Montemor compara infraestrutura urbana de PG com organismo para debater exclusão social
Conselheiro de Saúde do Grupo aRede, Mário Rodrigues Montemor Netto, avalia que Ponta Grossa, se comparado com sistema do corpo humano, estaria com "a saúde seriamente comprometida"

O conselheiro da área da Saúde do Grupo aRede, Mário Rodrigues Montemor Netto, compara a infraestrutura de uma cidade com o sistema vascular e nervoso do ser humano. Na análise, o médico diz que na fisiologia humana, a plenitude de um organismo só é atingida quando cada célula, tecido e membro está perfeitamente integrado ao sistema. Com isso, seu diagnóstico é reservado: a saúde deste corpo social está seriamente comprometida, e o "paciente" — neste caso, Ponta Grossa, apresenta uma patologia estrutural severa: a exclusão sistemática de quase 70 mil cidadãos com deficiência (PCDs).
Montemor destaca que as calçadas degradadas e a escassez de rampas tecnicamente adequadas atuam como trombos nas artérias da cidade, obstruindo o fluxo vital de movimento. "Quando o deslocamento físico é interrompido, o organismo urbano sofre um infarto de acessibilidade que impede a circulação de talentos e o acesso a serviços básicos", afirma.
Confira abaixo a opinião na íntegra de Mário, que é médico, Diretor de Saúde da Acipg, presidente da AMPG, professor do curso de Medicina da UEPG e conselheiro de Saúde do Portal aRede:
"Prólogo Clínico: O Organismo Social e a Busca pela Homeostase
Na fisiologia humana, a plenitude de um organismo — o que denominamos homeostase — só é atingida quando cada célula, tecido e membro está perfeitamente integrado ao sistema, recebendo oxigênio, nutrientes e estímulos nervosos de forma ininterrupta. Transpondo essa lógica biológica para o urbanismo, sob o rigor da evidência epidemiológica, devemos encarar Ponta Grossa como um organismo vivo. Contudo, como professor de medicina e líder setorial, meu diagnóstico é reservado: a saúde deste corpo social está seriamente comprometida. O "paciente" apresenta uma patologia estrutural severa: a exclusão sistemática de quase 70 mil cidadãos com deficiência (PCDs), o que representa aproximadamente 20% do nosso tecido demográfico.
A exclusão não é apenas uma falha estatística; ela atua como um fator patogênico que gera isquemia social e atrofia funcional. Quando um quinto de nossas "células" é privado de participar plenamente da vida urbana, a viabilidade futura da cidade enquanto organismo saudável e produtivo entra em colapso. Este dado demográfico não é apenas um número, mas um imperativo ético e técnico que exige do poder público e da sociedade civil protocolos de gestão baseados na justiça social e na eficiência sistêmica.
A Esclerose Estrutural: Artérias Bloqueadas e Falhas Sinápticas
A infraestrutura de uma cidade funciona como o seu sistema vascular e nervoso. Em Ponta Grossa, entretanto, detectamos uma avançada "esclerose" urbana. As calçadas degradadas e a escassez de rampas tecnicamente adequadas atuam como trombos nas artérias da cidade, obstruindo o fluxo vital de movimento. Quando o deslocamento físico é interrompido, o organismo urbano sofre um infarto de acessibilidade que impede a circulação de talentos e o acesso a serviços básicos.
Simultaneamente, enfrentamos o que chamo de "falhas sinápticas". A comunicação eficiente em um organismo depende de sinapses precisas; no ambiente urbano, isso se traduz na disponibilidade de intérpretes de Libras, acessibilidade digital e transporte público adaptado. A ausência desses elementos interrompe a transmissão de informações e o acesso a direitos fundamentais. Esses bloqueios não são meras falhas de engenharia, mas interrupções vitais que impedem que o "estímulo" da cidadania chegue a todos os membros, resultando em uma degeneração da vida coletiva.
Isquemia de Mobilidade e a Atrofia da Cidadania
Na ortopedia e na neurologia, o axioma é claro: a privação de estímulo e movimento conduz inevitavelmente à atrofia muscular e à fragilidade óssea. Aplicando este conceito à gestão pública, observamos o fenômeno da Isquemia de Mobilidade. Quando um cidadão cadeirante, cego ou com deficiência intelectual é confinado ao isolamento domiciliar pela hostilidade do meio externo, ocorre uma "amputação" do potencial humano.
Sob a ótica da medicina acadêmica, a deficiência não reside no indivíduo, mas no ambiente que falha em acolhê-lo. Uma cidade que não se conecta com 20% de sua população sofre de uma "neuropatia" administrativa, perdendo a sensibilidade para com seus membros mais vulneráveis. Uma cidadania que não circula, atrofia; um organismo que não sente seus membros, entra em processo de falência política.
Protocolo de Tratamento: A Neuroplasticidade Urbana e o Desenho Universal
Para reverter esse quadro, o protocolo clínico exige substituir o paliativo da caridade pela cura definitiva via adaptação estrutural. Na medicina, a neuroplasticidade é a capacidade do sistema nervoso de criar novas rotas e se recuperar após lesões. Ponta Grossa necessita de uma neuroplasticidade urbana estratégica, fundamentada em dois pilares:
- Desenho Universal (A Nova Matriz Óssea): A acessibilidade deve ser integrada ao DNA do planejamento urbano. Exigimos que cada nova obra, parque ou prédio seja concebido a partir de uma matriz óssea inclusiva, e não através de "puxadinhos" ou rampas improvisadas que apenas mascaram a lesão estrutural.
- Reabilitação de Alta Performance (O Sistema Imunológico): É fundamental fortalecer as "artérias" de cuidado já existentes em nossa cidade. Precisamos de uma hipertrofia na atenção especializada do SUS, garantindo suporte robusto a instituições como a APACD (reabilitação física), o CEDRA (reabilitação auditiva) e o suporte acadêmico-clínico da UEPG. O tratamento requer equipes multidisciplinares completas — fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e psicólogos —, além de agilidade na entrega de órteses, próteses e meios auxiliares de locomoção (OPMs). A intervenção precoce é o que impede que limitações se tornem cicatrizes permanentes no tecido social.
Metabolismo Econômico: A Absorção de Nutrientes Vitais
Ponta Grossa possui um metabolismo econômico vigoroso, com um PIB de R$ 20 bilhões. No entanto, este organismo é ineficiente na absorção de seus nutrientes mais vitais: o capital humano. A inserção de PCDs no mercado de trabalho não pode ser vista como um cumprimento punitivo de cotas, mas como a integração de intelectos criativos e força produtiva essencial.
Manter 70 mil pessoas à margem do sistema produtivo é uma ineficiência sistêmica massiva. Excluir esse contingente do pulso econômico da cidade é condenar o município a uma "anemia" de inovação e vitalidade industrial. Um metabolismo saudável exige a absorção total de seus componentes; o desperdício de capital humano é um luxo que uma cidade com ambições globais não pode se dar.
Prognóstico 2043: Rumo à Saúde Coletiva Plena
Ao projetarmos o cenário para 2043, o conceito de "Cidade Inteligente" torna-se indissociável da capacidade de inclusão plena. O prognóstico para Ponta Grossa depende da substituição imediata da esclerose urbana por pontes de acessibilidade, sob a vigilância rigorosa do Conselho de Saúde, do Ministério Público e da sociedade civil organizada.
A saúde plena deste organismo social só será declarada quando o direito de ir, vir e viver for uma constante fisiológica para cada uma das 70 mil células hoje negligenciadas. Como médico e professor, reitero o imperativo ético: a inclusão não é um gesto de benevolência, mas a condição fundamental para a vida. Uma cidade não pode amputar o potencial de 70 mil cidadãos."
Conselho da Comunidade
Composto por lideranças representativas da sociedade, não ocupantes de cargo eletivo, totalizando 14 membros, a iniciativa tem o objetivo de debater, discutir e opinar sobre pautas e temas de relevância local e regional, que impactam na vida dos cidadãos, levantados semanalmente pelo Portal aRede e pelo Jornal da Manhã, com a divulgação em formato de vídeo e/ou artigo.
Conheça mais detalhes dos membros do 'Conselho da Comunidade' acessando outras notícias sobre o projeto.





















