material, mas aquela que também protege a vida em todas as suas formas no presente.
Preservar prédios é honrar a história. Preservar animais é honrar a vida. E talvez esse seja o próximo passo necessário na construção de uma sociedade mais ética, empática e verdadeiramente sustentável".
CONSELHO DA COMUNIDADE
Composto por lideranças representativas da sociedade, não ocupantes de cargo eletivo, totalizando 14 membros, a iniciativa tem o objetivo de debater, discutir e opinar sobre pautas e temas de relevância local e regional, que impactam na vida dos cidadãos, levantados semanalmente pelo Portal aRede e pelo Jornal da Manhã, com a divulgação em formato de vídeo e/ou artigo.
Conheça mais detalhes dos membros do 'Conselho da Comunidade' acessando outras notícias sobre o projeto.
VEJA ABAIXO UM RESUMO DO ARTIGO
- O Contraste entre Paredes e Vidas: a autora reconhece a importância do tombamento de prédios históricos em Ponta Grossa, mas questiona a disparidade de critérios. Para ela, se reconhecemos valor intrínseco em construções que contam o passado, deveríamos aplicar a mesma lógica de preservação à vida animal, que possui um valor ainda mais sensível e urgente;
- Senciência e Ética Social: com base em sua experiência acadêmica, Érika reforça que animais são seres sencientes (capazes de sentir dor, medo e afeto). Ela argumenta que o tratamento dispensado aos animais é um reflexo direto da consciência ética de uma sociedade; ignorar o sofrimento animal é, portanto, um sinal de atraso civilizatório;
- Proteção Integrada para o Futuro: o artigo defende que a preservação histórica não pode ser isolada da proteção ambiental e da fauna. A 'evolução' de uma cidade como Ponta Grossa depende de honrar a história (preservando prédios) e, simultaneamente, honrar a vida (protegendo os animais), criando um ecossistema urbano verdadeiramente ético e sustentável.
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- PG deve preservar sua história para não cometer os mesmos erros do passado.




















