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Coluna Fragmentos: Uma medicina diferente

A coluna ‘Fragmentos’, assinada pelo historiador Niltonci Batista Chaves, publicada entre 2007 e 2011, retorna como parte do projeto '200 Vezes PG', sendo publicada diariamente entre os dias 28 de fevereiro e 15 de setembro

Em 05 de agosto de 1962, o JM publicou um artigo assinado pelo professor Faris Michaele no qual o intelectual destacava a influência da medicina indígena no Brasil
Em 05 de agosto de 1962, o JM publicou um artigo assinado pelo professor Faris Michaele no qual o intelectual destacava a influência da medicina indígena no Brasil -

João Gabriel Vieira

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Quando chegaram e conquistaram os povos da América pela força, os europeus pouco se preocuparam com as estruturas sociais e as práticas culturais seculares existentes entre os ameríndios. Naquele período histórico, a idéia da supremacia branca calcada nos primeiros avanços da ciência e nos saberes então compreendidos como superiores se sobrepôs aos vastos conhecimentos produzidos pelas populações que habitavam originalmente o continente.

No entanto, pouco tempo depois os colonizadores se deram conta que estavam diante de civilizações que muito tinham a oferecer além das riquezas naturais existentes no solo americano. No caso da colonização do Brasil, os portugueses descobriram, por exemplo, que a cura de inúmeras doenças poderia ser encontrada na própria natureza, uma vez que no imenso território colonial existiam plantas totalmente desconhecidas dos europeus e que há muito tempo eram utilizadas pelos nativos no combate de suas enfermidades.

A flora medicinal encontrada no Brasil colonial foi sendo paulatinamente descoberta pelos funcionários da Coroa lusitana, boticários, naturalistas, comerciantes e pelos viajantes e aventureiros que cortavam o território em busca de riquezas de todas as espécies. Ao perceber as possibilidades curativas e também os potenciais lucros que a flora brasileira oferecia, o Rei de Portugal ordenou que médicos e naturalistas viessem para a América e aqui produzissem relatórios a respeito das plantas existentes, bem como de seus usos no combate as moléstias. Ao fazer isso, implicitamente o mandante luso quebrava, na prática, um princípio que sempre foi utilizado pelo conquistador: o da supremacia absoluta do branco colonizador em relação aos dominados “incultos”.

No século XVI foram comuns os colóquios e encontros médicos realizados na Europa para apresentar e discutir os poderes curativos do que podemos chamar de uma “medicina indígena” praticada no Brasil colonial. Nesse momento já circulavam pelo Velho Continente vários compêndios descritivos sobre as plantas “exóticas” encontradas na maior colônia portuguesa e das terapias adotadas pelos indígenas brasileiros. Entre esses escritos destacam-se aqueles produzidos pelos religiosos jesuítas (como Manuel da Nóbrega e José de Anchieta) e pelos cronistas lusos (como Gabriel Soares de Sousa, Fernão Cardim e Pero de Magalhães Gândavo).

Com o avanço dos processos de transformação química e da industrialização da medicina, várias plantas utilizadas para curar no Brasil colônia acabaram ganhando roupagem nova. Ao invés de utilizadas in natura passaram a ser consumidas na forma de comprimidos, pastilhas, xaropes, pomadas e infusões; ganharam rótulos, marcas e formatos. Porém, na essência, mesmo que não saibamos, são as mesmas utilizadas pelos ameríndios e continuam tendo a mesma eficácia que chamou atenção dos conquistadores europeus nos tempos coloniais.

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Compêndios

Além de se dedicar a catequização do gentio durante o início da colonização portuguesa, o jesuíta José de Anchieta ainda produziu vários relatos a respeito da natureza encontrada na colônia: “Das árvores uma parece digna de notícia, da qual, ainda que outras haja que destilam um líquido semelhantes à resina, útil para remédio, escorre um líquido suavíssimo, que pretendem seja o bálsamo, que a princípio corre como óleo por pequenos furos feitos pelo caruncho ou também por talos de foices ou de machados, coalha e parece converter-se em uma espécie de bálsamo; exala um cheiro muito forte; porém suavíssimo e é ótimo para curar feridas, de tal maneira que em pouco tempo (como dizem por ter experiência provado) nem mesmo sinal fica das cicatrizes.”

(Anchieta e a medicina. Rio de Janeiro, 1934)

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Natureza em Boiões

Nas últimas décadas inúmeros historiadores e pesquisadores voltaram seus olhares para as questões relacionadas a doença e a cura. Nesse sentido, destaca-se na historiografia brasileira o livro “Natureza em Boiões. Medicinas e boticários no Brasil setecentista” (Editora Unicamp, 1999), escrito pela professora Vera Regina Beltrão Marques. Nessa obra a pesquisadora da Universidade Federal do Paraná se preocupa em recuperar as artes de curar no Brasil colonial com base na flora nativa e também os desdobramentos dessas práticas de cura a partir das influências da cultura africana e das tradições medievais européias.

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O material original, com mais de 170 colunas, será republicado na íntegra e sem sofrer alterações. Por isso, buscando respeitar o teor histórico das publicações, o material apresentará elementos e discussões datadas por tratarem-se de produções com mais de uma década de lançamento. Além das republicações, mais de 20 colunas inéditas serão publicadas. Completando assim 200 publicações.

Publicada originalmente no dia 25 de julho de 2010.

Coluna assinada por Niltonci Batista Chaves. Historiador. Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

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