Rapaz larga a faculdade para cuidar da avó com Alzheimer

O amor de neto fez com que Fernando Aguzzoli, de 22 anos, abandonasse a faculdade e o emprego para cuidar da avó, Nilva de Lourdes Aguzzoli, diagnosticada com o mal de Alzheimer em 2008. O rapaz fazia filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e largou o curso no início do ano passado. “Passei de neto a pai da minha avó”, diz. Vovó Nilva, como ficou conhecida nas redes sociais, morreu em dezembro do ano passado, aos 79 anos.
Ele também deixou o emprego e parou de sair com os amigos para dedicar todo seu tempo aos cuidados da Vovó Nilva, ao lado de sua mãe, Rose Marie, de 55 anos. Para relatar as experiências e lições aprendidas durante o tempo que ficou ao lado da avó foram parar no Facebook, na página ‘Vovó Nilva’, e fez tanto sucesso que vai virar livro. ‘Quem, Eu?’ deve ser lançado em setembro desse ano.
“Escrevi o livro ao lado dela. Transcrevia tudo o que ela me dizia. Foi fantástico. Mas não queria que fosse um livro só biográfico. Além dos diálogos, coloquei opiniões de profissionais. Mas não de uma forma muito técnica. É para um leigo entender mesmo como é essa doença”, explica ao G1.
A família percebeu que Dona Nilva não estava bem quando ela começou a enjoar todas as vezes que almoçava. “Depois a gente viu que ela estava tomando os comprimidos para pressão alta de forma errada. Às vezes tomava mais de uma vez, outras vezes esquecia”, relata Aguzzoli. Quando os médicos fizeram o diagnóstico, o rapaz decidiu. “Eu não tinha como curar a minha avó. Mas decidi dedicar todo o meu tempo a ela”, avalia.
“Alugamos um apartamento para ela na mesma rua que a nossa, depois no mesmo prédio. Até ela vir para dentro de casa”, lembra. Para contornar a situação e tratar o mal de Alzheimer de uma forma mais leve, ele criou a página Vovó Nilva, onde passou a reproduzir situações inusitadas, mas comuns, a familiares de portadores da doença. Hoje, já são mais de 11 mil seguidores.
“Meu intuito era criar um espaço diferente para falar do Alzheimer. Normalmente quando se fala da doença é de forma negativa e muito técnica, específica. Queria fazer um contraponto a esse conteúdo. E encontrei pessoas de várias partes do Brasil e do mundo que quiseram compartilhar também suas histórias”, comenta.
Vovó Nilva teve uma infecção urinária no final do ano passado, às vésperas de completar 80 anos, e não resistiu. “Eu não sou um herói, não sou um guri iluminado. Eu apenas tomei uma decisão e fiz o que tive que fazer. Todo jovem pode se relacionar com seus avós. Não é porque ela era velha ou porque tinha um obstáculo no caminho. Aprendi muito com ela”, conclui.
Veja alguns dos diálogos publicados na página Vovó Nilva:
No elevador...
Eu: Que tá fazendo vó?
Vó: To abanando...
Eu: Eu sei, mas pra quem?
Vó: Pra senhora ali!
Eu: Mas estamos sozinhos aqui!
Vó: Claro que não, ali do outro lado tem uma senhora me abanando de volta olha.
Eu: Ah sim, agora vi, aquela senhora abanando ao lado de um bonito rapaz?
Vó: Não, aquela ali de preto!
Eu: É A ÚNICA!! Mas não é um bonito rapaz ao lado?
Vó: É, nem tinha visto! Abana pra ela!
Eu: É O TEU REFLEXO NO ESPELHO VÓ!
Vó: Quem eu? Olha ali, ela é bem mais velha!
Eu: Claro, deve ter uns 80 anos né?
Vó: Sim, tadinha!
Eu: Tadinha mesmo, tadinha! Sorri e abana vó, abana! Tchau moça!!
Um dia a vó acordou e saiu do quarto procurando alguma coisa, extremamente intrigada com o sumiço. Eu tava sentado na sala e fiquei quietinho, só olhando. Daqui a pouco...:
Eu: O que tu tá procurando vozinha?
Vó: O cachorrinho sumiu!
Eu: Nós não temos um cachorrinho, talvez seja por isso.
Vó: Não, aquele que eu trouxe!
Eu: De onde? Narnia? A senhora ACABOU de acordar.
Vó: Mas eu trouxe aquele cachorrinho lembra?
Eu: Não não lembro, mas se te faz feliz vamos procurar.
... 3 minutos procurando ...
Eu: Vó, creio que na gaveta ele não esteja, não precisa abrir todas...
Vó: Sei la onde meteram esse gato.
Eu: OI? DESCULPE, A SENHORA FALOU GATO?
Vó: É, o gatinho que eu trouxe.
Eu: ERA CACHORRO HÁ ALGUNS MINUTOS! Ele morfou? evoluiu?
Vó: Ele o que? Não, é meu gatinho.
Eu: Ai, esquece o gato, vou fazer teu café.
...10 minutos....
Vó: Sabe aquele cachorrinho que meu pai me deu?
Eu: Não era gato?
Vó: Ah pqp, já nem sei mais.
Em uma manhã qualquer - nunca era uma manhã qualquer - na casa dos Aguzzoli, um mistério!
Vó: ROSE, TU NEM SABE!
Rose: O que minha mãezinha?
Vó: Aconteceu uma coisa terrível essa noite!
Rose: Ai meu Deus, o que houve?
Vó: Arrancaram todos os meus dentes enquanto eu dormia! Olha aqui, ficaram só três dentinhos!
Rose: Ai mãezinha, amor da minha vida, a dentadura tá aqui ó...
Vó: Dentadura?
Rose: Sim, tiramos para fazer a higienização ontem e tu quis dormir sem.
Vó: Ah bom, menos mal né?
Rose: Que susto mãe! Mas não precisa te preocupar, ninguém vai te fazer mal!
Vó: E como eu vou comer churrasco?
Rose: Botando a dentadura!
Vó: Ah é, claro! E cade a dentadura?
Rose: A senhora acabou de colocar vó!
Vó: Ah é mesmo, obrigado!
Com informações do G1.





















