Quase 70 mil pessoas com deficiência desafiam PG a avançar na inclusão
Entre políticas públicas, entidades especializadas e iniciativas empresariais, cidade amplia serviços, mas ainda enfrenta obstáculos para transformar acessibilidade em realidade cotidiana

Ponta Grossa tem pela frente um desafio que ultrapassa os limites da assistência social e envolve praticamente todas as áreas da administração pública e da vida urbana: garantir direitos, autonomia e oportunidades para uma população estimada em quase 70 mil pessoas com deficiência (PCD). O número, divulgado pelo Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência (CMDPD), com base em projeções relacionadas a levantamentos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dimensiona a importância de considerar essa parcela da população no planejamento da cidade.
Mais do que uma estatística, o contingente representa milhares de crianças, jovens, adultos e idosos com diferentes necessidades. Saúde, educação, assistência social, transporte, mobilidade, esporte, cultura, emprego, renda e atendimento especializado precisam funcionar de maneira articulada para que a inclusão deixe de ser apenas um conceito presente em campanhas institucionais e passe a fazer parte da rotina da população.
A discussão ganhou destaque neste mês, durante a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência, promovida pelo CMDPD em parceria com a Prefeitura. A programação começou na sexta-feira (21) e seguiu até o dia 28, reunindo ações de conscientização, orientação sobre direitos, atividades culturais, serviços públicos e oportunidades de emprego.
Entre os destaques estava a Feira da Inclusão, no Ginásio Jamal Bazzi. O evento reuniu serviços relacionados a emprego, INSS, CRAS, cadastro em programas municipais, vacinação e cuidados pessoais.
A programação também buscou mudar a forma tradicional de abordar a deficiência, colocando as próprias pessoas com deficiência como protagonistas. Elas participaram da apresentação das atividades e de uma ação de conscientização no Calçadão. A proposta era aproximar o tema da população e reforçar que inclusão envolve não apenas direitos, mas também participação social, estudo, trabalho, esporte e autonomia.

Uma rede que vai além da Prefeitura
A estrutura de atendimento disponível em Ponta Grossa é formada pela combinação de serviços públicos e organizações da sociedade civil. A Prefeitura atua em áreas como assistência social, saúde, educação e esporte, enquanto entidades especializadas complementam a rede com serviços que dependem de equipes e estruturas específicas.
Na assistência social, os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) funcionam como portas de entrada para famílias que precisam de orientação e acesso a benefícios e programas. Já os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS) atendem situações de maior complexidade.
O município também mantém equipamentos e projetos específicos para pessoas com deficiência. O Ginásio da Pessoa com Deficiência oferece atividades como fisioterapia, musicoterapia, esporte, oficinas de circo e dança. A iniciativa demonstra que o atendimento não precisa ficar limitado à reabilitação ou à assistência, já que atividades culturais, esportivas e de convivência também contribuem para a autonomia e a integração social.

Equoterapia alia tratamento e inclusão
Outro exemplo de iniciativa voltada ao atendimento de crianças e adolescentes com deficiência é o Projeto de Equoterapia do 1º Batalhão de Polícia Militar (1º BPM). O programa oferece atendimento terapêutico gratuito e também atua como uma ferramenta de aproximação entre a corporação e a comunidade.
Criado em junho de 2018, o projeto surgiu a partir do trabalho voluntário de policiais do Pelotão de Polícia Montada. Após receberem especialização no Regimento de Polícia Montada, em Curitiba, os militares passaram a utilizar parte dos horários de folga para atender inicialmente dependentes de policiais que necessitavam da terapia.
Com os resultados obtidos, a iniciativa foi ampliada e passou a atender também famílias da comunidade que não possuem condições financeiras para custear o tratamento. Atualmente, 53 pacientes são acompanhados regularmente pelo projeto.
As sessões acontecem uma vez por semana e têm duração de 30 minutos. Cada paciente permanece no programa durante um ano. Para participar, é necessário estar inscrito no Cadastro Único (CadÚnico), apresentar laudo e autorização de um médico especialista para a prática da equoterapia e passar pelo processo de triagem.
Antes do início das sessões, os pacientes também passam por uma avaliação multidisciplinar. O procedimento é realizado por policiais militares com formação nas áreas de Fisioterapia e Psicologia, que analisam as necessidades de cada criança ou adolescente para definir o acompanhamento adequado.
A equipe é formada por cinco profissionais especializados, que atuam como guias dos cavalos e equoterapeutas. Entre as áreas de formação estão Fisioterapia, Psicologia, Psicomotricidade e Educação Física.
Na equoterapia, o cavalo é utilizado como recurso terapêutico e educacional. Durante a atividade, o movimento tridimensional do animal proporciona estímulos que podem contribuir para o desenvolvimento físico, motor, cognitivo, emocional e social dos pacientes.
Além dos ganhos relacionados à parte motora, a equipe observa mudanças no comportamento e na interação das crianças. Entre os resultados percebidos estão melhora do controle emocional, da autoestima, do engajamento escolar e da convivência social.
O contato com os animais e a realização das atividades ao ar livre também tornam o tratamento diferente da rotina tradicional de consultórios, proporcionando uma experiência mais lúdica aos pacientes.
Para as famílias, o projeto representa ainda uma oportunidade de acesso gratuito a um tratamento que poderia ter um custo elevado. A convivência semanal com os policiais também contribui para aproximar a comunidade da corporação.
Ao longo do ano, as famílias participam de atividades e eventos promovidos pelo 1º Batalhão, como ações de Páscoa, Festa Junina, Dia das Crianças e Natal.
Dessa forma, a iniciativa amplia a atuação da Polícia Militar para além da segurança pública e utiliza a equoterapia como instrumento de inclusão, cuidado e aproximação com a população.

Educação especializada
Na educação, Ponta Grossa conta com o CIAC Superação, voltado a estudantes da rede municipal com deficiência, transtorno do espectro autista, distúrbios de aprendizagem, atraso do desenvolvimento neuropsicomotor, altas habilidades e outras condições. O projeto reúne ações pedagógicas, psicológicas, sociais, esportivas e de estimulação cognitiva e motora.
A rede municipal também dispõe de Salas de Recursos Multifuncionais. Segundo levantamento apresentado pela Prefeitura, eram 74 unidades destinadas ao atendimento educacional especializado. O modelo busca complementar o ensino regular, oferecendo recursos e estratégias para ampliar a autonomia dos estudantes durante o processo de aprendizagem.
Entidades especializadas
As organizações não governamentais e entidades filantrópicas também desempenham papel fundamental nessa estrutura. A Prefeitura mantém termos de colaboração e repasses para instituições que prestam atendimento à população com deficiência.
Entre elas está a APAE de Ponta Grossa, que atua há décadas na defesa de direitos e na oferta de serviços gratuitos às pessoas com deficiência. A instituição possui estrutura própria e integra uma rede nacional voltada à inclusão social, educação e atendimento especializado.
Outra instituição de destaque é a Associação Pontagrossense de Assistência à Criança com Deficiência (APACD), que oferece atendimento clínico principalmente nas áreas de habilitação e reabilitação de crianças e adolescentes com patologias neuropsicomotoras.
A equipe reúne profissionais de enfermagem, fisioterapia, fonoaudiologia, musicoterapia, neuropediatria, nutrição, odontologia, ortopedia, psicologia, serviço social e terapia ocupacional, além de profissionais de estimulação visual.
A entidade também mantém uma oficina voltada à produção e disponibilização de recursos relacionados à mobilidade, ampliando o atendimento a pessoas que necessitam de órteses e outros meios auxiliares.
Na área da deficiência visual, a Associação de Pais e Amigos do Deficiente Visual (APADEVI) atende pessoas cegas ou com baixa visão. A instituição oferece serviço social e acompanhamento que também envolve as famílias, com orientação sobre direitos, recursos disponíveis e estratégias para ampliar a autonomia.
A rede inclui ainda a Associação de Proteção dos Autistas (APROAUT), especializada no atendimento de pessoas com transtorno do espectro autista, e a ASSARTE, que oferece serviços de educação especial e acolhimento institucional para pessoas com deficiência intelectual sem amparo familiar.
A Universidade Estadual de Ponta Grossa já registrou a diversidade de serviços oferecidos por essas organizações, que incluem terapias, atendimento educacional, psicologia, musicoterapia, terapia ocupacional e outras atividades especializadas.
Em 2024, a Prefeitura reuniu representantes de organizações da sociedade civil parceiras do município para discutir melhorias na qualidade dos serviços. Participaram entidades como ADFPG, APACD, APADEVI, APAE, APROAUT, ASSARTE e ACAP Geny Ribas.
A parceria é considerada estratégica, já que essas organizações funcionam, na prática, como parte da rede de atendimento público. Em 2024, a Prefeitura anunciou o aumento de repasses para diferentes instituições, entre elas APAE, APACD, APADEVI, ASSARTE e APROAUT.

Acessibilidade começa na rua: os desafios de viver com deficiência em Ponta Grossa
Calçadas, transporte, trabalho, esporte e cultura ainda impõem barreiras, enquanto município amplia políticas para garantir inclusão e autonomia.
Para quem vive diariamente com uma deficiência, as dificuldades nem sempre estão nos serviços especializados. Muitas delas aparecem no caminho entre a casa, a escola, a universidade, o trabalho e outros espaços da cidade.
É o caso de Valcemir de Oliveira, de 54 anos. Natural de Tibagi, ele divide os dias entre a cidade natal e Ponta Grossa, onde cursa licenciatura em música na UEPG há quase três anos. Há cerca de uma década, Valcemir perdeu a visão após uma cirurgia de descolamento de retina e precisou reaprender diversas tarefas do cotidiano.
Quando precisa se deslocar sozinho, principalmente no trajeto até a universidade, os obstáculos aparecem. Calçadas irregulares, falta de acessibilidade nos meios-fios e, principalmente, dificuldades para atravessar as ruas fazem parte da rotina.
“Eu prefiro descer onde tem uma lombada elevada e aí atravesso para ir para o outro lado. O caminho fica mais longo, mas é o mais seguro a se fazer”, conta.
Valcemir já levou algumas das dificuldades enfrentadas diariamente à Câmara Municipal, buscando alternativas para tornar os trajetos mais seguros. Entre as sugestões está a implantação de uma lombada elevada em frente ao Colégio Agrícola, em um trecho utilizado para acessar a universidade.
Segundo ele, a estrutura poderia facilitar a travessia de pedestres, especialmente de pessoas com deficiência. “O ideal seria fazer uma lombada elevada, que ficaria mais segura para nós passarmos”, relata. Ele afirma, porém, que recebeu a informação de que o local possui limitações técnicas devido à inclinação da via.
O paisagismo urbano também é apontado como um problema. Valcemir relata que palmeiras plantadas em parte das calçadas deixam frutos e folhas pelo caminho, criando obstáculos para pessoas com deficiência visual.
“Boa parte da calçada onde eu passo para ir para a aula são plantadas palmeiras, que caem coquinhos quando amadurecem, e isso, para a gente que tem deficiência visual, é um perigo. Além das folhas secas no caminho que ficam
penduradas e a gente acaba batendo o rosto”, afirma. Para ele, o planejamento urbano precisa considerar também o paisagismo.
Se o atendimento especializado é fundamental, a inclusão não se completa sem uma cidade fisicamente acessível. Calçadas irregulares, obstáculos, ausência de rampas, falta de piso tátil e veículos estacionados em locais inadequados podem transformar deslocamentos simples em situações de risco para pessoas que utilizam cadeira de rodas, bengala, andador ou que possuem deficiência visual.
A Prefeitura afirma ter avançado nessa área. Desde 2021, o programa de pavimentação municipal passou a incluir também a construção e revitalização de calçadas. Até julho de 2026, mais de 115 quilômetros de novas calçadas acessíveis haviam sido entregues nos locais contemplados pelas obras.
Os passeios incluem rampas e placas com relevo podotátil destinadas à orientação de pessoas com deficiência visual.
Outro instrumento é o Manual de Calçadas, elaborado pelo IPLAN para orientar proprietários, construtoras e comerciantes sobre a construção e a reforma dos passeios. A iniciativa busca enfrentar um problema histórico da cidade, marcado por desníveis, diferentes padrões construtivos e obstáculos à circulação.
Em 2026, a Prefeitura também reforçou a fiscalização. O Decreto nº 26.369, de 10 de março, regulamentou a construção e a manutenção das calçadas e estabeleceu que a faixa livre de circulação deve permanecer sem obstáculos. Em agosto, o IPLAN alertou proprietários e comerciantes sobre a necessidade de retirar barreiras que prejudiquem a passagem dos pedestres.
O transporte coletivo também passou a integrar esse processo. Em maio, o Terminal Central iniciou obras de modernização e acessibilidade, com investimento de R$ 600 mil. O projeto prevê piso podotátil de alerta e direcional, além de melhorias em rampas, guaritas, catracas e acessos.
São intervenções importantes, mas o tamanho do desafio exige continuidade. Uma cidade acessível não é aquela que possui apenas alguns equipamentos adaptados. É aquela em que uma pessoa com deficiência consegue sair de casa, caminhar, utilizar o transporte público, chegar ao trabalho, estudar, acessar serviços de saúde e participar de atividades culturais sem enfrentar uma sequência de barreiras.

Trabalho é o próximo grande passo
A inclusão econômica é outro ponto central. Ter acesso à educação e aos serviços de saúde é indispensável, mas a autonomia também passa pelo direito ao trabalho e à renda.
A Agência do Trabalhador de Ponta Grossa desenvolve ações específicas para aproximar empresas e profissionais com deficiência. O órgão atua tanto na intermediação das contratações quanto no auxílio às empresas para o cumprimento das cotas previstas na legislação.
Em julho de 2025, por exemplo, foram anunciadas 27 vagas de contratação imediata destinadas exclusivamente a pessoas com deficiência. Havia oportunidades para servente de limpeza e auxiliar de produção, algumas sem exigência de experiência ou de ensino fundamental completo.
Em outras ações, a oferta foi ainda maior. Em 2023, o Dia D da Pessoa com Deficiência reuniu 24 empresas e disponibilizou 87 vagas. No ano anterior, uma ação encaminhou 170 pessoas com deficiência para oportunidades oferecidas por 54 empresas.
Os números mostram uma mudança importante: a pessoa com deficiência deixa de ser vista exclusivamente pela perspectiva assistencial e passa a ser reconhecida também como trabalhadora, consumidora e profissional capaz de produzir e participar ativamente da economia.
Nesse cenário, a responsabilidade do setor privado vai além do cumprimento das cotas. Empresas também podem adaptar ambientes, oferecer formação, tornar processos seletivos mais acessíveis e criar programas de aprendizagem e crescimento profissional.
A inclusão efetiva acontece quando a contratação deixa de representar apenas o preenchimento de uma vaga e passa a significar também uma oportunidade de desenvolvimento e carreira.
A própria Agência do Trabalhador já relatou casos de pequenas empresas que, mesmo sem obrigação legal de cumprir a cota, contrataram pessoas com deficiência. Para o setor, iniciativas como essa demonstram que responsabilidade social e inclusão podem caminhar junto às necessidades do mercado.

Esporte, cultura e autonomia
A inclusão também precisa alcançar áreas que muitas vezes ficam em segundo plano. Esporte, lazer e cultura são direitos e instrumentos de socialização.
O município mantém atividades de paradesporto e outras iniciativas destinadas às pessoas com deficiência. Dados de um programa municipal de incentivo ao esporte registraram, em 2023, 41 turmas de paradesporto e 621 alunos inscritos.
A proposta é utilizar o esporte não apenas como atividade física, mas também como ferramenta de inclusão, desenvolvimento e qualidade de vida.
Na cultura, ações como a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência procuram ampliar a presença desse público em espaços públicos e eventos. A programação de 2026 inclui cinema, debates, feira de serviços, oficinas artísticas, contação de histórias e atividades esportivas.
Esse conjunto de iniciativas contribui para superar uma visão antiga, na qual a pessoa com deficiência era vista apenas como alguém que precisava ser cuidado.
A política de inclusão parte de outro princípio: criar condições para que cada pessoa desenvolva suas capacidades, faça escolhas e participe ativamente da sociedade.

Uma cidade diante de um novo padrão de inclusão
Com quase 70 mil pessoas com deficiência, Ponta Grossa não pode tratar a inclusão como uma pauta restrita a uma semana do calendário. A estimativa divulgada pelo CMDPD coloca o tema entre os grandes desafios do planejamento urbano e social do município.
A cidade já possui uma rede relevante, formada por equipamentos públicos, entidades especializadas, serviços de saúde e educação, programas de assistência, ações de emprego, paradesporto, iniciativas de acessibilidade urbana e uma participação crescente do setor empresarial.
O desafio agora é integrar essa estrutura.
A família que procura atendimento para uma criança com deficiência precisa encontrar uma rede capaz de orientar sobre saúde, educação, assistência, benefícios, terapias e direitos. O jovem que conclui a escola precisa ter acesso a oportunidades de qualificação e trabalho. O adulto que busca emprego precisa encontrar empresas preparadas para recebê-lo. A pessoa idosa que adquire uma deficiência precisa contar com transporte, calçadas e serviços adaptados.
E todos precisam ter condições de circular pela cidade sem transformar cada deslocamento em uma barreira.
A inclusão, portanto, não pode ser medida apenas pelo número de atendimentos realizados ou pela quantidade de vagas abertas. Ela também precisa ser avaliada pela autonomia conquistada.
Para Ponta Grossa, a estimativa de quase 70 mil pessoas com deficiência representa uma responsabilidade, mas também uma oportunidade de construir um modelo de cidade mais humano. Rampas, pisos táteis, transporte acessível, escolas inclusivas e empregos são estruturas indispensáveis. A transformação mais profunda, porém, acontece quando a deficiência deixa de determinar o lugar que uma pessoa ocupa na sociedade.
O caminho já começou, com políticas públicas e uma rede de entidades que acumulam décadas de experiência. O próximo passo é fazer com que essa estrutura seja cada vez mais integrada, abrangente e presente no cotidiano.
Afinal, uma cidade verdadeiramente acessível não é aquela que cria espaços especiais para algumas pessoas, mas aquela que é planejada para que todos possam viver, trabalhar, estudar, circular e participar.

























