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Inovações ajudam a gerir riscos na agricultura brasileira

Ao completar 30 anos, ferramenta da Embrapa atualiza base climatológica, altera janelas de plantio em mais de 3,2 mil municípios e adota novos critérios para solo e manejo

Zarc monitora variáveis agrometeorológicas e de manejo do solo para otimizar janelas de plantio e dar estabilidade à renda dos produtores brasileiros
Zarc monitora variáveis agrometeorológicas e de manejo do solo para otimizar janelas de plantio e dar estabilidade à renda dos produtores brasileiros -

Publicado por Eduarda Gomes

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O Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) está completando 30 anos de existência em 2026 consolidado como uma ferramenta científica e metodológica crucial para a segurança do setor produtivo nacional. Ao longo de três décadas, o sistema passou por profundas atualizações técnicas com o objetivo de aprimorar a gestão de riscos climáticos. A mais recente atualização de sua base de dados meteorológicos provocou mudanças diretas nas janelas de cultivo de 3.285 municípios brasileiros, alterando o período recomendado para o plantio por meio de ampliações ou reduções dos prazos.

A estrutura anterior do Zarc utilizava registros climatológicos coletados entre os anos de 1984 e 2013. A nova base de dados compreende o intervalo de 1993 a 2022. Essa substituição gerou impactos práticos não apenas pela mudança do período cronológico avaliado, mas também pelo avanço tecnológico na quantidade e na qualidade dos instrumentos agrometeorológicos de mediçãoAs informações são da Assessoria de Imprensa.

JANELAS DE PLANTIO REGIONAIS

Com a nova metodologia, 1.474 municípios registraram uma redução na janela recomendada para o plantio. Esse fenômeno concentrou-se na região Sudeste e nas áreas da Zona da Mata e do Semiárido no Nordeste.

Pesquisadores da Embrapa explicam que o encurtamento dos prazos decorre, majoritariamente, do início mais tardio do período favorável para semeadura, que costuma ocorrer entre setembro e dezembro. Esse atraso é tecnicamente explicado pela menor incidência de chuvas na transição entre a estação seca e a chuvosa, somada às temperaturas mais elevadas registradas de julho a setembro.

Em contrapartida, outras 1.811 cidades brasileiras tiveram suas janelas de cultivo ampliadas, localizadas em sua maior parte nas regiões Norte e Sul do país. "Um exemplo disso foi a diminuição dos riscos de geadas em estados do Sul, resultando em possibilidade de plantio antecipado em alguns municípios", destaca Eduardo Monteiro, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital (SP) e coordenador da Rede Zarc Embrapa de Pesquisa.

A revisão dos dados afetou diretamente a recomendação técnica para o cultivo de uma segunda safra com segurança. Para que um município receba essa indicação, as diretrizes exigem uma janela mínima de 13 ou mais decêndios (períodos de dez dias) sob condições climáticas favoráveis.

Na apuração final, houve um acréscimo líquido de 25 municípios aptos à segunda safra, totalizando 1.190 cidades brasileiras nesta categoria. No detalhamento desse balanço, 180 municípios perderam a recomendação de segunda safra devido ao encurtamento de suas janelas, enquanto outros 205 municípios ganharam o direito à indicação após a ampliação de seus períodos de cultivo.

EXPANSÃO DE DADOS

A evolução do Zarc é impulsionada pelo volume de informações captadas. A base histórica saltou de 3.500 séries climatológicas provenientes de estações meteorológicas físicas para 4.200 séries atuais. Parte desse incremento foi obtido por meio de "estações virtuais", compostas por dados estimados via satélites e modelos meteorológicos, sem a necessidade de equipamentos de medição instalados in loco.

Eduardo esclarece a natureza estritamente técnica do mapeamento. “Esse não é um estudo sobre mudanças climáticas. O objetivo principal foi avaliar os impactos da alteração de base de dados no Zarc, uma vez que nossa prioridade não é avaliar mudança climática, mas sim garantir a melhor base possível para as avaliações de risco do Zoneamento”, argumenta.

NOVA CLASSIFICAÇÃO DE SOLOS

Iniciado originalmente com a cultura do trigo na safra de 1996, o Zarc expandiu-se e, entre os anos de 2002 e 2016, ficou fora da gestão direta da Embrapa. Mesmo nesse intervalo, os cientistas da instituição mantiveram as pesquisas e, com o retorno da ferramenta para a empresa em 2017, implementaram melhorias imediatas. Hoje, o sistema abrange 53 culturas distribuídas em 97 sistemas de produção distintos, englobando regimes de sequeiro e irrigado, primeira e segunda safra, além de destinações para mesa e indústria.

Uma das principais inovações em andamento é a substituição progressiva da classificação de solos baseada em texturas (arenoso, médio e argiloso) por um modelo focado na disponibilidade real de água. A nova metodologia estabelece seis classes de água disponível (ADs), calculadas a partir dos teores exatos de silte, areia e argila presentes em cada talhão produtiva. A cultura da soja foi a pioneira na utilização do chamado "Zarc 6 ADs", implementado no ano de 2023.

Essa mensuração é realizada por meio de uma equação matemática (função de pedotransferência) calibrada para as especificidades dos solos tropicais do país. Segundo o pesquisador José Renato Bouças Farias, da Embrapa Soja (PR), o modelo reflete com precisão a variabilidade real das terras brasileiras. “Essa nova metodologia do Zarc aumentou a qualidade das informações disponíveis para subsidiar a gestão de riscos e o planejamento da produção de soja”, avalia Farias.

As indicações passaram a traduzir com maior fidelidade os riscos práticos da atividade em campo. “Essa nova metodologia do Zarc aumentou a qualidade das informações disponíveis para subsidiar a gestão de riscos e o planejamento da produção de soja”, complementa.

Essa transição metodológica de dados temporais e de solos ocorre de forma gradual, aplicada conforme os zoneamentos de cada cultura passam por revisões periódicas. No decorrer do ano de 2026, as culturas de cana-de-açúcar, milho e girassol já tiveram suas diretrizes atualizadas de acordo com os novos parâmetros.

ZARC NÍVEIS DE MANEJO

A mais recente fronteira científica da ferramenta é o "Zarc Níveis de Manejo" (ZarcNM), uma evolução que cruza os dados climáticos, o tipo de solo e o ciclo biológico da planta com as práticas agronômicas adotadas pelo produtor. A lógica metodológica fundamenta-se no princípio de que um manejo de solo conservacionista e bem executado retém mais umidade, conferindo maior resiliência biológica à plantação em períodos de estiagem.

Para estruturar essa análise, o sistema adota indicadores práticos como o tempo total sem revolvimento da terra, o percentual de cobertura vegetal sobre o solo, os índices de saturação por bases, o teor de cálcio, a saturação por alumínio e o histórico de diversificação de culturas na propriedade. Os dados coletados são processados pelo Sistema de Informações de Níveis de Manejo (SiNM), software desenvolvido pela Embrapa que enquadra o talhão avaliado em uma escala de classificação que varia do nível 1 ao nível 4, sendo o Nível de Manejo 4 (NM4) o padrão de excelência máxima reconhecido.

LEIA ABAIXO UM RESUMO DA NOTÍCIA

- Atualização climática massiva: Ao completar 30 anos em 2026, o Zarc revisou sua base histórica com dados de 1993 a 2022 e o uso de estações virtuais, o que resultou na alteração e ajuste das janelas de plantio de 3.285 municípios brasileiros.

- Critério de água no solo: O sistema substituiu a antiga classificação de solos (arenoso, médio e argiloso) por seis classes específicas de Água Disponível (ADs), calculadas por equações matemáticas ajustadas que aumentam a precisão na gestão de riscos das lavouras.

- Inovação em níveis de manejo: A criação do ZarcNM e do software SiNM insere o manejo do agricultor na equação de risco, avaliando práticas de conservação do solo em uma escala de 1 a 4 para medir a resiliência das culturas contra a falta de chuvas.

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