No caminho de Kumano – o limite da dor (IV) (29/12)

(Durante minha visita a um caminho de peregrinação no Japão, descubro o Shugêndo, prática ancestral de usar a natureza para o aprendizado espiritual).

Estamos no alto de uma montanha, ao lado de uma coluna de pedra com algumas inscrições. Lá de cima, posso divisar um templo no meio da floresta.

-Esse é um dos três santuários que o peregrino precisa visitar, e quando chega aqui, sente uma imensa alegria ao saber que já está perto de um deles – diz Katsura.

Segundo a tradição, nenhuma mulher podia passar deste ponto, se estivesse em seu período menstrual. Certa vez, uma poetisa veio até aqui, viu o templo, mas por causa da menstruação, não podia seguir. Entendeu que não teria forças para esperar quatro dias sem comer, e resolveu voltar sem atingir seu objetivo. Escreveu uma poesia agradecendo os dias de caminhada, preparou-se para a volta na manhã seguinte, e deitou-se para dormir.

“A Deusa então apareceu nos seus sonhos. Disse que podia seguir adiante, porque seus versos eram lindos; como você vê, até os deuses mudam de opinião por causa de belas palavras. A coluna de pedra tem sua poesia escrita.”

Katsura e eu começamos a caminhar os cinco quilômetros que nos separam do templo. De repente me vem à memória as palavras do biólogo que conhecera: “se a Deusa quiser que você pratique Shugêndo- o caminho da arte da acumulação de experiência - ela lhe mostrará o que fazer.”.

- Vou tirar os sapatos – digo para Katsura.

O chão é pedregoso, o frio é cortante, mas Shugêndo é a comunhão com a natureza em todos os seus aspectos, inclusive o da dor física. Katsura também tira os sapatos. Começamos a andar.

Logo no primeiro passo, uma pedra pontiaguda entra no meu pé, e sinto que cortou fundo. Reprimo o grito, e continuo. Dez minutos depois estou andando na metade da velocidade do começo, o pé ferido dói cada vez mais, e eu penso por um momento que ainda tenho muito que viajar, posso ter uma infecção, meus editores me esperam em Tokyo, há entrevistas e encontros marcados. Mas a dor logo afasta estes pensamentos, e decido dar mais um passo, outro mais, e seguir adiante até onde for possível. Penso nos muitos peregrinos que passaram por ali praticando Shugêndo, sem comer por muitas semanas, sem dormir por muitos dias. Mas a dor não me deixa ter pensamentos profanos ou nobres – é apenas dor, que ocupa todo o espaço, me assusta, me obriga a pensar que tenho um limite e não vou conseguir.

Mesmo assim, posso dar mais um passo, e mais outro. A dor agora parece invadir a alma, e me enfraquece espiritualmente, porque não sou capaz de fazer o que muita gente fez antes de mim. É um sofrimento físico e espiritual ao mesmo tempo. Não parece um casamento com a Mãe Terra, mas uma punição. Estou desorientado, não troco uma palavra sequer com Katsura, tudo que existe no meu universo é a dor de pisar nas pedras pequenas e cortantes que marcam a trilha por entre as árvores.

Então acontece uma coisa muito estranha: o sofrimento é tão grande que, num mecanismo de defesa, eu pareço flutuar acima de mim mesmo, e ignorar o que estou sentindo. No limite da dor está uma porta para um nível diferente de consciência, e já não há espaço para mais nada, apenas para a natureza e eu.

Agora já não sinto mais a dor, estou em um estado letárgico, os pés continuam a seguir o caminho automaticamente, e eu entendo que o limite da dor não é o meu limite; posso ir além. Penso em todos que sofrem sem pedir, e me sinto ridículo em estar me flagelando desta maneira, mas aprendi a viver assim – experimentando a grande maioria das coisas que estão diante de mim.

Quando finalmente paramos, tomo coragem de olhar para os meus pés e ver as feridas abertas. A dor, que estava escondida, volta de novo com força. Acho que a viagem acabou ali, não poderei mais andar por muitos dias. Qual a minha surpresa ao descobrir, no dia seguinte, que tudo está cicatrizado; a Mãe Terra sabe como cuidar dos seus filhos.

E as cicatrizes vão mais além do corpo físico; muitas feridas que estavam abertas na minha alma foram expulsas pela dor que senti, enquanto andava pela estrada de Kumano em direção a um templo que não me recordo o nome. Existem certos sofrimentos que só conseguem ser esquecidos quando podemos flutuar acima de nossas dores.

(continua na próxima semana) 

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