Coluna Fragmentos: “Leite Glória” | aRede
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Coluna Fragmentos: “Leite Glória”

A coluna ‘Fragmentos’, assinada pelo historiador Niltonci Batista Chaves, publicada entre 2007 e 2011, retorna como parte do projeto '200 Vezes PG', sendo publicada diariamente entre os dias 28 de fevereiro e 15 de setembro

Em 01 de julho de 1962, o JM publicou um anúncio da Cia. Pontagrossense de Automóveis, na qual era feito a divulgação do Gordini
Em 01 de julho de 1962, o JM publicou um anúncio da Cia. Pontagrossense de Automóveis, na qual era feito a divulgação do Gordini -

João Gabriel Vieira

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Atualmente é comum nos depararmos com peças publicitárias que trazem uma série de itens de décadas passadas e que nos fazem perceber que estamos “ficando velhos”. Por exemplo, quem se lembra do Genius da Estrela, do Ritchie e do Biafra cantando no Cassino do Chacrinha e de quando os videocassetes começaram a tirar o público do cinema em troca do conforto do lar, é porque viveu a década de 1980 e hoje em dia já deve ser um “trintão”. Para aqueles que assistiram a Vila Sésamo, que recordam da propaganda do Sugismundo e do slogan “Brasil, ame-o ou deixe-o” (ambos criados pela ditadura militar) e que assistiram a versão original dos “Irmãos Coragem” com o Tarcísio e a Glória, não tem jeito, esses já estão, pelo menos, na fase dos quarenta anos.

O que dizer então daqueles que acompanharam a chegada do Gordini, um automóvel pequeno e charmoso vindo da França e que marcou época em terras brasileiras? Ele começou a ser fabricado em nosso país em 1959, momento em que a indústria automobilística nacional ainda engatinhava.

A década de 1960, período em que os Gordinis passaram a desfilar por nossas ruas, significou, não só para o Brasil, mas para todo o mundo, um momento especial. As utopias estavam em alta e a ideia de que era possível mudar o mundo e torná-lo melhor ganhou adeptos por todos os cantos do planeta. No cenário internacional, intelectuais como Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, artistas como Bob Dylan e Joan Baez, ativistas como Martin Luther King, acontecimentos transformadores (como o Concílio do Vaticano II), lideranças revolucionários como Che Guevara, bem como as mulheres, os negros e os estudantes que anonimamente lutavam pela ampliação dos direitos democráticos, serviam como exemplos para a geração que, no Brasil, vivia um momento singular, marcado pelos avanços sociais e pelo aumento das liberdades produzidas pelos governos de Juscelino Kubitschek e de João Goulart.

Em contrapartida, no Brasil, aquele também foi um momento em que uma grande onda conservadora (que teve como seus articuladores alguns setores das classes médias, a Igreja Católica e as Forças Armadas) se espalhou pelo país levando a deposição de Goulart, ao golpe de 1964 e a um retrocesso nos direitos e liberdades políticas e sociais.

Ao longo dos anos 60, a indústria automobilística brasileira se expandiu. Novas fábricas se instalaram por aqui e diversos modelos de automóveis passaram a ser produzidos inteiramente no país. Ao mesmo tempo, grupos de jovens militantes contestaram duramente o regime militar e foram perseguidos por conta disso. Em 1968, ano de intensas movimentações sociais e políticas, o Brasil viveu um de seus momentos mais tensos que acabou, simbolicamente, com a decretação do Ato Institucional Nº 5.

Naquele final de década o Gordini deixou de ser fabricado na Europa e também no Brasil. A região do ABC paulista já aparecia como um dos principais pólos industriais brasileiros. Concentrando um grande número de operários – muitos deles vinculados a indústria automobilística – a região viu nascer, no final da década de 1970, um movimento sindical capaz de questionar a ditadura militar e promover as greves históricas de 1978 e 1979. Nascia ali o Partido dos Trabalhadores e também o líder operário que em 2002 se tornaria presidente da República.

Hoje, passados 50 anos do início de sua fabricação no Brasil, ver um Gordini circulando pelas ruas é algo muito raro. Nesse período o país se modernizou, conviveu e superou crises econômicas e, desde 1985, retomou sua normalidade política. Aqueles que viveram esses tempos, certamente sabem o quanto eles foram fecundos em termos de produção cultural, de manifestações sociais e de avanços tecnológicos. Desta forma, é possível dizer que o Gordini, assim como o Simca Chambourd, a Rural, o Aero Willys, o Jeep Willys e, é claro, o Wolksvagem conseguem atribuir àqueles anos a sua fisionomia própria.

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O material original, com mais de 170 colunas, será republicado na íntegra e sem sofrer alterações. Por isso, buscando respeitar o teor histórico das publicações, o material apresentará elementos e discussões datadas por tratarem-se de produções com mais de uma década de lançamento. Além das republicações, mais de 20 colunas inéditas serão publicadas. Completando assim 200 publicações.

Publicada originalmente no dia 21 de fevereiro de 2010.

Coluna assinada por Niltonci Batista Chaves. Historiador. Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

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