Coluna Fragmentos: Localização imprópria e irreverente!
A coluna ‘Fragmentos’, assinada pelo historiador Niltonci Batista Chaves, publicada entre 2007 e 2011, retorna como parte do projeto '200 Vezes PG', sendo publicada diariamente entre os dias 28 de fevereiro e 15 de setembro

Em 14 de junho de 1957 o Jornal da Manhã destacou em sua primeira página a proposta encampada por José Hoffmann, prefeito de Ponta Grossa e principal adversário político de Petrônio Fernal (proprietário do JM), de construir uma estação rodoviária no local onde funciona(va) o Cemitério Municipal São José.
Em que pesem os filtros que possamos fazer sobre o discurso contido na matéria em razão da disputa política e até jornalística (Hoffmann era proprietário do Diário dos Campos, apesar de ter arrendado o jornal naquele período), o fato é que a proposta do executivo municipal parece mesmo ter caído como uma bomba sobre a população ponta-grossense, a qual, atônita tentava entender a lógica de tal proposta.
Por certo, os princesinos entendiam a necessidade de a cidade contar com uma estação rodoviária, afinal, nossa história se fez a partir da lógica do “local de passagem” – a “cidade-encruzilhada” como bem a definiu o escritor Eno Theodoro Wanke –, no entanto, como justificar a sua instalação em um local onde, há cerca de quatro décadas já havia se instalado o principal cemitério da cidade? Além de espaço sagrado, no qual pessoas “ilustres” e “anônimas” estavam sepultadas, já havia se estabelecido – tanto por consenso cultural como por lógica urbanística – o uso daquele espaço para uma finalidade específica: a de guardar os mortos locais.
Mais do que isso, quando se decidiu, no começo do século XX, instalar ali um cemitério, o que se objetivou foi criar um espaço apropriado para fins de sepultamento. Apesar do avanço físico ponta-grossense nas décadas seguintes, o critério para a escolha foi a pertinência do lugar que, então, ficava relativamente distante da área urbana ponta-grossense, o que garantia não só a preservação dos mortos, mas a defesa sanitária dos vivos.
Em razão disso, o JM não teve dúvidas ao afirmar a LOCALIZAÇÃO IMPRÓPRIA E IRREVERENTE para o pretendido por Hoffmann. O resultado do embate sabemos hoje: o Cemitério São José continuou intacto; ainda abriga os mortos daqueles tempos e outros que vieram depois.
Há poucos anos outro episódio ocorrido em Ponta Grossa remeteu a mesma situação da LOCALIZAÇÃO IMPRÓPRIA E IRREVERENTE. Infelizmente esse episódio não parece ter sensibilizado os órgãos de comunicação, os chamados “formadores de opinião” e a própria comunidade e, assim, a Estação Arte, espaço criado na gestão Paulo Cunha Nascimento com o louvável propósito de abrigar exposições, apresentações e outros eventos culturais, transformou-se em “Mercado da Família”. Desta forma, Ponta Grossa perdeu um rico espaço cultural, que funcionava em um prédio de inquestionável valor histórico e identitário e “ganhou” um mercado popular – também de inquestionável valor social – mas que poderia/deveria funcionar em outro imóvel entre os que a municipalidade possui na área central da cidade.
Passa o tempo e novamente nos deparamos com outro embate que parece seguir na mesma trilha dos anteriores: a implantação de um novo aterro sanitário!
Ninguém, desde o mais brilhante urbanista ao mais simples cidadão, discorda sobre a necessidade de a cidade possuir um aterro sanitário. Por dia, nossa população produz toneladas de lixo. A inexistência de mecanismos de coleta e de deposito desse lixo, evidentemente, causaria o caos! Essa é uma questão de saúde pública que atinge todas as classes sociais e que se faz presente no cotidiano dos moradores das periferias, do centro da cidade, das favelas e dos luxuosos condomínios que se multiplicam em diversas áreas de Ponta Grossa.
Mais do que a complexa discussão a respeito dos possíveis danos que o aterro possa causar ao meio-ambiente, o que parece ter ficado em segundo plano é algo tão fundamental quanto o eixo central dos debates: a LOCALIZAÇÃO IMPRÓPRIA E IRREVERENTE. Suponhamos que laudos técnicos comprovem a não existência de risco ao meio ambiente. A utilização de uma das regiões naturais mais ricas dos Campos Gerais para a implantação de um aterro sanitário é um absurdo tão grande quanto a proposta feita há mais de 50 anos pelo prefeito de Ponta Grossa de utilizar a área do Cemitério São José para a criação de um terminal rodoviário.
Imagino que o número de caminhões carregados de lixo que transitarão diariamente pela região e o visual que se formará pelo deposito sistemático de resíduos inviabilizará a utilização da área para turismo e lazer. Ponta Grossa, desta forma, perderá não só uma possibilidade de arrecadação, com a exploração turística da região do São Jorge, como atingirá o direito de seus cidadãos ao lazer e ao aproveitamento do que a natureza gratuitamente ofereceu. Talvez se o embate fosse feito – como foi na década de 1950 – não apenas em bases técnicas (uma vez que laudos pró e contra o aterro já foram fartamente divulgados pela própria imprensa), mas considerando a adequação daquele uso específico para outros fins, não tivéssemos tanta polêmica. Infelizmente, no caso do aterro sanitário, ao menos por enquanto, a manchete publicada pelo JM em 1957 ainda continua plena de validade: LOCALIZAÇÃO IMPRÓPRIA E IRREVERENTE!
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O material original, com mais de 170 colunas, será republicado na íntegra e sem sofrer alterações. Por isso, buscando respeitar o teor histórico das publicações, o material apresentará elementos e discussões datadas por tratarem-se de produções com mais de uma década de lançamento. Além das republicações, mais de 20 colunas inéditas serão publicadas. Completando assim 200 publicações.
Publicada originalmente no dia 22 de novembro de 2009.
Coluna assinada por Niltonci Batista Chaves. Historiador. Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná.





















