Coluna Fragmentos: Trabalhadores ponta-grossenses e a greve geral de 1917 | aRede
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Coluna Fragmentos: Trabalhadores ponta-grossenses e a greve geral de 1917

A coluna ‘Fragmentos’, assinada pelo historiador Niltonci Batista Chaves, publicada entre 2007 e 2011, retorna como parte do projeto '200 Vezes PG', sendo publicada diariamente entre os dias 28 de fevereiro e 15 de setembro

Em 03 de julho de 1955 o JM publicou notícia a respeito da greve dos trabalhadores do Porto de Santos/SP
Em 03 de julho de 1955 o JM publicou notícia a respeito da greve dos trabalhadores do Porto de Santos/SP -

João Gabriel Vieira

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País de forte tradição escravista, o Brasil somente viu nascer uma classe trabalhadora (livre e assalariada) no quarto final do século XIX. No caso do Paraná, ao ter início o século XX apenas em Curitiba e em Ponta Grossa era possível falar sobre a existência de tal segmento social.

Em Ponta Grossa, foi a partir da chegada das ferrovias que começou a se formar um segmento composto por operários, artesãos, trabalhadores do comércio e outros profissionais que acabaram por constituir uma classe trabalhadora local.

Marcada pela presença de inúmeros imigrantes europeus essa classe recebeu, na sua origem, uma forte influência das correntes de pensamento que circulavam pelo velho continente naquele início de século. Assim, no começo dos Novecentos tiveram voz em Ponta Grossa as ideias socialistas, anarquistas e comunistas, as quais contribuíram para a criação na cidade de centros livre-pensadores e anticlericais, agremiações políticas e sindicatos que defendiam os interesses desses trabalhadores.

Em 1917, momento em que o Brasil experimentou a primeira greve geral de sua história, a cidade de Ponta Grossa parou por cerca de dez dias durante os meados do mês de julho. Capitaneados pelos ferroviários – mais numeroso e articulado segmento de trabalhadores locais – os operários princesinos engrossaram os números oficiais sobre aquele movimento paredistas que tanta preocupação causou para as autoridades republicanas do período.

Porém, diferente do que ocorreu em cidades maiores (como São Paulo e Curitiba, por exemplo), em Ponta Grossa a greve transcorreu de forma atípica, com grande ordenamento e controle. Basta dizer que entre os líderes e negociadores da greve estavam figuras de peso na vida política local e que pouco ou nada tinham a ver com os interesses dos trabalhadores. Entre aqueles que conduziram o movimento destacaram-se Brazilio Ribas, fazendeiro, comerciante e presidente da Câmara Municipal; Flávio Carvalho Guimarães, advogado e fazendeiro de tradicional família ponta-grossense; e Hugo dos Reis, jornalista, espírita e autodenominado socialista (em sua vertente humanista, não marxista).

As atas da greve de 1917, conduzida pela Sociedade Operária Pontagrossense apontam em direção a um movimento importante, que levou ao fechamento das portas de casas comerciais e de indústrias na cidade, mas que, ao mesmo tempo, transcorreu dentro da ordem e da normalidade, em nada lembrando a perspectiva da luta de classes e dos embates com policiais e outras autoridades, como se verificou em Curitiba e nas demais cidades brasileiras que aderiram ao movimento.

Uma das coisas que mais chamam a atenção daqueles que lêem as atas da greve de 1917 em Ponta Grossa é a constante pregação do comitê organizador da paralisação (controlado por membros das elites políticas e por intelectuais) sobre a necessidade de que os trabalhadores não promovessem nenhum ato considerado ofensivo ou agressivo contra comerciantes e industriais locais que insistiam em manter as portas de seus respectivos estabelecimentos abertas mesmo durante o decorrer da greve. 

Estima-se que cerca de 1000 trabalhadores fixados em Ponta Grossa, tenham engrossado os números oficiais desse importante acontecimento da vida política brasileira do século passado.

A descoberta da documentação sobre a greve de 1917 (cedida pelo Centro Operário Cívico Beneficente para a Casa da Memória Paraná) nos ajuda a perceber que é errônea a afirmação de que em Ponta Grossa não temos uma tradição de organização e militância das classes trabalhadoras. Pelo contrário, se voltarmos no tempo, encontraremos uma Ponta Grossa bastante ativa no que respeita a participação dos trabalhadores na vida política, social e econômica da cidade

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Entidades 

Entre as entidades e instrumento de comunicação que representavam os operários locais no início do século passado encontramos o Circulo Socialista Leon Tolstoi, o Círculo Napoleone Amadio, um Centro Anticlerical e um Centro Livre Pensador, a Sociedade Operária Beneficente, e o jornal O Escalpelo, fundado em 1908 pelo anarquista italiano Gigi Damiani, uma das figuras mais representativas entre os trabalhadores brasileiros no começo do século XX.

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Em 1917

Por conta do contato permanente com centros maiores como Rio e São Paulo, por sua expressiva presença numérica e por sua capacidade de organização os ferroviários ponta-grossenses comandaram o movimento paredista de 1917 na cidade. Estima-se que, pelo menos, a metade dos trabalhadores que participaram da greve em Ponta Grossa era composta pelos ferroviários da São Paulo – Rio Grande e da Estrada de Ferro do Paraná. Nos primeiros dias da greve um pequeno grupo de ferroviários foi expulso pelos líderes do movimento sob a acusação de desatarraxar e retirar trilhos da estrada de ferro para dificultar a passagem de trens e pressionar as autoridades para que atendessem as reivindicações dos grevistas. 

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O material original, com mais de 170 colunas, será republicado na íntegra e sem sofrer alterações. Por isso, buscando respeitar o teor histórico das publicações, o material apresentará elementos e discussões datadas por tratarem-se de produções com mais de uma década de lançamento. Além das republicações, mais de 20 colunas inéditas serão publicadas. Completando assim 200 publicações.

Publicada originalmente no dia 13 de junho de 2010.

Coluna assinada por Niltonci Batista Chaves. Historiador. Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

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