Brasil paga 16% a mais por fertilizantes e compra menos, aponta CNA
Ureia subiu 40% e MAP, 20% durante o conflito no Oriente Médio; soja avançou menos de 1% no mesmo período; China ultrapassa Rússia e vira maior fornecedor do país

O Brasil registrou uma queda de 4% no volume de fertilizantes importados entre janeiro e abril deste ano, mas o desembolso financeiro para adquirir os insumos saltou 16%. O total de nitrogenados e fosfatados trazidos ao país recuou de 7,7 milhões de toneladas em relação ao mesmo período de 2025 para 7,4 milhões de toneladas. Em contrapartida, os gastos totais subiram de R$ 18,549 bilhões (US$ 3,7 bilhões) para R$ 21,557 bilhões (US$ 4,3 bilhões). Os dados constam em um levantamento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e foram divulgados pela CNN Brasil.
De acordo com o diagnóstico da entidade, o principal desafio para o setor não se restringe isoladamente às cotações dos insumos, mas envolve diretamente a perda do poder de compra por parte do produtor rural. Durante a escalada recente das tensões e do conflito geopolítico no Oriente Médio, o preço médio da ureia sofreu um aumento de 40%. O atual panorama evidencia uma deterioração severa na chamada relação de troca, que mede o volume de sacas de grãos que o agricultor precisa comercializar para conseguir adquirir uma única tonelada de adubo.
O fosfato monoamônio (MAP), considerado o fertilizante fosfatado mais relevante e utilizado nas lavouras brasileiras, acumulou uma alta de 20% no intervalo analisado. Na outra ponta da balança comercial, as commodities agrícolas produzidas no país não acompanharam o movimento de alta. A soja avançou somente 0,9% e o milho registrou um crescimento tímido de 0,1% no mesmo período.
Diante desses percentuais desfavoráveis, a relação de troca retrocedeu ao seu pior patamar desde o ano de 2022. Naquela época, o choque de preços global na cadeia de adubos foi provocado pelo início da guerra entre Rússia e Ucrânia. Contudo, segundo dados do projeto Campo Futuro, conduzido pela CNA em parceria com o Senar, o cenário de 2022 contava com preços de milho e soja operando em níveis recordes históricos, o que amortecia parte do impacto financeiro nas fazendas. Atualmente, a estabilidade das commodities impede esse alívio, obrigando o produtor a desembolsar mais sacas para manter o mesmo padrão tecnológico e produtivo antes mesmo de iniciar o plantio.
Historicamente, as cotações internacionais permanecem pressionadas e sem sinais de retorno aos patamares observados antes de 2022. Relatórios do Banco Mundial apontam que o fosfato diamônico (DAP), o superfosfato triplo (TSP), a ureia e o cloreto de potássio voltaram a demonstrar curvas de elevação logo no começo de 2026, confirmando que o mercado global não restabeleceu a normalidade após a crise de três anos atrás.
Para contornar o encarecimento dos principais produtos, os agricultores brasileiros alteraram o perfil de consumo. Em determinados meses de 2026, as compras de sulfato de amônio (SAM) superaram as aquisições de ureia. No segmento de fosfatados, o superfosfato triplo (TSP) e o superfosfato simples (SSP) ganharam espaço no mercado nacional como alternativas de substituição direta ao MAP, por serem compostos menos dependentes de rotas logísticas afetadas e vulneráveis aos conflitos do Oriente Médio.
Paralelamente, a geografia dos fornecedores externos do Brasil passou por transformações relevantes. No ano de 2024, a Rússia liderava as exportações para o mercado brasileiro com 26% do total, seguida pela China, que detinha 20%. Em 2025, os papéis se inverteram: os chineses assumiram a liderança com 26% de participação, enquanto os russos caíram para 25%. O ranking completou-se com o Canadá (11%), Marrocos (5%) e Egito (4%). Entre os meses de fevereiro e abril de 2026, dados do sistema Comex Stat revelam que o Turcomenistão ascendeu ao grupo dos cinco principais parceiros, garantindo uma fatia de 8% do mercado graças ao forte fornecimento de adubos potássicos.
A vulnerabilidade estrutural do agronegócio nacional fica evidente no nível de dependência do mercado externo: 93% de todo o fertilizante consumido em solo brasileiro durante o ano de 2025 foi importado. Conforme ressalta a CNA, essa forte dependência faz com que quaisquer instabilidades globais, sejam sanções econômicas, guerras ou crises no transporte marítimo, gerem reflexos imediatos nos custos de produção internos.
O cenário projetado para o encerramento do ano indica que o insumo continuará custando mais caro. As tomadas de decisão e compras voltadas para o planejamento da safra 2026/2027 concentram-se tradicionalmente ao longo do segundo semestre, período considerado decisivo para a definição real das margens de rentabilidade do produtor rural em meio ao cenário de incertezas de preços.
LEIA ABAIXO UM RESUMO DA NOTÍCIA
- Aumento de custos e menor volume: O Brasil reduziu em 4% o volume importado de fertilizantes no primeiro quadrimestre do ano, mas o valor total pago pelos insumos subiu 16% devido à forte alta nos preços internacionais, puxada por conflitos no Oriente Médio.
- Pior relação de troca desde 2022: A defasagem entre o preço dos adubos (com altas de até 40% na ureia e 20% no MAP) e a estagnação dos preços das commodities (soja subiu 0,9% e milho 0,1%) reduziu drasticamente o poder de compra do produtor.
- Mudança de fornecedores e substituição: A China ultrapassou a Rússia como maior fornecedora de fertilizantes do Brasil, enquanto o país tenta mitigar riscos logísticos substituindo fertilizantes tradicionais como o MAP por alternativas menos vulneráveis a crises internacionais.





















