Coluna Fragmentos: O Festival Nacional de Teatro de Ponta Grossa
A coluna ‘Fragmentos’, assinada pelo historiador Niltonci Batista Chaves, publicada entre 2007 e 2011, retorna como parte do projeto '200 Vezes PG', sendo publicada diariamente entre os dias 28 de fevereiro e 15 de setembro

Nos últimos anos uma série de trabalhos acadêmicos, produzidos principalmente pelos cursos de História e Geografia da UEPG, tem discutido as transformações provocadas pela chegada das ferrovias em Ponta Grossa a partir do final do século XIX. Mais do que exaltar os efeitos positivos derivados desse acontecimento, os estudos de professores e alunos desses cursos tem se preocupado em apontar tanto os avanços (econômicos, culturais e políticos) como os conflitos e tensões provocados pelas estradas de ferro.
Se por um lado a cidade cresceu economicamente, ampliou sua importância política no cenário estadual e se modernizou de forma acentuada, por outro a chegada de um grande contingente de pessoas gerou uma ocupação desordenada do espaço urbano, exigiu um amplo investimento do poder público nos campos educacionais e sanitários e aumentou consideravelmente os problemas sociais ponta-grossenses.
Passado mais um século desses acontecimentos, o certo é que a identidade local ainda é fortemente marcada pela ferrovia e pelos efeitos produzidos por ela. Torcemos apaixonadamente pelo Operário Ferroviário; discutimos a criação de um Museu Ferroviário; o prédio em que atualmente funciona da Biblioteca Pública (originalmente construído para abrigar os escritórios da Ferrovia São Paulo – Rio Grande) é simbólica e carinhosamente chamado de “Estação Saudade”; há alguns mandatos a municipalidade utiliza o antigo prédio do Hospital Ferroviário 26 de Outubro como sede da Secretaria Municipal de Assistência Social e a nossa Casa da Memória – depositária da história, da memória e da identidade locais – funciona exatamente na primeira estação ferroviária construída em Ponta Grossa.
Mesmo reconhecendo que a ferrovia trouxe consigo vários benefícios, mas também uma série de problemas, o fato é que o desenvolvimento cultural experimentado pela cidade nas décadas iniciais do século passado é uma das principais heranças deixadas pela ferrovia.
Graças as estradas de ferro, Ponta Grossa, nas primeiras décadas do século XX, foi um palco privilegiado para uma série de espetáculos culturais de primeira grandeza. Por aqui passaram cantores, atores, companhias teatrais e musicais, mágicos e outros artistas vindos do Brasil e, muitas vezes, do exterior. Desde 1873 a cidade já possuía uma casa para espetáculos teatrais e a partir do início dos Novecentos passou a contar com cinemas e outros espaços destinados as apresentações culturais.
Portanto, a relação da cidade com o teatro é bastante antiga, datando do último quarto do século XIX. Assim como o que ocorreu com Ponta Grossa, que perdeu prestígio econômico e político por volta dos meados do século passado, a tradição do teatro também perdeu fôlego no mesmo período. Com o desenvolvimento de novos centros urbanos mais vigorosos no interior paranaense, as grandes companhias teatrais se afastaram de nossa cidade.
A década de 1970 marcou, para Ponta Grossa, um momento de retomada de sua importância econômica e política no contexto estadual. Além disso, naquele início de década a cidade já contava com uma Universidade: a UEPG, nascida em 1969. Apesar daquele ser um momento caracterizado pela forte repressão do governo Médici e apesar da Universidade possuir várias pessoas politicamente alinhadas ao regime em seus quadros dirigentes, o reitor Álvaro Augusto da Cunha Rocha, importante intelectual ponta-grossense daquele período, decidiu investir na ideia de criar um festival de teatro amador na cidade.
Assim, em 1973, nasceu o Festival Nacional de Teatro, o FENATA, uma das mais efetivas ações culturais já promovidas pela nossa Universidade na sua relação com a comunidade princesina. Se considerarmos que o teatro foi tratado pela ditadura militar como uma das expressões artísticas mais subversivas daquele período, o mérito da criação do FENATA torna-se ainda maior e nos dá condições para que atualmente o Festival seja compreendido como um patrimônio cultural ponta-grossense.
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O material original, com mais de 170 colunas, será republicado na íntegra e sem sofrer alterações. Por isso, buscando respeitar o teor histórico das publicações, o material apresentará elementos e discussões datadas por tratarem-se de produções com mais de uma década de lançamento. Além das republicações, mais de 20 colunas inéditas serão publicadas. Completando assim 200 publicações.
Publicada originalmente no dia 28 de março de 2010.
Coluna assinada por Niltonci Batista Chaves. Historiador. Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná.





















