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Coluna Fragmentos: Ireno José nas páginas do JM: A charge como sinônimo de bom humor

A coluna ‘Fragmentos’, assinada pelo historiador Niltonci Batista Chaves, publicada entre 2007 e 2011, retorna como parte do projeto '200 Vezes PG', sendo publicada diariamente entre os dias 28 de fevereiro e 15 de setembro

Charge de Ireno publicada no JM em 25 de outubro de 1984
Charge de Ireno publicada no JM em 25 de outubro de 1984 -

João Gabriel Vieira

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A história da imprensa brasileira inicia em 1808, com a vinda da família real portuguesa para a colônia. A Gazeta do Rio de Janeiro – órgão oficial do governo português – começou a circular no Brasil no dia 10 de setembro daquele ano. Nascia assim a nossa imprensa.

A partir da década de 1820 novos jornais foram surgindo: o Diário do Rio de Janeiro, a Gazeta de Notícias, O Paiz, o Diário do Commercio, a Tribuna, a Gazeta da Tarde, o Correio do Povo, entre outros. No final daquele século vieram as revistas de cunho satírico como a Revista Ilustrada, O Mequetrefe, O Mosquito e O Bezouro. Essas publicações tratavam de temas políticos, culturais e sociais e eram compostas por textos e imagens marcadamente satíricas. Nas suas páginas encontravam-se as chamadas charges, ou seja, imagens que expressavam a partir do humor, a indignação, o repúdio ou o desabafo com relação a alguma questão de impacto sobre a sociedade.

Mas no caso brasileiro, as charges não nasceram com essas revistas. Elas já faziam parte do cotidiano nacional desde meados do século XIX, sendo publicadas regularmente em jornais daquele período. O uso da charge como recurso discursivo já era uma prática comum, por exemplo, nos jornais ingleses do século XVIII.

Nesse contexto destacam-se duas figuras que podem ser consideradas como as precursoras da charge em nosso país: Araújo Porto Alegre e Ângelo Agostini. O primeiro era um intelectual eclético (jornalista, pintor, poeta, diplomata, historiador) que chegou ao Rio de Janeiro em 1827, vindo do Rio Grande do Sul; o segundo era um desenhista italiano que veio para São Paulo no ano de 1859.

No XIX as charges se caracterizavam por ironizar os costumes da Corte, a figura de D. Pedro II – geralmente associado ao atraso e ao passado – e também pela defesa dos ideais republicanos – vistos como sinônimo de progresso e modernidade. Expressando antagonismos e doutrinas daquele século, as charges incorporavam ideais positivistas, evolucionistas e marxistas. Além disso, eram marcadas por um tom agressivo e pelo combate direto a favor de causas como o abolicionismo. Tudo isso de forma sintética e sempre carregada de humor, cinismo e ironia.

Ao longo do século XX diversos chargistas ganharam projeção ao publicar seus trabalhos em jornais e revistas de grande circulação. Entre eles, destacam-se os nomes de: J. Carlos (que retratou o cotidiano carioca do início do século), Belmonte (chargista que traduziu a identidade paulistana por meio de suas imagens) e Péricles, criador do clássico Amigo da Onça. Mais recentemente, um grupo do qual fazem parte Millôr Fernandes, Jaguar e Ziraldo, tornou-se referência para chargistas de todo país, publicando seus trabalhos em diversos jornais de grande projeção nacional. Porém, se destacaram realmente em O Pasquim, célebre publicação perseguida pelos militares por seu teor excessivamente provocativo e reflexivo, o que incomodava os generais que governavam o país naquele momento. Junte-se a esse grupo a inesquecível figura de Henfil, o criador de personagens como a Graúna, o Bode Orelana e o Capitão Zeferino.

Na década de 1970, O Pasquim também publicou trabalhos de um dos mais importantes chargistas da história do jornalismo ponta-grossense: Ireno José Guimarães. Por muitos anos, Ireno publicou suas charges no Jornal da Manhã. O bom humor e o olhar direcionado para temas locais se constituíram em marcas registradas de suas charges, características que praticamente desapareceram entre boa parte dos chargistas que atualmente militam em nossa cidade.

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O material original, com mais de 170 colunas, será republicado na íntegra e sem sofrer alterações. Por isso, buscando respeitar o teor histórico das publicações, o material apresentará elementos e discussões datadas por tratarem-se de produções com mais de uma década de lançamento. Além das republicações, mais de 20 colunas inéditas serão publicadas. Completando assim 200 publicações.

Publicada originalmente no dia 16 de dezembro de 2007.

Coluna assinada por Niltonci Batista Chaves. Historiador. Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

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