Coluna Fragmentos: Uma Nova Rússia de outros tempos | aRede
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Coluna Fragmentos: Uma Nova Rússia de outros tempos

A coluna ‘Fragmentos’, assinada pelo historiador Niltonci Batista Chaves, publicada entre 2007 e 2011, retorna como parte do projeto '200 Vezes PG', sendo publicada diariamente entre os dias 28 de fevereiro e 15 de setembro

Entre os anúncios publicados pelo JM na década de 1960 (10 de julho de 1962) estava o do Açougue São Sebastião, de propriedade da família Miró Guimarães, um dos inúmeros estabelecimentos que atendiam a população do bairro naquele período
Entre os anúncios publicados pelo JM na década de 1960 (10 de julho de 1962) estava o do Açougue São Sebastião, de propriedade da família Miró Guimarães, um dos inúmeros estabelecimentos que atendiam a população do bairro naquele período -

João Gabriel Vieira

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Uma das lembranças mais vivas que ainda guardo da minha infância, algo localizado entre os fins da década de 1960 e início dos anos 70, é a existência de alguns estabelecimentos comerciais que eram verdadeiros pontos de encontro dos moradores da Nova Rússia.

Até a inauguração do Supermercado Gonasa (no início da década de 1970), fato que correspondeu ao início da chegada dos grandes empreendimentos comerciais no bairro, as pessoas compravam mercadorias e supriam suas necessidades nos bares, armazéns, açougues e outros estabelecimentos que prestavam serviço à população e geralmente valiam-se das cadernetas onde eram anotados os gastos dos compradores sem qualquer outra forma de garantia.

Nesses espaços a relação dos proprietários dos negócios com seus clientes era muito mais de amizade e companheirismo do que de pura transação comercial. Foi assim que durante anos – em alguns casos, décadas – que as sapatarias do Atílio e do Dida, a relojoaria do Orlando, a Farmácia do Herculano, a casa Kiszka, o bar e armazém do Alemão e o açougue do “seu” Demétrio tornaram-se referências espaciais e de convivência na Nova Rússia.

Apesar de passados cerca de quarenta anos de minha infância, ainda recordo com bastante clareza de cada um dos proprietários desses estabelecimentos, da distribuição espacial dos mesmos, das cores, do cheiro característico que cada espaço possuía, dos objetos e dos produtos encontrados nesses lugares.

Desses espaços todos, um dos que mais recordo é o açougue do “seu” Demétrio, que ficava no cruzamento entre as ruas General Rondon e Marcílio Dias e funcionava como uma extensão da casa de seu proprietário. A parte interna do estabelecimento era bastante simples. As paredes eram totalmente recobertas com um azulejo branco. Logo que as pessoas entravam se deparavam com um balcão no qual estavam expostas as carnes e sobre o qual existia uma balança manual tendo ao lado os papéis em tonalidade escura (algo que lembra o papel kraft) com os quais o açougueiro embrulhava as compras (pacotes e sacolas plásticas era algo que nem se conhecia na época).

De “seu” Demétrio, um senhor que naquele tempo já contava com uns 60 anos, lembro-me bem de sua aparência física: pele clara, cabelos ralos e negros, assim como o bigode. Usava óculos com armação pesada (num modelo padrão da época) e possuía um tom de voz acentuadamente grave. 

O açougue do “seu” Demétrio, assim como os outros estabelecimentos, fechou suas portas há mais de duas décadas (com exceção da sapataria do Atílio que, apesar de possuir outro proprietário, ainda sobrevive na confluência da Dom Pedro II com a Alberto de Oliveira). O bairro se modernizou e viu chegar as grandes redes de lojas, farmácias e supermercados. Contudo, é bem possível que aquelas pessoas que contam com mais de quarenta anos de idade e que viveram na Nova Rússia entre os anos 60 e 70 do século passado, também se recordem desses (e de outros) estabelecimentos e personagens que marcaram o cotidiano do bairro.

Perdi a conta de quantas vezes acompanhei meu avô (que viveu boa parte da vida no bairro e que ali foi dono de um pequeno estabelecimento comercial) por todos esses lugares enquanto era criança. Apesar das mudanças estruturais pelas quais o bairro passou nas últimas décadas, essa é uma Nova Rússia que continua viva na minha lembrança e, acredito, na memória de muitas outras pessoas que também viveram a mesma experiência.

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O material original, com mais de 170 colunas, será republicado na íntegra e sem sofrer alterações. Por isso, buscando respeitar o teor histórico das publicações, o material apresentará elementos e discussões datadas por tratarem-se de produções com mais de uma década de lançamento. Além das republicações, mais de 20 colunas inéditas serão publicadas. Completando assim 200 publicações.

Publicada originalmente no dia 18 de abril de 2010.

Coluna assinada por Niltonci Batista Chaves. Historiador. Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

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