Agricultura orgânica transforma produção e renda de famílias em PG
Produtores de Ponta Grossa apostam no cultivo sem agrotóxicos e encontram nas cooperativas e compras públicas caminhos para comercializar os alimentos

A agricultura orgânica é um sistema de produção que busca cultivar alimentos saudáveis, conservando o solo, a água e a biodiversidade do local. Somado a isso, tem se tornado a principal fonte de renda para milhares de famílias. Alexsandro Silva dos Santos, 26 anos, trabalha no cultivo orgânico há mais de 15 anos. Técnico agrícola e prestes a se formar em Agronomia pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) neste ano, Santos e a esposa, Antonilda Volski Cordeiro, plantam hortaliças, legumes, tubérculos e temperos, como cebolinha e salsinha. A área do cultivo chega a dois hectares da pequena propriedade no Assentamento Emiliano Zapata, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) – antiga Fazenda da Embrapa, a aproximadamente 10 quilômetros da área urbana de Ponta Grossa.
O cultivo orgânico é o alimento e renda do casal e de uma filha adolescente. Há aproximadamente cinco anos, a produção possui certificado da Rede Ecovida de Agroecologia, organização autorizada a certificação de produção orgânica e sistemas agroflorestais na região. Para adquirir o selo de produção orgânica, segue-se um protocolo de exigências que garante que o alimento foi cultivado ou fabricado sem agrotóxicos ou aditivos químicos sintéticos, respeitando o meio ambiente e o bem-estar animal.
Sobre o benefício da certificação, Santos explica: “A principal diferença de quem tem a certificação é que consegue vender como produto orgânico. Quem não tem, não tem como vender. Você só consegue comercializar um produto como orgânico se tiver um certificado de uma certificadora”.
Santos destaca que, entre as exigências da agricultura orgânica, está a criação de barreiras vegetais contra a contaminação da produção em áreas próximas de plantações convencionais, em que se usa o sistema de pulverização de agrotóxicos. “Precisa de uma barreira vegetativa para proteção de qualquer produto que venha de fora, por exemplo, de uma produção convencional, produção transgênica, do vizinho para dentro da área. A barreira pode ser de cana, de outras árvores de menor porte, ou também de capim-napiê e floresta”, ressalta.
A agricultura convencional depende de insumos externos para controlar pragas e doenças. Já o sistema orgânico trabalha de forma integrada aos processos naturais do próprio meio ambiente, como explica o técnico agrícola Maicon Cézar Lopes de Lima, da Cooperativa Camponesa de Produção Agroecológica e Economia Solidária (Cooperas), do Assentamento Emiliano Zapata. Maicon destaca o uso de produtos biológicos para o controle de pragas. “Hoje, na produção orgânica, a gente tem os produtos biológicos, que têm um resultado muito melhor”. Lima cita o uso de caudas feitas de forma doméstica. “Por exemplo, fazer um extrato de pimenta, no caso, um repelente, para que os insetos não ataquem as hortaliças”, afirma.
A engenheira agrônoma e doutoranda em Agronomia na UEPG, Ana Claudia Lubczyk, explica que o cultivo orgânico exige vários processos. “É preciso seguir uma legislação específica, que estabelece como o cultivo deve ser conduzido. De forma geral, a agricultura orgânica não permite o uso de agrotóxicos e determinados fertilizantes e outros insumos sintéticos, nem o uso de sementes transgênicas. Mas ser orgânico não significa apenas não usar agrotóxico. Existe todo um conjunto de práticas que precisa ser seguido”.
Entre as diferenças da agricultura convencional para a agricultura orgânica, a agrônoma destaca a forma como cada sistema entende e maneja a produção. “A produção orgânica trabalha com a diversidade e respeita os ciclos da natureza. Então, existe uma sazonalidade. Nem todos os alimentos estão disponíveis durante todo o ano”.
Quanto ao trabalho, Santos afirma que o cultivo orgânico exige mais cuidados que a agricultura convencional, especialmente na manutenção da cobertura do solo e no controle das plantas. “Agricultura familiar é mais complicada, principalmente porque depende de uma maior mão de obra. Depende também um pouco mais de tempo e mais maquinário também”, relata.
Embora as dificuldades, Santos defende o plantio orgânico também como alternativa que pode gerar mais retorno financeiro aos produtores. Ele estima um retorno de 30% maior, comparado à produção convencional. “Se [você] ver a tabela do mercado, nós estamos vendendo três, quatro vezes mais o maior preço. Então, é bem mais satisfatório em relação ao preço”, afirma.
Através da Cooperas, as famílias do Assentamento Emiliano Zapata escoam a produção em convênios governamentais, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PENAI), o Programa de Aquisição de Alimentos (PA) e a Feira Verde da Prefeitura Municipal de Ponta Grossa. Semanalmente, pela Cooperas, são fornecidas toda semana de cinco a seis toneladas de alimentos para esses programas, segundo Lima. Ana Cláudia incentiva o reconhecimento dos agricultores familiares. “Fortalecer a venda direta, as feiras, as cooperativas, os mercados locais e as compras institucionais pode aproximar agricultores e consumidores, reduzir intermediários e permitir uma remuneração mais justa para quem produz”, diz.
No Estado do Paraná, existe o programa Paraná Mais Orgânico (PMO), política pública que oferece orientação e apoio técnico gratuito a agricultores familiares interessados em produzir alimentos orgânicos. O programa atua na viabilização da certificação, redução de custos de produção e fortalecimento da agricultura familiar. O PMO trabalha juntamente com universidades estaduais para o processo de certificação. A UEPG possui um núcleo de certificação por meio do Laboratório de Mecanização Agrícola (Lama), que trabalha com agricultura familiar desde os anos 1990.
De acordo com dados do Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos (CNPO), do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), divulgados pelo Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná, em 2025 o Paraná lidera em número de produtores orgânicos certificados no Brasil, com 4.510 produtores, seguido pelo Rio Grande do Sul, com 3.273, e pelo Pará, com 2.513. No Brasil, mais de 22,9 mil produtores orgânicos estavam registrados no Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos (CNPO) do MAPA em 2024.





















