'Eike: Tudo ou Nada' têm história mediana e superficial

Filme com Nelson Freitas investiga ascensão e queda da OGX com distanciamento

É importante ressaltar de novo a posição cômoda do filme, por isentar de culpa o próprio mito empresarial que em tese é centro de suas atenções
É importante ressaltar de novo a posição cômoda do filme, por isentar de culpa o próprio mito empresarial que em tese é centro de suas atenções -

Da Redação

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A obsessão pelos “mitos caídos” do empreendedorismo é algo que pode ter se consumado agora como onda na TV americana, mas no Brasil essas figuras já são encaradas como parte integrante do quase subgênero das cinebiografias, por aí desde pelo menos o cinema de retomada dos anos 90. Basta pensar em 'Mauá - O Imperador e o Rei' (1999) e 'Chatô, O Rei do Brasil' (2015) para entender que, como políticos e artistas, o empresário “de sucesso” no país não apenas é aquele que se torna conhecido, mas cuja ascensão e queda é grande o suficiente para virar filme.

É natural que a figura de Eike Batista venha a se tornar o mais novo elo dessa corrente, então, com fabricação um pouco mais apressada dado a trajetória meteórica e efêmera do grupo EBX. Quase dez anos depois da falência do negócio e dois do acordo de delação premiada que lhe afastou de vez da vida pública, o ex-bilionário já parece convertido numa imagem de interesse no rico imaginário nacional. Olhar suas polêmicas e histórias deixa de ser um ato referente ao presente do noticiário e passa a ocupar o espaço do folclore e da História.

Esse esforço é central às atenções de 'Eike - Tudo ou Nada', que interpreta o empresário antes de tudo como uma espécie de grande aberração corporativa em um mundo fadado a encorajar esses tipos. Ancorados na biografia homônima da jornalista Malu Gaspar, os diretores e roteiristas Dida Andrade e Andradina Azevedo trabalham a história de Eike quase que exclusivamente no campo dos negócios, começando pelos anos da corrida pelo pré-sal nacional para chegar na derrocada da OGX como promessa maior do país. O volume de informações é a justificativa maior da abordagem, e a narrativa se orienta no desafio de explicar de forma didática temas difíceis como o mercado de ações ou as negociações do petróleo.

Subtrai-se a trajetória pessoal do homem também porque o empresário, aqui, é uma figura mais cômoda de exploração para a análise socioeconômica brasileira, que por sua vez mira traduzir esse momento de virada da bonança nacional convertida em desespero. Como incluir nessa lógica o casamento de Eike com Luma de Oliveira, seus filhos ou a rica família fora da altura do delírio? Sem resposta à questão, Andrade e Azevedo apelam ao onírico, comedidos em até como se insere esses momentos - Carol Castro surge como a ex-modelo em forma de uma alucinação pagã, por exemplo, mas devidamente intermediada por um equipamento de um charlatão que tenta se infiltrar nos negócios da EBX.

Assim, enquanto Nelson Freitas vive de forma sóbria o protagonista, a narrativa transforma o escritório do conglomerado num grande palacete de intrigas, se resguardando na ficção para mudar nomes (Sérgio Cabral se transforma em “governador Sobral” na pele de André Mattos) e trabalhar os fatos como tragédia maior. O Eike do filme é um homem crucificado por suas próprias ambições, cercado gradativamente por pessoas que legitimam seus discursos desproporcionais e flertando quase com o ufanismo nacional para reivindicar o sucesso de sua empreitada.

É justo nessa estruturação que o filme desanda, porque se presume no processo que a construção da figura de só envolve os méritos e fracassos da sua mentalidade de negócios. O bilionário não existe como pessoa, mas uma manifestação das circunstâncias, um encantador de serpentes que não tem lugar tanto nas elites (as conversas com um banqueiro no começo) quanto no populacho. Andrade e Azevedo até inserem uma subtrama focada no cotidiano de uma família de classe média para ilustrar as ramificações das ações do empresário, mas o resultado é a humanização do “economês” feita a fórceps, embalado como fábula cruel das promessas vazias de enriquecimento rápido que permeiam o noticiário.

'Tudo ou Nada' cai então nessa armadilha sutil, e o que era pra ser um exercício de aproximação se revela um de distanciamento. Retomar 'Mauá' e 'Chatô' é uma boa ideia nesse momento: no grande esquema evolutivo das representações cinematográficas do país, é curioso perceber como nos três filmes prioriza-se o sonho individual em detrimento do coletivo, até por ser a essência do mito empresarial - e no caso da cinebiografia de Eike isso está presente na apresentação final da OGX, de confinar todos os acionistas num mesmo espaço. É apenas no longa-metragem mais recente, porém, que assume-se o retratado como corpo estranho não só do sistema que combate para renovar, mas do público que se aspira nele. Mas se o intuito é despir o personagem em suas intenções, a quem pertence a culpa do fomento de seu misticismo? A produção de novo se abdica das respostas, dessa vez de forma inconsciente.

É importante ressaltar de novo a posição cômoda do filme nesse cenário, não apenas porque sacramenta a transformação de espectador em produto de sua época, mas sobretudo por isentar de culpa o próprio mito empresarial que em tese é centro de suas atenções. Em um momento que o setor privado passa pela reavaliação de seus ícones e planos sociais - lá fora por nomes como Elon Musk e Adam Neumann, aqui pelos resultados da mentalidade neoliberal nos últimos quatro anos - a avaliação de uma figura como Eike exige uma compreensão também dos mecanismos que o cercam, da detecção do que move o entusiasmo e a descrença por sua pessoa e que vá além da ilustração do momento econômico. 

Não havendo grandes conclusões nesse campo, a cinebiografia lava as mãos. Eike é um exemplo do que não fazer no mundo dos negócios, mas em especial uma aberração de circo que evita olhar os donos enquanto é exibido como atração.

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