Paraná amplia trabalho prisional e triplica número de detentos empregados
Estado aposta em parcerias, qualificação e projetos de ressocialização para reinserção social e redução da ociosidade no sistema prisional
Publicado: 18/01/2026, 08:39

No Paraná, hoje são 15.015 pessoas privadas de liberdade que exercem trabalhos em canteiros próprios do sistema prisional, cooperativas ou projetos de artesanato, frente a 4.623 há 10 anos. A Secretaria da Segurança Pública do Paraná (SESP) ampliou as políticas e oportunidades de ressocialização. Do total, cerca de 5 mil pessoas estão trabalhando em empresas privadas e órgãos públicos.
O Paraná vive um momento de expansão das atividades laborais, educativas e de capacitação profissional no sistema prisional. Oficinas, aulas, canteiros de trabalho e projetos de produção passaram a ocupar um espaço central na rotina das unidades, criando novas oportunidades de reintegração. A estratégia abrange desde a realização de atividades produtivas internas até a formação de parcerias.
“Nossa responsabilidade enquanto gestão é incentivar ações que devolvam dignidade, qualificação e oportunidades às pessoas privadas de liberdade. A execução penal não se limita ao cumprimento da pena. Ela precisa oferecer caminhos reais de mudança”, destaca a diretora-geral da Polícia Penal do Paraná (PPPR), Ananda Chalegre.

De acordo com ela, os canteiros de trabalho têm se consolidado como um dos principais instrumentos de ocupação produtiva, reunindo desde serviços internos, como lavanderia, manutenção e jardinagem, até linhas de produção mais complexas, que incluem fabricação de blocos de concreto, confecção de uniformes, marcenaria, costura e oficinas industriais.
PROJETOS AVANÇAM POR TODO O ESTADO
Em setembro de 2025, a PPPR inaugurou um barracão de 4 mil m² na Penitenciária Estadual de Francisco Beltrão - abrindo de imediato mais de 450 vagas de trabalho para pessoas privadas de liberdade. O avanço dos programas foi impulsionado por parcerias firmadas com o setor produtivo, além de instituições de ensino. Empresas privadas e cooperativas ampliaram a oferta de vagas e modernizaram espaços.
Além das frentes produtivas, o sistema prisional também intensificou ações educativas e atividades voltadas à cidadania. Iniciativas como cursos profissionalizantes, programas de leitura, oficinas de competências comportamentais e projetos culturais reforçam a perspectiva de ressocialização. Em 2025, essas ações consolidaram uma política que alia trabalho, educação e desenvolvimento humano.
“Ao longo de 2025, vimos uma série de iniciativas se consolidarem - desde novos canteiros de trabalho até ampliações em cursos e projetos de capacitação - demonstrando que é possível conciliar segurança, oportunidade e desenvolvimento. Quando investimos em trabalho e formação, os resultados retornam para toda a sociedade”, destaca a diretora da PPPR, Ananda Chalegre.
Para aumentar a capacidade de custodiados trabalhando, a Polícia Penal tem criado barracões para que essas pessoas exerçam as atividades, além de ampliar a parceria com empresários locais e implementação de Unidades de Progressão. “A responsabilidade que temos com as pessoas que fazem parte do sistema prisional é garantir a reinserção social”, afirma Hudson Leôncio Teixeira, secretário de Segurança Pública.

DETENTOS RECONSTROEM RIO BONITO DO IGUAÇU
Em novembro de 2025, o município paranaense foi atingido por um forte tornado, com ventos de quase 300 km/h. A cidade foi destruída e pessoas morreram na tragédia. Entretanto, para auxiliar na reconstrução da cidade, pessoas privadas de liberdade contribuíram para o recomeço de Rio Bonito do Iguaçu. Na época, mais de 80 custodiados, incluindo de Ponta Grossa, participaram dos trabalhos.
As ações incluíram recuperar escolas, espaços sociais e prédios administrativos essenciais. Na ‘Creche Pedacinho do Céu’, foi concluída a limpeza completa interna e externa, com retirada total dos escombros deixados pelo desastre. No CMEI Dona Laura, além da limpeza geral, os custodiados finalizaram a cobertura do prédio, garantindo proteção contra as chuvas.
Os trabalhos também foram realizados no Colégio Estadual Ludovica Safraider, a unidade mais danificada. O esforço abrangeu ainda a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE’s) do município, que recebeu ações de limpeza, organização e suporte para restabelecimento das atividades e o destacamento da Polícia Militar do Paraná (PM/PR).
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PROJETO ‘MÃOS AMIGAS’ CONTRIBUEM COM ESCOLAS
O programa ‘Mãos Amigas’, executado pelo Instituto Paranaense de Desenvolvimento Educacional (Fundepar), emprega, em média, 164 pessoas privadas de liberdade (PPL) por mês para o trabalho de manutenção e reparos da infraestrutura escolar na rede estadual de ensino. Até setembro de 2025, cerca de 1,5 mil oportunidades foram criadas, com quase 400 unidades escolares atendidas.
Seguindo a lógica do 'ganha-ganha', o ‘Mãos Amigas garante eficiência na manutenção das escolas estaduais e beneficia as pessoas privadas de liberdade, pois a cada três dias trabalhados elas têm um dia de redução de pena. “É o único programa no Brasil de nível estadual, que utiliza mão-de-obra de pessoas privadas de liberdade para a manutenção escolar”, explica Roni Miranda, secretário de Educação do Paraná.

Com prestações de serviço espalhadas por todo o Estado, em algumas regiões o programa tem conquistado destaque. No Núcleo Regional de Educação (NRE) de Guarapuava, experiências de sucesso com o Programa Mãos Amigas têm comprovado a eficácia da ação, tanto nos serviços prestados às escolas, quanto na reinserção das pessoas privadas de liberdade.
Um exemplo é o Colégio Estadual Cívico-Militar (CCM) Mahatma Gandhi onde, desde 2023, o programa se faz presente. Ao longo dos últimos anos, a prestação dos serviços realizados por meio do programa foram essenciais para garantir a manutenção da instituição de ensino. Numa das ocasiões, um forte vendaval destelhou boa parte da escola, em plena semana das crianças.
“Todos os nossos pavilhões foram atingidos. Isso foi em 12 de outubro de 2023. Era feriado, a escola ficou acabada. Lembro de chegar às 4h. Chovia dentro das salas, estávamos sem telhado. Foram colocadas duas equipes à nossa disposição. Eles vieram de prontidão, às 7h do dia 13. Fizeram toda a limpeza, retiraram os entulhos e o que tinha sobrado em cima do telhado, colocando a escola em ordem”, lembra a diretora.
Gesnei Paulo de Araújo, de 38 anos, é empreendedor e ex-integrante do programa. Com experiência em serviços de pintura e manutenção, ele passou a ser reconhecido pela excelência dos seus serviços em 23 colégios de Guarapuava e região. Também ensinou outras pessoas privadas de liberdade a aprimorarem suas habilidades. “Ensinei a ter paciência e concluir um trabalho bem feito”, acredita.
Hoje, 14 Núcleos Regionais da Educação possuem o termo de cooperação realizado com o ‘Mãos Amigas’, o que facilita para as escolas abrangidas por estes NREs terem acesso ao programa.
PESSOAS PRIVADAS DE LIBERDADE TÊM REMUNERAÇÃO
Todas as empresas que contratam a mão de obra prisional pagam ao preso 3/4 do salário mínimo. Desse valor, eles podem autorizar que um familiar saque até 80% do dinheiro. O restante fica em uma conta-poupança prisional do detento, que só poderá ser utilizada quando ele cumprir sua pena.
A Secretaria da Segurança Pública do Paraná também foi contemplada com o ‘Selo Nacional de Responsabilidade Social pelo Trabalho no Sistema Prisional (Resgata)’, um reconhecimento à oferta de atividades profissionais aos detentos. Também foram certificadas 21 empresas do Paraná por empregarem mão de obra de presos e egressos.
O selo concedido pelo Departamento Penitenciário Nacional tem o objetivo de divulgar empreendimentos e organizações que apoiam a causa, para promover e incentivar novas adesões.























