Coluna Fragmentos: A Cooperativa Mista 26 de Outubro | aRede
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Coluna Fragmentos: A Cooperativa Mista 26 de Outubro

A coluna ‘Fragmentos’, assinada pelo historiador Niltonci Batista Chaves, publicada entre 2007 e 2011, retorna como parte do projeto '200 Vezes PG', sendo publicada diariamente entre os dias 28 de fevereiro e 15 de setembro

Na edição comemorativa de aniversário de Ponta Grossa em 1962, o JM publicou um texto sobre a Cooperativa Mista 26 de Outubro, destacando a importância da entidade para a cidade
Na edição comemorativa de aniversário de Ponta Grossa em 1962, o JM publicou um texto sobre a Cooperativa Mista 26 de Outubro, destacando a importância da entidade para a cidade -

João Gabriel Vieira

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Num período de três décadas - entre a última do século XIX e a segunda do século XX – Ponta Grossa sofreu alterações profundas: a população local quintuplicou, indo de 4.700 para mais de 20 mil habitantes; o quadro urbano expandiu-se e reformulou-se de forma assustadora; as atividades econômicas tiveram um grande incremento por conta da instalação de fábricas e com a abertura de casas comerciais de grande; as práticas culturais ganharam corpo com a abertura de cinemas e teatros. Ao mesmo tempo, aumentaram os problemas relacionados com a ocupação irregular do solo, com a violência e a marginalidade urbanas e também com as demandas educacionais e sanitárias.

Como explicar transformações tão profundas produzidas em um curto espaço de tempo? A principal responsável por esse quadro intenso de mudanças foi a ferrovia! A chegada da Estrada de Ferro do Paraná e da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande (ambas na década final dos Oitocentos) transformou o modorrento vilarejo que ocupava uma posição secundária no contexto dos Campos Gerais no mais vigoroso centro urbano do interior do Paraná.

Desta forma, para Ponta Grossa, o século XX trouxe consigo uma íntima relação com a ferrovia, com os ferroviários, e com as suas organizações e entidades. Por exemplo: os ponta-grossenses viram os trabalhadores da ferrovia comandar as ações da greve de 1917 na cidade; a Escola Ferroviária Tibúrcio Ferreira Cavalcanti ocupou, durante décadas, um importante espaço na educação local; a Estação Roxo de Rodrigues tornou-se um dos espaços mais cultuados pelos ponta-grossenses até meados do último século.

Foi a partir dessa tradição ferroviária que a cidade viu nascer, em 1906, a Associação Beneficente 26 de Outubro, uma entidade criada e gerenciada pelos próprios trabalhadores da São Paulo – Rio Grande e que tinha como objetivo propiciar assistência hospitalar, social e pecuniária para os ferroviários.

Ao longo dos anos, a Associação contou com um número cada vez maior de filiados, o que possibilitou um fortalecimento financeiro da entidade e uma melhor estruturação de seus serviços. Assim, foram implantados armazéns e postos médicos ao longo do percurso da ferrovia no Paraná e foi criado o Hospital Ferroviário 26 de Outubro. Com o tempo a área de atuação da Associação passou a congregar trabalhadores dos quatro estados cortados pela ferrovia.

Em 1944, por conta da legislação brasileira do período, a Associação transformou-se na Cooperativa Mista 26 de Outubro Limitada, vinculando-se ao Ministério da Agricultura. Nesse momento a entidade contava com mais de quatro mil ferroviários em seu quadro de filiados, número que dobrou no decênio seguinte. 

Com a abertura e ocupação efetiva de novas regiões no território paranaense – como o oeste e o norte do estado – e com a ampliação e melhoria das rodovias que cortavam o Paraná, o país assistiu ao início do declínio da importância das ferrovias para a economia nacional. Esse contexto afetou a realidade ponta-grossense (a partir daí a cidade perde espaço político e econômico) e atingiu a Cooperativa 26 de Outubro, levando a sua depreciação gradual e a sua inevitável falência. 

Em 1989, sem condições financeiras de se manter em funcionamento, o Hospital 26 de Outubro fechou suas portas, encerrando uma história de mais de oitenta anos iniciada no começo do século XX. Desde a década de 1990 o prédio do 26 de Outubro, incorporado ao patrimônio público ponta-grossense, passou a abrigar os serviços sociais do município, função que exerce até os dias atuais. Mesmo encoberto visualmente pelo maior shopping existente na cidade, o prédio do antigo Hospital Ferroviário 26 de Outubro ainda se constitui em um dos mais importantes patrimônios arquitetônicos de Ponta Grossa e ainda contribui para mantém viva na memória de muitos ponta-grossenses a lembrança dos tempos em que a ferrovia era uma das grandes promotoras do desenvolvimento local.

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O material original, com mais de 170 colunas, será republicado na íntegra e sem sofrer alterações. Por isso, buscando respeitar o teor histórico das publicações, o material apresentará elementos e discussões datadas por tratarem-se de produções com mais de uma década de lançamento. Além das republicações, mais de 20 colunas inéditas serão publicadas. Completando assim 200 publicações.

Publicada originalmente no dia 11 de abril de 2010.

Coluna assinada por Niltonci Batista Chaves. Historiador. Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

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