Multas devem ser consequência, não estratégia principal da política de trânsito
Henrique Zulian, conselheiro de Urbanismo, defende mudança no desenho urbano e no modelo de mobilidade para enfrentar o aumento das infrações de trânsito
Publicado: 13/01/2026, 16:57

O conselheiro da área do Urbanismo do Grupo aRede, Henrique Wosiack Zulian, afirma que, embora Ponta Grossa tenha avançado em fiscalização, tecnologia e sinalização viária, o aumento expressivo das multas revela desafios mais profundos que exigem repensar o desenho urbano e o modelo de mobilidade adotado pela cidade.
O debate é referente a reportagem especial do Grupo aRede
Confira abaixo a opinião na íntegra de Henrique, graduado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), pós-graduado pela Escola da Cidade e mestre na área de Projeto Arquitetônico pela Universidade de São Paulo (FAU-USP). Ele também tem dezesseis premiações em concursos de arquitetura pelo Brasil, inclusive em Ponta Grossa:
"Ponta Grossa ultrapassou, em 2025, a marca de 184 mil multas de trânsito, um crescimento de mais de 26% em relação ao ano anterior. O dado impressiona, mas ele precisa ser lido com mais profundidade. A pergunta central não é apenas quantas multas foram aplicadas — e sim o que esses números revelam sobre o modelo de cidade que estamos consolidando.
Segundo a Prefeitura, o aumento está ligado ao fortalecimento da fiscalização, da sinalização viária, da tecnologia e das ações educativas. Houve ampliação de radares, semáforos inteligentes e investimentos recordes em sinalização. Tudo isso contribui para mais controle e organização do tráfego.
Mas alguns dados acendem um alerta. As multas por avanço de sinal vermelho cresceram mais de 220%, enquanto o excesso de velocidade segue liderando as infrações. Esses comportamentos não são apenas falhas individuais. Eles refletem uma cultura rodoviarista e um desenho urbano que, muitas vezes, incentiva a pressa, a fluidez excessiva e o domínio do carro sobre o espaço público.
É nesse ponto que a educação de trânsito precisa ir além das campanhas e da punição. Ela precisa acontecer no próprio desenho das ruas.
Cidades que reduziram acidentes graves entenderam que o espaço educa. Texturas diferentes no pavimento, como pavers ou a recuperação de pavimentação histórica, induzem naturalmente a redução de velocidade. Redutores antes de faixas de pedestres, travessias elevadas, estreitamento visual das vias e calçadas mais largas comunicam, de forma clara, que o pedestre é prioridade.
O urbanismo tático entra como uma solução estratégica: intervenções simples, de baixo custo, com pintura, mobiliário urbano e reorganização do espaço viário, capazes de transformar cruzamentos perigosos em áreas mais seguras — e pedagógicas. O motorista muda o comportamento não por medo da multa, mas porque o desenho da rua o incentiva.
Isso não significa abrir mão de radares, fiscalização ou tecnologia. Eles são importantes. Mas não podem ser o eixo central da política de trânsito. Multas devem ser consequência, não estratégia principal.
No fim, os dados mostram uma cidade que avança em controle e infraestrutura, mas que enfrenta um desafio maior: mudar a lógica do trânsito, reduzindo a velocidade, valorizando a vida e transformando ruas de passagem em espaços de convivência. Porque trânsito seguro não se constrói só com fiscalização — se constrói com escolhas urbanas conscientes".
CONSELHO DA COMUNIDADE
Composto por lideranças representativas da sociedade, não ocupantes de cargo eletivo, totalizando 14 membros, a iniciativa tem o objetivo de debater, discutir e opinar sobre pautas e temas de relevância local e regional, que impactam na vida dos cidadãos, levantados semanalmente pelo Portal aRede e pelo Jornal da Manhã, com a divulgação em formato de vídeo e/ou artigo.
Conheça mais detalhes dos membros do 'Conselho da Comunidade' acessando outras notícias sobre o projeto.
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LEIA ABAIXO UM RESUMO DA NOTÍCIA
- Aumento das multas revela problema estrutural: Apesar dos avanços em fiscalização, tecnologia e sinalização, o crescimento de 26% nas multas em Ponta Grossa indica falhas mais profundas no modelo urbano e na cultura rodoviarista, que prioriza a velocidade e o carro.
- Comportamento no trânsito é influenciado pelo desenho da cidade: Infrações como excesso de velocidade e avanço de sinal não são apenas erros individuais, mas reflexo de ruas que incentivam a pressa; o espaço urbano também educa.
- Urbanismo como ferramenta de segurança: Soluções como urbanismo tático, travessias elevadas, calçadas mais largas e redução visual das vias podem mudar comportamentos de forma mais eficaz que a punição, valorizando a vida e a convivência urbana.




















