Acessibilidade começa na rua: os desafios de viver com deficiência em PG | aRede
PUBLICIDADE

Acessibilidade começa na rua: os desafios de viver com deficiência em PG

Calçadas, transporte, trabalho, esporte e cultura ainda impõem barreiras, enquanto município amplia políticas para garantir inclusão e autonomia

O município mantém atividades de paradesporto
O município mantém atividades de paradesporto -

Milena Batista

@Siga-me
Google Notícias facebook twitter twitter telegram whatsapp email

Para quem vive diariamente com uma deficiência, as dificuldades nem sempre estão nos serviços especializados. Muitas delas aparecem no caminho entre a casa, a escola, a universidade, o trabalho e outros espaços da cidade.

É o caso de Valcemir de Oliveira, de 54 anos. Natural de Tibagi, ele divide os dias entre a cidade natal e Ponta Grossa, onde cursa licenciatura em música na UEPG há quase três anos. Há cerca de uma década, Valcemir perdeu a visão após uma cirurgia de descolamento de retina e precisou reaprender diversas tarefas do cotidiano.

Quando precisa se deslocar sozinho, principalmente no trajeto até a universidade, os obstáculos aparecem. Calçadas irregulares, falta de acessibilidade nos meios-fios e, principalmente, dificuldades para atravessar as ruas fazem parte da rotina.

“Eu prefiro descer onde tem uma lombada elevada e aí atravesso para ir para o outro lado. O caminho fica mais longo, mas é o mais seguro a se fazer”, conta.

Valcemir já levou algumas das dificuldades enfrentadas diariamente à Câmara Municipal, buscando alternativas para tornar os trajetos mais seguros. Entre as sugestões está a implantação de uma lombada elevada em frente ao Colégio Agrícola, em um trecho utilizado para acessar a universidade.

Segundo ele, a estrutura poderia facilitar a travessia de pedestres, especialmente de pessoas com deficiência. “O ideal seria fazer uma lombada elevada, que ficaria mais segura para nós passarmos”, relata. Ele afirma, porém, que recebeu a informação de que o local possui limitações técnicas devido à inclinação da via.

O paisagismo urbano também é apontado como um problema. Valcemir relata que palmeiras plantadas em parte das calçadas deixam frutos e folhas pelo caminho, criando obstáculos para pessoas com deficiência visual.

“Boa parte da calçada onde eu passo para ir para a aula são plantadas palmeiras, que caem coquinhos quando amadurecem, e isso, para a gente que tem deficiência visual, é um perigo. Além das folhas secas no caminho que ficam

penduradas e a gente acaba batendo o rosto”, afirma. Para ele, o planejamento urbano precisa considerar também o paisagismo.

Se o atendimento especializado é fundamental, a inclusão não se completa sem uma cidade fisicamente acessível. Calçadas irregulares, obstáculos, ausência de rampas, falta de piso tátil e veículos estacionados em locais inadequados podem transformar deslocamentos simples em situações de risco para pessoas que utilizam cadeira de rodas, bengala, andador ou que possuem deficiência visual.

A Prefeitura afirma ter avançado nessa área. Desde 2021, o programa de pavimentação municipal passou a incluir também a construção e revitalização de calçadas. Até julho de 2026, mais de 115 quilômetros de novas calçadas acessíveis haviam sido entregues nos locais contemplados pelas obras.

Os passeios incluem rampas e placas com relevo podotátil destinadas à orientação de pessoas com deficiência visual.

Outro instrumento é o Manual de Calçadas, elaborado pelo IPLAN para orientar proprietários, construtoras e comerciantes sobre a construção e a reforma dos passeios. A iniciativa busca enfrentar um problema histórico da cidade, marcado por desníveis, diferentes padrões construtivos e obstáculos à circulação.

Em 2026, a Prefeitura também reforçou a fiscalização. O Decreto nº 26.369, de 10 de março, regulamentou a construção e a manutenção das calçadas e estabeleceu que a faixa livre de circulação deve permanecer sem obstáculos. Em agosto, o IPLAN alertou proprietários e comerciantes sobre a necessidade de retirar barreiras que prejudiquem a passagem dos pedestres.

O transporte coletivo também passou a integrar esse processo. Em maio, o Terminal Central iniciou obras de modernização e acessibilidade, com investimento de R$ 600 mil. O projeto prevê piso podotátil de alerta e direcional, além de melhorias em rampas, guaritas, catracas e acessos.

São intervenções importantes, mas o tamanho do desafio exige continuidade. Uma cidade acessível não é aquela que possui apenas alguns equipamentos adaptados. É aquela em que uma pessoa com deficiência consegue sair de casa, caminhar, utilizar o transporte público, chegar ao trabalho, estudar, acessar serviços de saúde e participar de atividades culturais sem enfrentar uma sequência de barreiras.

O paisagismo urbano também é apontado como um problema
O paisagismo urbano também é apontado como um problema |  Foto: Guilherme Gruber/aRede

Trabalho é o próximo grande passo

A inclusão econômica é outro ponto central. Ter acesso à educação e aos serviços de saúde é indispensável, mas a autonomia também passa pelo direito ao trabalho e à renda.

A Agência do Trabalhador de Ponta Grossa desenvolve ações específicas para aproximar empresas e profissionais com deficiência. O órgão atua tanto na intermediação das contratações quanto no auxílio às empresas para o cumprimento das cotas previstas na legislação.

Em julho de 2025, por exemplo, foram anunciadas 27 vagas de contratação imediata destinadas exclusivamente a pessoas com deficiência. Havia oportunidades para servente de limpeza e auxiliar de produção, algumas sem exigência de experiência ou de ensino fundamental completo.

Em outras ações, a oferta foi ainda maior. Em 2023, o Dia D da Pessoa com Deficiência reuniu 24 empresas e disponibilizou 87 vagas. No ano anterior, uma ação encaminhou 170 pessoas com deficiência para oportunidades oferecidas por 54 empresas.

Os números mostram uma mudança importante: a pessoa com deficiência deixa de ser vista exclusivamente pela perspectiva assistencial e passa a ser reconhecida também como trabalhadora, consumidora e profissional capaz de produzir e participar ativamente da economia.

Nesse cenário, a responsabilidade do setor privado vai além do cumprimento das cotas. Empresas também podem adaptar ambientes, oferecer formação, tornar processos seletivos mais acessíveis e criar programas de aprendizagem e crescimento profissional.

A inclusão efetiva acontece quando a contratação deixa de representar apenas o preenchimento de uma vaga e passa a significar também uma oportunidade de desenvolvimento e carreira.

A própria Agência do Trabalhador já relatou casos de pequenas empresas que, mesmo sem obrigação legal de cumprir a cota, contrataram pessoas com deficiência. Para o setor, iniciativas como essa demonstram que responsabilidade social e inclusão podem caminhar junto às necessidades do mercado.

Ter acesso à educação e aos serviços de saúde é indispensável, mas a autonomia também passa pelo direito ao trabalho
Ter acesso à educação e aos serviços de saúde é indispensável, mas a autonomia também passa pelo direito ao trabalho |  Foto: Divulgação

Esporte, cultura e autonomia

A inclusão também precisa alcançar áreas que muitas vezes ficam em segundo plano. Esporte, lazer e cultura são direitos e instrumentos de socialização.

O município mantém atividades de paradesporto e outras iniciativas destinadas às pessoas com deficiência. Dados de um programa municipal de incentivo ao esporte registraram, em 2023, 41 turmas de paradesporto e 621 alunos inscritos.

A proposta é utilizar o esporte não apenas como atividade física, mas também como ferramenta de inclusão, desenvolvimento e qualidade de vida.

Na cultura, ações como a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência procuram ampliar a presença desse público em espaços públicos e eventos. A programação de 2026 inclui cinema, debates, feira de serviços, oficinas artísticas, contação de histórias e atividades esportivas.

Esse conjunto de iniciativas contribui para superar uma visão antiga, na qual a pessoa com deficiência era vista apenas como alguém que precisava ser cuidado.

A política de inclusão parte de outro princípio: criar condições para que cada pessoa desenvolva suas capacidades, faça escolhas e participe ativamente da sociedade.

O município mantém atividades de paradesporto
O município mantém atividades de paradesporto |  Foto: Prefeitura Municipal de Ponta Grossa

Uma cidade diante de um novo padrão de inclusão

Com quase 70 mil pessoas com deficiência, Ponta Grossa não pode tratar a inclusão como uma pauta restrita a uma semana do calendário. A estimativa divulgada pelo CMDPD coloca o tema entre os grandes desafios do planejamento urbano e social do município.

A cidade já possui uma rede relevante, formada por equipamentos públicos, entidades especializadas, serviços de saúde e educação, programas de assistência, ações de emprego, paradesporto, iniciativas de acessibilidade urbana e uma participação crescente do setor empresarial.

O desafio agora é integrar essa estrutura.

A família que procura atendimento para uma criança com deficiência precisa encontrar uma rede capaz de orientar sobre saúde, educação, assistência, benefícios, terapias e direitos. O jovem que conclui a escola precisa ter acesso a oportunidades de qualificação e trabalho. O adulto que busca emprego precisa encontrar empresas preparadas para recebê-lo. A pessoa idosa que adquire uma deficiência precisa contar com transporte, calçadas e serviços adaptados.

E todos precisam ter condições de circular pela cidade sem transformar cada deslocamento em uma barreira.

A inclusão, portanto, não pode ser medida apenas pelo número de atendimentos realizados ou pela quantidade de vagas abertas. Ela também precisa ser avaliada pela autonomia conquistada.

Para Ponta Grossa, a estimativa de quase 70 mil pessoas com deficiência representa uma responsabilidade, mas também uma oportunidade de construir um modelo de cidade mais humano. Rampas, pisos táteis, transporte acessível, escolas inclusivas e empregos são estruturas indispensáveis. A transformação mais profunda, porém, acontece quando a deficiência deixa de determinar o lugar que uma pessoa ocupa na sociedade.

O caminho já começou, com políticas públicas e uma rede de entidades que acumulam décadas de experiência. O próximo passo é fazer com que essa estrutura seja cada vez mais integrada, abrangente e presente no cotidiano.

Afinal, uma cidade verdadeiramente acessível não é aquela que cria espaços especiais para algumas pessoas, mas aquela que é planejada para que todos possam viver, trabalhar, estudar, circular e participar.

PUBLICIDADE

Conteúdo de marca

Quero divulgar right