Fim de cota chinesa e demanda fraca derrubam preço do boi
Sem o principal comprador externo até outubro, frigoríficos dão férias coletivas e analistas projetam queda nos preços da arroba e do atacado, com repasse tímido para o consumidor final

O preço da arroba do boi gordo, que já vinha registrando recuo nos últimos dois meses, tende a intensificar sua trajetória de queda ao longo do mês de julho. Segundo analistas do setor, as cotações podem atingir os patamares mais baixos de 2026. O movimento é reflexo de uma combinação entre a boa oferta de animais prontos para o abate, a fragilidade da demanda interna e, principalmente, a saída temporária da China das compras de carne bovina brasileira.
De acordo com dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), a arroba do boi gordo acumulou uma desvalorização de quase 3% logo no início deste mês, sendo cotada a R$ 326,65. O reflexo nas vendas por atacado já começou a aparecer de forma sutil. Os cortes do traseiro registraram recuo de 1%, enquanto os cortes do dianteiro apresentaram queda de 1,2% no mesmo período.
ESGOTAMENTO DA COTA CHINESA
A principal força por trás desse cenário de baixa é o preenchimento da cota anual de exportação estabelecida pela China para o Brasil, fixada em 1,106 milhão de toneladas. Dentro desse limite, o tributo cobrado é de 12%. No entanto, qualquer volume exportado além do teto determinado passa a pagar uma alíquota adicional de 55%, inviabilizando os embarques no momento.
Em relatório divulgado pela consultoria Safras & Mercados, o volume de 158,3 mil toneladas exportado pelo Brasil em junho representou o "esgotamento oficial" dessa cota. As autoridades chinesas contabilizam o volume com base na data de chegada das cargas aos portos do país asiático, o que incluiu contêineres que saíram do Brasil no fim de 2025 e levaram cerca de 40 dias de viagem.
Até o mês de maio, os dados oficiais apontavam que o país já havia preenchido 65,4% do limite estipulado. As informações são do Globo Rural.
Com o fechamento temporário da janela chinesa, uma parcela expressiva da carne que seria direcionada ao exterior será internalizada. A expectativa é que o volume excedente acentue os recuos de preços no atacado paulista, que é o maior polo consumidor do país. Como exemplo dessa tendência, o quilo do corte dianteiro no atacado de São Paulo sofreu uma queda de R$ 1,00, passando a ser comercializado por R$ 19,00.
Lygia Pimentel, CEO da consultoria Agrifatto, pondera que o impacto da ausência temporária do país asiático será sentido, mas mitigado por outros parceiros comerciais. "A China vai fazer falta, são cerca de 130 mil toneladas mensais, e não conseguimos colocar todo esse volume em outros compradores de uma só vez. Mas, como os demais mercados continuam comprando bem, especialmente os Estados Unidos, veremos quedas cadenciadas", avalia a executiva.
FÉRIAS COLETIVAS E PICO DE OFERTA
Para administrar o excedente de carne e ajustar o ritmo de produção à nova realidade do mercado, grandes frigoríficos nacionais, como JBS, Frigol, Better Beef, Plena Alimentos e Iguatemi Beef, iniciaram a concessão de férias coletivas a funcionários em algumas de suas plantas industriais.
Esse movimento altera a dinâmica tradicional para esta época do ano, quando os abates costumam registrar aumento entre os meses de junho e julho. A coordenadora de mercado pecuário da Agrifatto, Isabella Cavalcante, reforça que a conjuntura atual deve empurrar os preços do boi gordo para as mínimas do ano corrente durante este mês.
Complementando essa análise, o gerente da Consultoria Agro do Itaú BBA, Cesar de Castro Alves, projeta que o recuo mais acentuado nas exportações deve ser sentido entre o fim de julho e o início de agosto. A partir deste período, o excedente das cargas recusadas pela China começará a inundar o mercado doméstico. A situação tende a se somar à entrada sazonal dos animais criados em regime de confinamento, cuja oferta tradicionalmente cresce no segundo semestre.
BOLSO DO CONSUMIDOR E OUTRAS PROTEÍNAS
Apesar da forte retração na arroba e no atacado, o repasse desses descontos para as gôndolas dos supermercados e açougues deve ocorrer de forma muito mais lenta e limitada. Os analistas acreditam que o varejo tende a reter parte da queda para preservar suas margens de lucro.
"Quando o boi cai, a carne no atacado também cai e vice-versa. No varejo é outra história. Acho que não vai ser pequena a queda [dos preços do boi], mas no varejo deve cair menos porque eles vão preservar margens. Se baixar de preço, ajuda o consumo a avançar, já que o frango está muito barato e a carne bovina está perdendo espaço", explica Cesar.
Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercados, concorda que historicamente reduções agressivas no atacado não chegam integralmente ao consumidor final. Ele acrescenta que o consumo doméstico de carne bovina também encontra barreiras no elevado endividamento das famílias brasileiras e no atual patamar geral de preços. Soma-se a isso a forte concorrência com outras proteínas animais. Segundo Isabella, a competitividade do frango em relação à carne bovina atingiu patamares historicamente elevados, o que enfraquece o desempenho da carne de boi no mercado interno.
ÚLTIMO TRIMESTRE
O cenário de preços baixos e mercado pressionado, contudo, tem data para mudar. Os analistas estimam uma reversão completa do quadro no último trimestre do ano devido a três fatores principais:
- Retorno das compras da China: Os importadores chineses voltarão às compras no fim do ano adquirindo lotes que já serão contabilizados na cota de importação do ano seguinte (2027).
- Menor oferta de animais: O desincentivo ao confinamento ao longo do segundo semestre, provocado pelo atual momento de baixa, resultará em uma menor oferta de gado pronto nos últimos três meses do ano.
- Sazonalidade do consumo: O final do ano coincide historicamente com o ápice do consumo interno no Brasil, impulsionado pelas festas e pelas gratificações salariais de fim de ano.
"De qualquer forma, acredito que teremos um mercado muito demandado, com quadro de oferta bastante restrito", conclui Fernando.
LEIA ABAIXO UM RESUMO DA NOTÍCIA
- Esgotamento da cota internacional: O Brasil preencheu o limite anual de 1,106 milhão de toneladas de carne bovina para a China sem a sobretaxa de 55%, o que afasta o principal comprador do país até outubro e direciona o excedente para o mercado interno.
- Férias coletivas e pressão nos preços: Grandes frigoríficos (como JBS e Frigol) adotaram férias coletivas para controlar a oferta. A combinação de alta produção sazonal e ausência chinesa deve levar a arroba do boi gordo ao menor valor do ano em julho.
- Repasse limitado ao consumidor: Embora a carne esteja mais barata no atacado, o varejo deve reduzir os preços de forma tímida para preservar margens, enfrentando ainda a forte concorrência do frango, que está altamente competitivo.





















